Ultima atualização 27 de agosto

Howden aponta que desafios da saúde corporativa são os mesmos no mundo inteiro

Mark Ramsook
Mark Ramsook

EXCLUSIVO – O plano de saúde corporativo é o benefício mais requisitado pelos trabalhadores, não apenas no Brasil. Da mesma forma, os desafios também são similares: inflação médica, novas terapias, envelhecimento da população e aumento das doenças crônicas, que pressionam os custos e obrigam empregadores a repensar a forma de oferecer proteção. Para Mark Ramsook, diretor executivo de Soluções Globais de Crescimento da Howden Global Employee Benefits, o Brasil está no centro dessa discussão por uma característica particular: a forte dependência dos planos privados entre os trabalhadores do mercado corporativo.

A avaliação faz parte das conclusões do estudo Global Employee Health Report 2026, desenvolvido pela Howden para analisar não apenas a inflação médica, mas também tendências de tecnologia, comportamento dos trabalhadores e diferenças entre os sistemas de saúde de diversos países. Segundo Ramsook, a intenção foi fugir de uma análise concentrada nos Estados Unidos e no Reino Unido e compreender as particularidades de cada mercado.

Essa abordagem evidencia diferenças importantes entre Brasil, Europa e Estados Unidos. Em boa parte dos países europeus, os sistemas públicos têm papel relevante e os planos privados funcionam, muitas vezes, como complemento ou como uma forma de acelerar o acesso a diagnósticos e tratamentos. No Reino Unido, por exemplo, determinadas condições crônicas permanecem sob responsabilidade do sistema público, enquanto a assistência privada é utilizada para outros tipos de atendimento.

Nos Estados Unidos, a situação é diferente, com custos elevados e maior responsabilidade dos empregadores e indivíduos pelo financiamento da assistência. Ramsook cita que a cobertura de uma família pode superar US$ 20 mil, além de franquias elevadas. No Brasil, por sua vez, o plano de saúde privado está presente em grande parte das empresas dos principais setores e se tornou o principal canal de acesso à assistência para muitos trabalhadores.

“Saúde no Brasil deixou de ser visto como um benefício para se tornar uma parte central da infraestrutura”, afirma Ramsook. Para ele, essa característica torna o mercado brasileiro diferente de outros países, especialmente na maneira como doenças graves são tratadas entre trabalhadores do ambiente corporativo.

A saúde mental está no centro das discussões

Um dos pontos que mais chamaram a atenção no levantamento foi a diferença entre a percepção das seguradoras e a dos empregadores. Na visão das companhias de seguros, o câncer aparece como principal responsável pelos sinistros de maior impacto financeiro, seguido por doenças cardiovasculares e problemas musculoesqueléticos. Entre os empregadores, porém, a saúde mental surge como a principal preocupação.

No Brasil, 59% dos participantes apontaram preocupação com o tema. Ramsook considera que o resultado não significa necessariamente que os trabalhadores brasileiros apresentem maior incidência de problemas de saúde mental. Uma possibilidade é que o País tenha menor estigma em relação ao assunto e maior disposição das empresas para reconhecer seus efeitos. “A minha percepção é que provavelmente não existe uma necessidade ou prevalência genuinamente maior na força de trabalho brasileira”, diz. Para o executivo, o resultado pode estar associado à cultura brasileira, que mostra pessoas mais ‘felizes’, e à maior abertura para discutir saúde mental.

A preocupação empresarial também está relacionada aos impactos sobre os negócios. Os problemas de saúde mental podem provocar afastamentos, absenteísmo, perda de produtividade e alterações de comportamento capazes de afetar os resultados das organizações. Nesse cenário, a prevenção ganha espaço, mas Ramsook alerta para a necessidade de ir além de programas genéricos de bem-estar. Iniciativas de well-being se disseminaram nos últimos anos, porém nem sempre seus resultados são mensuráveis. Na saúde mental, prevenção significa preparar trabalhadores para lidar com estresse, desenvolver resiliência e saber onde encontrar apoio adequado. A cultura das empresas também tem peso nesse processo, principalmente em atividades marcadas por grande pressão e cargas elevadas de trabalho.

A prevenção também passa pela compreensão do perfil da população de cada empresa. Idade, gênero, estágio de vida, localização e ocupação ajudam a identificar riscos e orientar programas de saúde. Ramsook cita o diabetes como exemplo de como as condições físicas e mentais estão conectadas. Além dos impactos clínicos, a doença pode estar associada a estresse, ansiedade e problemas de sono. No Brasil, o levantamento também identificou preocupação com doenças relacionadas à obesidade e problemas cardiovasculares.

O problema ganha dimensão adicional diante da inflação médica. Segundo Ramsook, os aumentos de custos estão atualmente na casa dos dois dígitos em praticamente todos os países analisados. Mantido esse ritmo e sem mudanças na gestão dos benefícios, os gastos dos empregadores podem dobrar em menos de cinco anos.

Ao mesmo tempo, avanços como imunoterapias, terapias genéticas e medicina personalizada ampliam as possibilidades de tratamento, mas chegam acompanhados de custos elevados. A equação coloca prevenção e gestão da jornada assistencial entre as prioridades para os próximos anos.

Tecnologia aprimora a jornada do paciente

Pontos como a Inteligência artificial, aprendizado de máquina e automação de processos devem ter participação crescente na transformação dos benefícios de saúde. Na avaliação de Ramsook, essas ferramentas poderão ampliar a interação com os trabalhadores, apoiar decisões e estimular maior responsabilidade individual sobre hábitos e saúde.

No Brasil, entretanto, a tecnologia sozinha não resolve o problema. A facilidade de acesso a especialistas e hospitais de referência é uma vantagem do sistema privado, mas também criou expectativas elevadas entre os beneficiários. “Nem sempre procurar diretamente o especialista mais renomado é o caminho mais eficiente para determinado problema”, avisa Ramsook.

Por isso, ele vê espaço para modelos com triagem e serviços de concierge, capazes de orientar o paciente ao atendimento adequado em cada etapa. “A estratégia pode contribuir para controlar custos sem comprometer os resultados clínicos. Soluções complementares, como clínicas de atendimento imediato e ferramentas digitais direcionadas a determinadas condições, também tendem a ganhar espaço”.

Outro movimento será a personalização. Em vez de benefícios iguais para toda a população, as empresas poderão considerar gênero, idade e estágio de vida na construção das coberturas. Ramsook chama atenção especialmente para a saúde feminina, lembrando que grande parte dos medicamentos e tratamentos disponíveis foi historicamente desenvolvida tendo os homens como referência.

Ele antecipa: “o desafio será equilibrar acesso, inovação e sustentabilidade financeira”. Para Ramsook, o mercado brasileiro poderá chegar a um ponto em que a capacidade do setor privado e o aumento dos custos exijam novas formas de interação entre assistência pública e privada. As dimensões continentais do País e as diferenças regionais na oferta de hospitais e serviços acrescentam complexidade a essa discussão.

Apesar das pressões, o executivo interpreta alguns indicadores brasileiros de maneira positiva. A utilização dos serviços e a disposição para procurar apoio em saúde mental demonstram, segundo ele, confiança dos trabalhadores no canal privado. “O próximo passo será preservar essa confiança enquanto empresas, operadoras e seguradoras buscam ampliar a capacidade de atendimento e controlar uma conta que cresce em ritmo acelerado. Há uma expectativa de que o plano privado de saúde faça mais aqui do que em qualquer outro lugar do mundo”, conclui Ramsook.

DESTAQUES DO ESTUDO

• Peso do plano empresarial: 67% dos profissionais ouvidos no Brasil recorreram exclusivamente ao plano oferecido pela empresa para o tratamento de saúde mais grave realizado nos 12 meses anteriores, ante 40% globalmente. Entre os brasileiros, 74% tiveram o tratamento integralmente coberto pelo plano empresarial, contra 56% na amostra global.

• Pressão dos custos médicos: a tendência médica projetada para 2026 é de 10,8% no Brasil, ante 10,6% globalmente e 10,5% na América Latina.

• Acesso ao cuidado: 26% dos brasileiros afirmaram ter pago separadamente por atendimento porque a espera pelo plano empresarial era longa demais, frente a 20% globalmente.

• Saúde mental: 59% dos profissionais brasileiros buscaram tratamento relacionado à saúde mental, ante 50% na amostra global.

Kelly Lubiato, de São Paulo

Compartilhe no:

Assine nossa newsletter

Você também pode gostar

Feed Apólice

Assine nossa Newsletter

Receba as principais notícias, análises e tendências do mercado de seguros diretamente no seu e-mail.

Respeitamos sua privacidade.
Leia nossa Política de Privacidade.

Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.