Nos últimos anos, a logística corporativa passou por uma transformação profunda. Rastreamento em tempo real, inteligência artificial aplicada à roteirização, automação de centros de distribuição e análise preditiva de dados deixaram de ser diferenciais e se tornaram padrão em muitas operações no Brasil. O discurso é o da eficiência total: mais controle, menos falhas e decisões cada vez mais orientadas por tecnologia.
O problema é que esse avanço criou uma perigosa ilusão de segurança. Apesar de operações mais conectadas e sofisticadas, muitas empresas continuam acumulando prejuízos relevantes quando enfrentam sinistros logísticos. E, na maioria das vezes, a causa não está na ausência de tecnologia, mas na fragilidade da estratégia de seguros, que não acompanhou a evolução da operação.
A contradição é evidente. A tecnologia reduz falhas operacionais, melhora a previsibilidade e otimiza processos. Mas, quando ocorre um roubo de carga, uma avaria relevante, um acidente ou um atraso crítico, o impacto financeiro continua sendo determinado por um fator frequentemente negligenciado: a qualidade da apólice contratada. Coberturas genéricas, limites inadequados e cláusulas desalinhadas à realidade logística transformam o seguro em um instrumento ineficaz justamente quando ele mais é necessário.
Nenhuma tecnologia elimina o risco por completo. Um caminhão monitorado por satélite, com sensores de temperatura, telemetria e alertas inteligentes, ainda circulam por rodovias marcadas por criminalidade, infraestrutura precária, falhas humanas e eventos climáticos extremos. A tecnologia reduz a probabilidade do problema, mas não impede que ele aconteça. É nesse ponto que o seguro deixa de ser acessório e passa a ser decisivo.
Ainda assim, muitas empresas insistem em tratar o seguro como um custo operacional inevitável, e não como parte da estratégia de gestão de risco. Enquanto investimentos em tecnologia passam por análises rigorosas de retorno, indicadores de performance e planejamento de longo prazo, o seguro segue sendo contratado de forma automática, desconectado da operação real e sem diálogo entre áreas-chave da companhia.
A falta de integração entre logística, financeiro e gestão de riscos é um dos maiores gargalos da proteção logística hoje. Quando essas áreas não conversam, o resultado é previsível: operações sofisticadas protegidas por apólices frágeis. O elo mais fraco não está no sistema, mas no planejamento.
O seguro precisa ocupar o mesmo patamar estratégico da tecnologia. Assim como sistemas logísticos são customizados para cada tipo de operação, as apólices também devem ser desenhadas sob medida. Tipo de carga, rotas, modais, frequência de transporte, perfil das transportadoras e histórico de sinistros não são detalhes, são variáveis centrais para definir se o seguro será um aliado ou apenas um contrato caro e ineficiente.
Paradoxalmente, a própria tecnologia que hoje gera sensação de proteção pode , e deve, ser usada para fortalecer a estratégia de seguros. Dados de rastreamento, telemetria, histórico operacional e indicadores de performance são ferramentas poderosas na negociação com seguradoras. Quando bem utilizados, esses dados contribuem para apólices mais aderentes à realidade da operação, melhores condições contratuais e até redução do valor do prêmio.
O verdadeiro desafio das empresas não está apenas em inovar, mas em garantir que essa inovação esteja, de fato, protegida. Investir em tecnologia sem revisar a estratégia de seguros é construir eficiência sobre bases frágeis. A logística pode ser moderna, inteligente e altamente conectada, mas, sem uma gestão de seguros à altura, continuará perigosamente vulnerável.
*Por João Paulo Barbosa, sócio-diretor da Mundo Seguro e especialista em seguro de cargas.




