Ultima atualização 05 de fevereiro

Seguro para créditos de carbono: a próxima camada de confiança do mercado

Felipe Viana
Felipe Viana

O mercado de crédito de carbono amadureceu. E, com ele, amadureceu também a expectativa de quem compra. A pergunta já não é apenas “qual é a qualidade do crédito?”. Ela passou a incluir “qual é a proteção por trás da entrega, da operação e da reputação associada a esse ativo?”.

É nesse ponto que os seguros deixam de ser acessório e passam a ser infraestrutura. Em um cenário em que empresas assumem metas públicas, reportam compromissos e são cobradas por coerência, a busca por instrumentos de transferência de risco se torna parte natural da governança. Não se trata de “garantir a perfeição” — trata-se de reduzir incertezas, acelerar decisões e tornar o mercado mais previsível para compradores, desenvolvedores e financiadores.

O que, de fato, está sendo segurado

Quando falamos em seguro para projetos e créditos de carbono, é importante separar dois tipos de risco que, na prática, se complementam. O primeiro é o risco físico e operacional. Em projetos florestais, por exemplo, eventos como incêndios, invasões e desmatamento ilegal são riscos reais. Mas a lógica do seguro não deveria ser “cobrir um projeto inteiro” como se um sinistro se espalhasse, de forma homogênea, por dezenas de milhares de hectares. O que faz sentido é o desenho de coberturas proporcionais, orientadas por dados e focadas no impacto efetivo: recomposição, restauração, reforço de monitoramento e resposta rápida.

O segundo é o risco de performance e entrega. Em projetos de restauração e manejo, há variáveis de longo prazo, além de fatores regulatórios e de certificação que podem afetar cronogramas. Para o comprador, o risco mais sensível muitas vezes não é o evento físico, mas a incerteza sobre a entrega do volume de créditos contratado no prazo necessário — especialmente quando há compromissos corporativos e prestações de contas ao mercado. Aqui, entram coberturas que se aproximam do que o setor já conhece em outras frentes: garantias relacionadas a receitas não realizadas, atrasos e continuidade de negócios. O objetivo é oferecer previsibilidade onde hoje ainda há volatilidade.

Padronização e preço: o gargalo que define a escala

Há uma razão objetiva para esse mercado ainda não ter “produto de prateleira”: o crédito de carbono não é homogêneo. Projetos variam por bioma, metodologia, riscos territoriais, histórico fundiário, nível de pressão externa, estrutura de MRV e governança local — e essa diversidade impacta diretamente a precificação. Do lado do segurador, a baixa comparabilidade dificulta modelos replicáveis; do lado do desenvolvedor, apólices muito customizadas elevam custo de estruturação e ampliam o tempo de diligência. O resultado é um paradoxo: a demanda por proteção cresce, mas o caminho até uma solução escalável ainda é caro e, muitas vezes, lento.

É justamente por isso que padronização e preço não podem ser tratados como temas separados. O seguro só cumpre seu papel quando o prêmio é compatível com a economia do ativo que ele protege; se vira um “pedágio” que compromete a viabilidade do projeto, não há escala — e sem escala, não há curva de aprendizado nem tendência consistente de redução de preço. 

O destravamento passa por uma linguagem comum: gatilhos claros, documentação padronizada, métricas de acompanhamento e uma matriz objetiva do que é risco coberto e risco excluído. Com isso, a precificação pode seguir uma lógica mais pragmática — cobertura proporcional, escopo delimitado e exigências técnicas alinhadas ao risco real — viabilizando modelos em faixas mais racionais (na ordem de poucos pontos percentuais do valor assegurado). Quando a matemática fecha, o seguro reforça confiança do comprador e pode melhorar condições de financiamento; quando não fecha, deixa de ser proteção e vira apenas mais um custo — inclusive reputacional.

Como destravar: dados, tecnologia e desenho modular

O caminho para destravar esse mercado já é conhecido no setor: mais dados, mais previsibilidade e produtos mais modulares. A boa notícia é que projetos de carbono, especialmente os de alta integridade, já operam com uma disciplina de monitoramento que conversa bem com a lógica seguradora: sensoriamento remoto, auditorias, monitoramento territorial, controles e rastreabilidade. Tudo isso reduz assimetria de informação — e reduzir assimetria é reduzir prêmio.

Além disso, há espaço para estruturas paramétricas em parte das coberturas, desde que os gatilhos escolhidos sejam tecnicamente consistentes com o risco que se pretende mitigar. A grande vantagem desses modelos é a objetividade e a velocidade de acionamento, algo especialmente valioso em eventos climáticos e na necessidade de resposta rápida no território.

Uma agenda de parceria para consolidar um novo mercado

O seguro para créditos de carbono não vai nascer pronto — e nem precisa. Ele precisa nascer útil. Para isso, seguradoras, corretores, desenvolvedores e compradores precisam tratar esse tema como construção conjunta de mercado: definir parâmetros mínimos, criar checklists técnicos replicáveis, padronizar documentação e estabelecer, com transparência, o que está sendo transferido de risco e em quais condições.

O Brasil tem escala, biomas e pipeline de projetos suficientes para liderar essa evolução. Seguros bem desenhados podem se tornar um acelerador de integridade, uma camada adicional de conforto reputacional para o comprador e um instrumento de previsibilidade para investimentos de longo prazo. O mercado de carbono está avançando para uma etapa em que confiança não será apenas uma declaração. Será uma estrutura. E, nesse cenário, o seguro tem condições de ocupar o lugar que já ocupa em outras frentes: um componente estratégico de resiliência, governança e continuidade.

*Por Felipe Viana, Diretor Comercial da Carbonext.

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