Ultima atualização 15 de janeiro

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Perdas de US$ 100 bilhões mostram o “novo normal” do seguro global

Relatório da Munich Re indicam que os recentes incêndios florestais e eventos recorrentes substituem catástrofes pontuais como principal fonte de perdas do setor
Megaincêndios em Los Angeles — Foto: Reprodução / redes sociais
Megaincêndios em Los Angeles — Foto: Reprodução / redes sociais

EXCLUSIVO – O ano de 2025 entra para a história do mercado segurador global como um verdadeiro alerta. Mesmo sem a ocorrência de grandes furacões atingindo o território continental dos Estados Unidos, algo que não acontecia havia uma década, as perdas seguradas globais voltaram a ultrapassar a marca de US$ 100 bilhões por conta de outros grande ocorridos. Ao todo, os desastres naturais causaram cerca de US$ 224 bilhões em perdas econômicas, dos quais aproximadamente US$ 108 bilhões estavam cobertos por seguros, é o que mostram os dados do NatCatSERVICE, estudo global de catástrofes naturais da Munich Re.

Mais do que os números absolutos, o relatório chama a atenção pela mudança no perfil de risco que vem moldando o setor. Incêndios florestais, enchentes e tempestades severas, todos classificados como riscos “não associados a eventos de pico”, responderam pela maior parte das perdas do ano. Eventos tradicionalmente vistos como secundários passaram a gerar danos sistêmicos, recorrentes e de grande magnitude, alterando profundamente a lógica de subscrição, precificação e gestão de capital no mercado de seguros e resseguros.

“O tipo de perigo que causa as perdas é relevante por duas razões fundamentais”, explica Tobias Grimm, climatologista-chefe da Munich Re. “Primeiro, porque diferentes perigos têm diferentes níveis de cobertura. Inundações, por exemplo, são significativamente menos seguradas do que tempestades de vento, o que amplia a lacuna de proteção. Segundo, porque os modelos desses riscos não-pico estão sendo profundamente refinados para incorporar experiências recentes de perdas, como incêndios florestais e enchentes pluviais associadas a precipitações extremas”, pontua.

O exemplo mais emblemático dessa transformação foram os incêndios florestais na região de Los Angeles registrado em janeiro de 2025, que se tornaram o desastre natural mais caro já registrado no mundo, com perdas totais estimadas em US$ 53 bilhões, sendo cerca de US$ 40 bilhões segurados. A combinação de seca prolongada, ventos de inverno excepcionalmente fortes, alta concentração urbana e valores segurados elevados criou um evento de megaperda com padrões de acumulação comparáveis aos de grandes furacões.

“Os incêndios florestais em Los Angeles ilustram como sinais climáticos, ambiente construído e concentração de exposição podem se combinar em um único evento extremo”, afirma Grimm. “Esse risco não pode mais ser visto como rural ou sazonal. A expansão da interface urbano-florestal e o comportamento do fogo impulsionado pelo vento criam um perfil de risco completamente diferente” alerta.

Do ponto de vista da segurabilidade, o episódio impõe ajustes claros como controles de agregação mais rigorosos, franquias e limites mais adequados ao risco, além de exigências crescentes de mitigação como construção resiliente ao fogo e criação de espaços defensáveis, que passam a ser elementos centrais da subscrição. “Prevenção é cara, mas funciona”, destaca Grimm, ao defender códigos de obras mais rigorosos e planejamento do uso do solo como condições essenciais para manter o seguro acessível no longo prazo.

Temperatura global causa perdas mais frequentes

O relatório da Munich Re também destaca que 2025 figura entre os anos mais quentes já registrados. Os últimos doze anos concentram-se entre os mais quentes da série histórica, reforçando evidências científicas de que o aquecimento global está ampliando a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos.

Segundo o pesquisador, o setor já consegue estabelecer correlações mais claras entre clima e perdas, ainda que o fenômeno não atue isoladamente. “A principal alavanca do crescimento das perdas seguradas continua sendo a urbanização e o aumento do valor dos ativos expostos ao risco”, explica. “O problema é que esse crescimento não veio acompanhado de uma redução equivalente da vulnerabilidade. O aquecimento global atua como um acelerador, agravando um cenário que já era frágil”.

Estudos de atribuição climática, que comparam a ocorrência de eventos em um mundo pré-industrial e no cenário atual de aproximadamente +1,3°C, indicam que muitos fenômenos se tornaram mais frequentes ou mais severos. O resultado é um “novo normal” em que perdas seguradas anuais na casa dos US$ 100 bilhões deixam de ser exceção estatística.

Outro ponto apresentador no relatório é o caráter quase acidental do desempenho de 2025. Apesar da formação de três furacões de categoria máxima 5 no Atlântico Norte (número não observado desde 2005), nenhum deles atingiu o território continental dos Estados Unidos. O furacão Melissa, por exemplo, devastou a Jamaica, com perdas totais de US$ 9,8 bilhões, mas poupou o principal mercado segurador do mundo. “O mundo foi poupado de perdas muito maiores em grande parte por acaso”, afirma Grimm. “Não foi uma temporada de furacões tranquila; simplesmente não houve impactos diretos nos EUA. Se isso tivesse ocorrido, os números globais seriam completamente diferentes” analisa.

Essa constatação revela o alto grau de concentração de exposição do sistema segurador global. Pelo sexto ano consecutivo, as perdas seguradas superaram US$ 100 bilhões mesmo sem um grande furacão nos Estados Unidos. “Isso mostra que os resultados ainda dependem mais da sorte do que da resiliência”, alerta o climatologista.

O estudo mostra também que cerca de metade das perdas globais de 2025 não estava segurada. Em regiões como Ásia, África e países de menor renda, a penetração do seguro permanece abaixo de 5%, ampliando impactos sociais e fiscais após grandes eventos. Mesmo em mercados desenvolvidos, riscos como inundações continuam subsegurados.

Para a Munich Re, reduzir essa lacuna exige uma abordagem multifacetada, sendo elas parcerias público-privadas, reformas regulatórias, investimentos em mitigação, planejamento urbano e educação sobre riscos são peças-chave desse quebra-cabeça. Soluções como seguros paramétricos ganham espaço, especialmente como complemento ao seguro tradicional, oferecendo liquidez rápida em cenários de desastre, sobretudo para PMEs, turismo e infraestrutura pública.

O resseguro como estabilizador

Nesse contexto, o papel do resseguro torna-se ainda mais imponente. Com a volatilidade crescente e balanços pressionados, o resseguro atua como estabilizador do sistema, fornecendo capacidade, suavizando choques e auxiliando na descoberta de preços em um ambiente de risco em transformação. “Enquanto as perdas seguradas continuarem excedendo US$ 100 bilhões ano após ano, nosso papel estabilizador aumenta”, afirma. “Confiar apenas no capital como primeira linha de defesa não é sustentável”.

A principal mensagem do NatCatSERVICE 2025 junto a de Tobias Grimm é clara: 2025 não deve ser interpretado como um ano ameno, mas como um tiro de advertência para o mercado segurador global. A adaptação aos riscos climáticos deixou de ser uma opção estratégica e passou a ser uma condição estrutural para a sustentabilidade do seguro, do resseguro e da própria economia. “Não pensem em 2025 como um ano tranquilo. Os riscos não associados a eventos de pico impulsionaram os maiores danos e a mensagem é simples: é preciso ser realista e se adaptar”. conclui.

Nicholas Godoy, de São Paulo.

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