Em um trânsito cada vez mais marcado pela pressa, reduzir a velocidade vai além de uma simples regra para se tornar a medida mais eficaz de proteção à vida. Os números impressionam e pedem ação. O Banco Mundial estima que o Brasil perde anualmente cerca de US$ 61 bilhões com sinistros de trânsito — o equivalente a 3,8% do PIB (Banco Mundial). No entanto, o custo humano é ainda mais devastador: cerca de 37 mil vidas são perdidas por ano no trânsito (Atlas da Violência 2026). No centro dessa crise está o excesso de velocidade, principal fator de risco para a gravidade dos acidentes.
Mas como os próprios motoristas percebem essa questão? E o como fazer com que uma intenção de dirigir com segurança se transforme, de fato, em comportamento?
Para ajudar a responder essas perguntas e compreender o perfil do condutor brasileiro, a Fundación Mapfre, em parceria com a Poli-USP, a UFPR e com apoio da Senatran, realizou uma pesquisa inédita com 1.540 motoristas de todas as regiões do país. O estudo “Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes” traz um contraste marcante: mais de 90% dos condutores querem respeitar as normas de trânsito e associam o respeito aos limites de velocidade a valores como proteção da vida e cidadania. Contudo, um terço admite acelerar por pressa, atrasos ou por considerar os limites de velocidade incompatíveis com a via.
A pesquisa revela também que a maior influência para a direção segura vem do núcleo familiar (cônjuges, pais e filhos), citado por 80% dos participantes como uma das principais referências de decisão. Além disso, testes demonstraram que a presença de pedestres e a sinalização adequada reduzem a velocidade média em até 10 km/h. Essa moderação salva vidas: reduzir a velocidade de 48 km/h para 32 km/h faz a probabilidade de fatalidade em atropelamentos despencar de 50% para 10%¹.
Essas evidências mostram que a segurança viária exige uma abordagem sistêmica. É preciso ir além das placas e da fiscalização eletrônica e investir no redesenho urbano — com o uso de travessias elevadas e zonas de 30 km/h, por exemplo —, e na realização de campanhas educativas que conversem com as percepções e as crenças dos condutores. Essas são iniciativas que atendem ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans).
É necessário promover a empatia dos motoristas em relação a todos os atores da mobilidade — pedestres, ciclistas e motociclistas —, reforçando o compromisso com o respeito aos limites de velocidade. Nesse contexto, a influência dos entes queridos dos motoristas aparece como um recurso importante e pode ser usado como um dos pilares das campanhas e iniciativas de trânsito. A combinação entre conscientização e os princípios do Sistema Viário Seguro, que pressupõem o desenvolvimento de uma infraestrutura viária voltada à segurança, fortalece o caminho para que a Visão Zero Mortes no Trânsito se torne realidade no Brasil até 2030.
*Por: Fátima Lima, representante da Fundação Mapfre no Brasil.







