A economia dos Estados Unidos segue em trajetória de crescimento em 2026, sustentada pelo consumo das famílias de maior renda, pelo mercado acionário aquecido e pelo forte ciclo de investimentos em tecnologia e infraestrutura ligada à inteligência artificial. Ao mesmo tempo, a América Latina deve conviver com juros elevados por mais tempo, crescimento moderado e desafios persistentes para o crédito. A avaliação foi apresentada no webinar “Um ano de Trumpnomics”, promovido pela Coface, com os economistas Marcos Carias, responsável pela análise da América do Norte, e Patricia Krause, economista-chefe para a América Latina.
Segundo Carias, a Coface projeta crescimento de 2,2% do PIB dos EUA em 2026, com possibilidade de revisão para cima, diante de dados recentes mais fortes do que o esperado. O consumo segue como principal motor da atividade, impulsionado pelo chamado efeito riqueza: os 20% mais ricos da população americana respondem por 50% a 60% do consumo total, beneficiados pela valorização do mercado acionário.
“O consumo nos Estados Unidos é altamente concentrado nas famílias de maior renda, que têm maior exposição ao mercado acionário. Com a valorização dos ativos financeiros, esse grupo segue sustentando a demanda, mesmo em um ambiente de juros elevados”, afirmou Marcos Carias, economista da Coface para a América do Norte.
No campo inflacionário, embora o impacto das tarifas tenha sido menor do que o inicialmente temido, a pressão permanece presente. A inflação ao consumidor está em 2,7%, acima da meta de 2% do Federal Reserve, com expectativa de reaceleração para perto de 3% nos próximos meses. Os dados apresentados no webinar indicam que as tarifas vêm sendo majoritariamente absorvidas pelas empresas americanas, pressionando margens.
“Os dados mostram que os exportadores não estão reduzindo preços para o mercado americano. O ajuste está acontecendo dentro da própria economia dos EUA, com empresas absorvendo parte das tarifas nas margens”, explicou Carias.
Diante desse cenário, o Federal Reserve manteve os juros estáveis, e o mercado projeta até dois cortes ao longo de 2026, condicionados à trajetória da inflação. “Se a economia continuar rodando forte, o Fed pode ter menos espaço para cortar juros. Isso afeta diretamente setores mais sensíveis ao crédito, como construção e empresas mais alavancadas”, acrescentou o economista.
América Latina: crescimento moderado e política monetária desigual
Na avaliação de Patricia Krause, a América Latina deve crescer 2,3% em 2026, ritmo semelhante ao de 2025 (2,2%), mas com desempenho bastante heterogêneo entre os países. A região segue exposta à política comercial dos Estados Unidos, que ampliou tarifas sobre setores como aço e alumínio, além da introdução de uma tarifa-base de 10% aplicada à maioria dos países latino-americanos. Já o México segue exposto e à incerteza sobre a revisão do acordo comercial com os Estados Unidos em 2026.
“Apesar do aumento das tarifas e de um ambiente externo mais desafiador, as exportações latino-americanas mostraram resiliência, em parte pela diversificação de mercados e pelo redirecionamento de fluxos comerciais”, destacou Krause.
No Brasil, a inflação encerrou 2025 dentro da banda de tolerância e a Coface projeta início do ciclo de corte de juros em março de 2026, após a Selic ter sido mantida em 15% ao ano. A expectativa é que a taxa encerre este ano em 12,25%, ainda em patamar elevado. Nesse contexto, a Coface projeta crescimento do PIB brasileiro de cerca de 1,9% em 2026, em desaceleração em relação aos anos anteriores, refletindo o impacto prolongado dos juros altos sobre consumo, crédito e investimento.
“No Brasil, o início do ciclo de flexibilização monetária deve ser cauteloso. Mesmo com a inflação recuando, os juros seguirão elevados por mais tempo, o que limita uma retomada mais forte da atividade”, avaliou a economista-chefe da Coface para a América Latina.
A Argentina, por sua vez, apresentou queda relevante da inflação, que foi de 284% em abril de 2024 para 31,5% ao fim de 2025, com expectativa de recuo para 20% em 2026 e 13% em 2027. Segundo a Coface, o país deve registrar crescimento do PIB de 3,4% em 2026, acima da média da América Latina, impulsionado por uma melhora no consumo das famílias decorrente da desaceleração inflacionária. Além disso, os investimentos tendem a ser estimulados por uma melhora no ambiente de negócios.
“O cenário para 2026 combina crescimento, mas com riscos relevantes. Juros ainda elevados, incertezas comerciais e uma recuperação desigual entre setores exigem das empresas uma gestão mais rigorosa de crédito, liquidez e exposição a riscos, especialmente em economias mais sensíveis ao ciclo financeiro”, concluiu Patricia Krause.




