Ultima atualização 07 de julho

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IA assume tarefas operacionais e muda a rotina dos subscritores

Daniel Feldenheimer, da Bain & Company
Daniel Feldenheimer, da Bain & Company

EXCLUSIVA – A subscrição, uma das atividades mais ‘delicadas’ e estratégicas dentro de uma seguradora, começa a passar por uma transformação silenciosa. Responsáveis por avaliar riscos, definir as condições de aceitação e estabelecer a precificação das apólices, os subscritores passam a dividir parte das tarefas operacionais com ferramentas de inteligência artificial, concentrando sua atuação em análises mais complexas e decisões estratégicas.

Um estudo da Bain & Company aponta que a adoção da IA generativa pode liberar até um terço do tempo dos profissionais de subscrição, ao automatizar tarefas como triagem de propostas, leitura e síntese de documentos, preenchimento de sistemas, elaboração de dossiês de risco, geração de apólices e verificações de compliance. Na avaliação da consultoria, essa mudança representa mais do que um ganho de eficiência: marca o início de uma transformação no próprio papel do subscritor dentro das seguradoras.

“A estimativa nasce de um exercício muito pragmático: abrir a agenda do subscritor e separar o que é trabalho de preparação do que é, de fato, decisão de risco. Quando fazemos esse raio-X, percebemos que uma fatia relevante do tempo é consumida em buscar dados, ler documentos, preencher sistemas e produzir relatórios, e não em analisar risco ou construir soluções”, afirma Daniel Feldenheimer, sócio da prática de Serviços Financeiros da Bain & Company.

Segundo o executivo, é justamente nessas atividades transacionais que essas ferramentas apresenta maior potencial de impacto. “Ao automatizar ou apoiar fortemente essas etapas, ela devolve ao subscritor algo próximo de um terço do tempo para se dedicar ao que realmente move o resultado: portfólio, preço e relacionamento”, explica.

IA assume tarefas, mas decisão continua humana

Se antes boa parte da rotina do subscritor era consumida pela análise documental e pelo tratamento de informações, a inteligência artificial generativa começa a assumir esse papel de preparação. Na prática, a tecnologia funciona como um “copiloto”, reunindo dados, resumindo documentos e organizando informações para que o profissional concentre seu tempo na avaliação dos riscos e na tomada de decisão.

“Podemos dizer que a IA generativa está assumindo o papel de copiloto do subscritor. Ela não tira o comando, mas muda bastante a forma como o voo é conduzido”, resume Feldenheimer.

Segundo ele, as aplicações já são capazes de realizar atividades como triagem de propostas, leitura e síntese de documentos, preenchimento de sistemas, geração de textos padronizados para apólices, endossos e comunicações, além de parte significativa dos relatórios internos.

Mais do que acelerar processos, a combinação entre generativa e modelos tradicionais de análise tende a ampliar a qualidade das decisões. Enquanto a IA generativa organiza grandes volumes de informação e constrói um histórico estruturado sobre cada risco, algoritmos analíticos utilizam esses dados para apoiar avaliações mais precisas. “Há duas famílias de IA trabalhando juntas. A generativa atua sobre a informação: lê, resume e organiza documentos e histórico, entregando ao subscritor um dossiê mais completo em menos tempo. O ganho de qualidade vem da combinação: mais informação relevante bem organizada, sobre melhores modelos de risco”, explica.

Outro avanço apontado pela Bain é o aumento da rastreabilidade das decisões. De acordo com o executivo, cada recomendação produzida pelos sistemas pode ser acompanhada de uma justificativa documentada e de uma trilha de auditoria, facilitando a prestação de contas para diretorias, corretores e órgãos reguladores.

Apesar do avanço tecnológico, as decisões mais sensíveis permanecem sob responsabilidade dos profissionais. A definição do apetite ao risco, a precificação de operações complexas, a negociação de grandes contratos e a análise de situações excepcionais continuam dependendo da experiência e do julgamento humano.

A redistribuição das atividades entre humanos e IA também deve alterar o perfil dos profissionais de subscrição. Na avaliação da Bain, à medida que a tecnologia assume parte das tarefas operacionais, cresce a demanda por especialistas capazes de interpretar cenários complexos, compreender diferentes segmentos econômicos e apoiar decisões estratégicas para as seguradoras.

“O estudo da Bain & Company nos permite ver o subscritor menos como um ‘processador de propostas’ e mais como um verdadeiro ‘estrategista de risco'”, afirma o executivo.

Eles explica que próximos anos, os profissionais mais valorizados serão aqueles que aliarem conhecimento técnico em segmentos específicos, como saúde, energia, agronegócio e grandes riscos, à capacidade de utilizar dados, inteligência artificial e modelos analíticos como suporte à tomada de decisão. “Não deve faltar espaço no mercado para o profissional capaz de usar o copiloto tecnológico para tomar decisões mais sofisticadas, e que conseguirá cuidar de carteiras e não apenas de casos individuais”.

Essa mudança também tende a modificar a organização das equipes de subscrição. Em vez de estruturas voltadas principalmente para atender grandes volumes de propostas, a expectativa é que as seguradoras passem a formar times multidisciplinares, reunindo especialistas em subscrição, ciência de dados, produtos e sinistros para apoiar avaliações cada vez mais complexas.

A transformação já começa a aparecer nas competências mais demandadas pelo mercado. Levantamento da Bain mostra que, após a popularização da inteligência artificial generativa, cresceram significativamente as buscas por profissionais com experiência em specialty underwriting, relacionamento com corretores (broker relationship) e gestão de riscos (risk management). Em contrapartida, habilidades ligadas a atividades mais operacionais, como processamento de transações, análise financeira e negociação tradicional, perderam espaço nas vagas anunciadas.

Para Feldenheimer, esse movimento não indica uma substituição dos profissionais pela tecnologia, mas uma redefinição de suas atribuições. “O movimento mais visível hoje é de complementação das atividades humanas, reduzindo o tempo gasto em rotinas e aumentando a disponibilidade dos times para tarefas mais complexas. O relacionamento, a interpretação de contexto e a tomada de decisão continuam sendo aspectos fundamentais. O que deve acontecer é uma transformação do papel do subscritor e das competências exigidas pelo mercado”.

Brasil ainda avança em ritmo gradual

Embora a inteligência artificial já desperte interesse crescente entre as seguradoras brasileiras, a aplicação da tecnologia na subscrição ainda está em fase inicial quando comparada a mercados mais desenvolvidos. Segundo a Bain, o setor nacional avançou nos últimos anos em ferramentas de análise de dados (analytics), mas a incorporação da IA generativa aos processos de subscrição ainda ocorre por meio de projetos-piloto e iniciativas de escala limitada.

“O Brasil já avançou em analytics tradicionais, mas em GenAI aplicada diretamente à subscrição ainda estamos na fase de pilotos e projetos em escala limitada. Vemos por aqui algumas iniciativas mais concentradas em leitura e síntese de documentos, e experimentos pontuais em P&C corporativo”, comenta.

Em mercados como Estados Unidos e Reino Unido, por outro lado, a tecnologia já começa a integrar o cotidiano dos subscritores. Segundo o executivo, seguradoras desses países vêm incorporando copilotos de IAcapazes de reunir informações, estruturar análises e apoiar a tomada de decisão durante todo o processo de subscrição.

A velocidade dessa transformação, no entanto, não será uniforme entre os diferentes ramos de seguros. De acordo com a Bain, embora o aprendizado de máquina (machine learning) continue sendo amplamente utilizado em linhas massificadas, como automóveis e vida individual, a inteligência artificial generativa tende a produzir ganhos mais relevantes justamente nas operações de maior complexidade.

“Ela agrega mais valor nas linhas menos massificadas, como Auto Frota, Vida e Saúde coletivo, além de grandes riscos, onde a subscrição é feita caso a caso, cruzando informações de múltiplos documentos e diferentes fontes. São contas customizadas, com muita documentação, e é onde ler, sintetizar e conferir vira diferencial.”

Nesses segmentos, a IA não substitui a análise técnica, mas reduz significativamente o tempo dedicado à consolidação de informações, permitindo que os subscritores concentrem esforços na avaliação dos riscos e na estruturação das coberturas.

Se o avanço da IA generativa promete tornar a subscrição mais ágil e qualificada, sua adoção também impõe novos desafios às seguradoras. Para a Bain, a discussão deixou de ser sobre a capacidade da tecnologia e passou a se concentrar na forma como ela será incorporada aos processos de decisão, preservando critérios de governança, transparência e responsabilidade. “A pergunta deixou de ser o que a IA consegue fazer e passou a ser como garantir um uso responsável, auditável e alinhado à estratégia de risco”, afirma Feldenheimer.

“Os desafios centrais estão em definir claramente quem responde pela decisão final, estabelecer políticas de uso e comitês de aprovação de modelos, medir vieses e garantir trilhas de auditoria que permitam explicar decisões para técnicos, diretoria, corretores e reguladores”, complementa o executivo.

Na avaliação da consultoria, outro equívoco recorrente é tratar a inteligência artificial apenas como uma ferramenta de automação, sem revisar os próprios processos de subscrição. Também é comum que projetos priorizem aplicações de baixo impacto ou negligenciem a qualidade dos dados que alimentam os modelos.

Nesse contexto, a Bain recomenda que as seguradoras iniciem a adoção da tecnologia em processos com elevado volume documental e menor complexidade decisória, como leitura e síntese de documentos, checagem de consistência de informações, montagem de dossiês de risco e elaboração de rascunhos de apólices. A partir desses projetos, a tendência é ampliar gradualmente o uso da IA para operações mais sofisticadas.

Daniel Feldenheimer detalha que o movimento observado no mercado indica que, nos próximos anos, a inteligência artificial deixará de ocupar um papel experimental para se tornar parte da estrutura operacional das seguradoras. O principal efeito, porém, não estará apenas na redução do tempo de processamento, mas na capacidade de elevar a qualidade das decisões e fortalecer a relação entre seguradoras, corretores e clientes.

“O principal impacto não será só em eficiência, mas elevar a velocidade e a qualidade da decisão de risco. Isso vai mudar a relação com corretores e clientes e redesenhar o papel do subscritor dentro da organização”.

Para a Bain, o movimento observado atualmente indica que a inteligência artificial generativa deve deixar de ocupar um papel experimental para se tornar parte da estrutura operacional das seguradoras. A expectativa é que, nos próximos anos, a tecnologia esteja integrada ao cotidiano da subscrição, apoiando desde a análise documental até a interação com corretores e clientes, enquanto as decisões mais complexas permanecem sob responsabilidade dos profissionais.

“Os movimentos que vemos no mercado indicam que, em cinco anos, a IA generativa tem grande potencial para deixar de ser um experimento e passar a ser parte da espinha dorsal da subscrição. O principal impacto não será só em eficiência, mas elevar a velocidade e a qualidade da decisão de risco. Isso vai mudar a relação com corretores e clientes e redesenhar o papel do subscritor dentro da organização”, resume Feldenheimer.

Nicholas Godoy

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