EXCLUSIVO – O avanço das novas estruturas digitais do mercado segurador começou a expor um desafio que vai além da inovação: como adaptar regulação, supervisão e governança a operações cada vez mais tecnológicas, rápidas e descentralizadas. O tema ganhou espaço durante o painel “Inovação Regulatória”, no Insurtech Brasil 2026.
Iniciando o debate, Anália Brum, Insurance & Legal Director da Justos, comentou, pelo lado segurador, sobre os principais desafios das insurtechs, especialmente na transição entre modelos mais flexíveis de operação e a estrutura regulatória tradicional do setor segurador. Segundo ela, o amadurecimento exige adaptações simultâneas de sistemas, processos e governança sem interromper operações já em funcionamento. “O grande desafio é trocar a roda com o carro andando”, resumiu ao comentar o processo de transformação da Justos até a obtenção da licença definitiva para operar no mercado regulado.
A executiva destacou ainda que, após o período inicial de inovação e crescimento acelerado, o mercado passa a exigir outro nível de consistência operacional das empresas. “No começo o mercado te avalia muito pelo potencial. Depois dessa transformação, a régua muda completamente”, afirmou.
As dificuldades operacionais provocadas pela aceleração regulatória também apareceram na fala de Jailson Meireles, CEO da Confitec. Segundo ele, a principal dificuldade enfrentada atualmente por seguradoras e empresas de tecnologia está na integração entre diferentes sistemas e no cumprimento dos novos prazos ligados ao Sistema de Registro de Operações (SRO). “A palavra-chave hoje é integração”, comentou. “Fazer sistema é fácil. Fazer integração é que continua sendo o maior desafio”.
O avanço do SRO 3.0, lançado este ano, também foi levantado por Meireles que para no lado prático aumentou significativamente a pressão operacional sobre seguradoras, registradoras e empresas de tecnologia, principalmente pela necessidade de transmissão rápida e consistente das informações. O executivo pontuou ainda que o mercado inteiro atravessa um processo intenso de adaptação às novas exigências técnicas e operacionais da plataforma.
Representando o lado do regulador, Júlia Normande Lins, da Diretoria de Infraestrutura de Mercado e Supervisão de Conduta da Susep, comentou que a própria autarquia também atravessa um processo de aprendizado diante da entrada de novos modelos de negócio no setor. Exemplificando, ela destacou o Sandbox Regulatório, que funcionou como uma experiência prática tanto para as empresas participantes quanto para a própria autarquia. “O sandbox é uma caixinha de areia para as empresas e talvez principalmente para o regulador”, afirmou.
Para Júlia, muitas insurtechs que passaram pelo estágio de Sandbox chegaram ao mercado definitivo já com elevado grau de maturidade operacional e tecnológica, exigindo adaptações internas da própria Susep. Além disso, ela também fomentou que a autarquia ampliou o monitoramento sobre representantes de seguros, MGAs e plataformas digitais, principalmente em temas ligados à transparência, remuneração e potenciais conflitos de interesse na regulação de sinistros.
“O consumidor precisa saber claramente quem responde por aquela operação”, disse. Segundo ela, a Susep vem identificando situações consideradas inadequadas em modelos de remuneração ligados à negativa de sinistros, justamente por envolverem um dos momentos mais sensíveis da relação entre segurado e seguradora.
Outro tema discutido foi a respeito da Lei do Contrato de Seguro (Lei 15.040/2024), apontada pelos participantes como uma das mudanças mais relevantes das últimas décadas no setor. “A lei deixa muito claro que existe uma assimetria natural na relação entre seguradora e segurado”, afirmou Júlia Lins.
Para ela, a nova legislação traz definições mais objetivas sobre prazos, responsabilidades, ônus de prova e obrigações das partes envolvidas no contrato de seguro.
Ao final do debate, Júlia também destacou que a entrada de associações de proteção patrimonial, administradoras e cooperativas no ambiente supervisionado pela Susep representa uma das maiores transformações recentes do mercado segurador brasileiro diante de uma onda de novos entrantes. O movimento tende a ampliar o acesso ao seguro e obrigará todo o setor a se adaptar. “Essa transformação vai impactar todo mundo que faz parte do mercado”, concluiu.
Nicholas Godoy, de São Paulo





