Ultima atualização 05 de novembro

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IA avança nos seguros, mas setor enfrenta desafio de adaptação

Segundo dia do CQCS Inovação 2026 debate transformação dos modelos de negócios, prevenção de riscos e importância da confiança na relação com os consumidores

EXCLUSIVO – A inteligência artificial já faz parte das operações de 65% das seguradoras europeias, enquanto outras 23% pretendem adotar a tecnologia nos próximos três anos. Os dados, apresentados pelo diretor executivo do setor de seguros para a Europa do GFT Group, Alejandro Bermejo, durante o segundo dia do CQCS Inovação 2026, nesta quinta-feira (5), em São Paulo, mostram que a transformação tecnológica avança no setor, mas também impõe desafios para as companhias que buscam converter os investimentos em ganhos de produtividade e competitividade.

O levantamento, atribuído à Autoridade Europeia de Seguros e Pensões Complementares (EIOPA), foi apresentado durante a palestra sobre o impacto da inteligência artificial na transformação das seguradoras europeias. Segundo Bermejo, a adoção dessas ferramentas já alcança diferentes etapas das operações, incluindo subscrição de riscos, regulação de sinistros, atendimento ao consumidor e desenvolvimento de sistemas.

Entre os exemplos apresentados, o executivo mencionou aplicações capazes de reduzir em aproximadamente 40% o tempo de determinados processos, com retorno sobre o investimento em menos de 12 meses. Em atividades relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, os ganhos de eficiência podem chegar a 70% na redução do tempo de execução de tarefas.

Os resultados, entretanto, dependem de mudanças que vão além da incorporação de novas ferramentas. Para Bermejo, as seguradoras precisam identificar quais atividades podem ser automatizadas, quais processos devem ser aprimorados e como reorganizar suas estruturas para aproveitar os benefícios da tecnologia.

“Precisamos definir quais processos queremos automatizar, quais queremos melhorar e, a partir disso, construir um modelo operacional capaz de sustentar essa transformação”, afirmou.

O executivo também apontou a personalização como uma das principais oportunidades para o setor. A combinação de informações internas e externas permite desenvolver produtos mais próximos das necessidades dos consumidores, com coberturas e preços ajustados aos diferentes perfis de risco. “Estamos caminhando para produtos cada vez mais personalizados, utilizando informações internas e externas para oferecer coberturas e preços adequados às necessidades de cada cliente”, destacou.

Seguradoras precisam competir por relevância

A necessidade de rever os modelos de negócios também foi abordada pela NTT DATA. Na abertura da programação, Hugo Assis, head de Insurance da companhia, destacou que a inovação não depende exclusivamente de soluções desenvolvidas fora das organizações, mas também da capacidade das próprias seguradoras de transformar seus processos e sua cultura. Para Assis, o setor precisa aproveitar a experiência acumulada ao longo dos anos sem deixar de acompanhar as mudanças tecnológicas. A proposta, segundo ele, é conciliar os aprendizados do passado com uma postura mais aberta à experimentação e à adoção de novas ferramentas.

Na sequência, Carlos Ordonez Sánchez, vice-presidente global de Inovação em Seguros da NTT DATA, apresentou uma perspectiva sobre o futuro do setor na palestra “Seguros em 2030: Competindo por Relevância, Não Apenas por Participação de Mercado”. Segundo o executivo, a inteligência artificial e outras tecnologias emergentes deverão modificar a distribuição de seguros, a subscrição de riscos e o relacionamento com os consumidores. Nesse cenário, as companhias precisarão desenvolver estruturas mais flexíveis para acompanhar a velocidade das transformações.

“Se a organização não for suficientemente flexível para compreender não apenas a inteligência artificial, mas todas as tecnologias que estão por vir, vai perder a batalha”, afirmou.

Uma das principais mudanças apontadas por Sánchez é a transição de um modelo concentrado no pagamento de indenizações para uma atuação mais preventiva, baseada no acompanhamento contínuo dos riscos. A proposta envolve utilizar dados e tecnologias para identificar exposições, orientar os segurados e reduzir a ocorrência de perdas. Esse movimento também abre espaço para o crescimento dos seguros embarcados, conhecidos como embedded insurance, das plataformas de benefícios corporativos e de soluções voltadas à saúde, longevidade e bem-estar.

Na avaliação do executivo, os consumidores deverão exigir experiências cada vez mais personalizadas, com produtos e serviços adaptados às suas necessidades em tempo próximo ao real. A inteligência artificial poderá desempenhar um papel importante nesse processo, inclusive por meio de plataformas capazes de integrar diferentes etapas da contratação e do atendimento. “O cliente exige cada vez mais personalização no seu dia a dia, que possamos compreendê-lo o mais próximo possível do tempo real”, ressaltou.

Sánchez também abordou a possibilidade de agentes autônomos de inteligência artificial realizarem interações e negociações entre si, criando novas formas de distribuição e contratação de produtos. O avanço dessas aplicações, entretanto, deverá exigir maior atenção das empresas à ética, à transparência e à confiança.

As mudanças também deverão alcançar a forma como as seguradoras avaliam e acompanham os riscos. Durante a apresentação, o executivo da NTT DATA destacou aplicações de gêmeos digitais, robótica e imagens de satélite para ampliar a capacidade de monitoramento e antecipação de perdas.

Entre os exemplos mencionados estão a digitalização de operações industriais da Mercedes-Benz e o uso de plataformas de análise geoespacial. Uma delas, a Geolinks, utiliza, segundo a apresentação, mais de 60 variáveis relacionadas a imóveis para apoiar a avaliação e a subscrição de riscos.

Essas ferramentas permitem reunir informações sobre características das propriedades, localização e exposição a diferentes ameaças, contribuindo para decisões mais precisas. A utilização de dados geoespaciais também ganha relevância diante da intensificação dos eventos climáticos extremos e da necessidade de desenvolver mecanismos de proteção mais adequados a essas exposições.

Nesse contexto, Sánchez destacou o avanço dos seguros paramétricos, que utilizam indicadores previamente definidos para determinar o pagamento de indenizações, e o surgimento de seguradoras e agentes gerais de subscrição (MGAs) especializados em segmentos específicos.

Para pequenas e médias empresas, o desafio envolve não apenas a oferta de novos produtos, mas também a ampliação do conhecimento sobre riscos emergentes e a simplificação das coberturas. Segundo o executivo, a capacidade de comunicar os benefícios da proteção será importante para alcançar consumidores e empresas que ainda possuem baixa familiaridade com o seguro.

A transformação também deverá exigir mudanças na formação e na contratação de profissionais. Para Sánchez, a capacidade de adaptação tende a ganhar importância diante do surgimento contínuo de novas ferramentas e modelos de negócios. “O talento que vocês têm nas companhias não precisa ser especialista em uma tecnologia ou em inteligência artificial. Precisa ser adaptável”, pontuou.

O executivo também defendeu a formação de alianças estratégicas com empresas de tecnologia e outros participantes do ecossistema de inovação. Segundo ele, essas parcerias precisam integrar as decisões da alta administração para que as seguradoras consigam acompanhar as transformações do mercado.

Confiança entre Humano x Robô

Embora a inteligência artificial tenha concentrado parte importante das discussões, o papel das relações humanas também ganhou espaço na programação. Seth Rachlin, autor do livro Social Capital at Work, abordou a importância da confiança e do capital social na construção de relações duradouras entre empresas, clientes e colaboradores. Durante a palestra “Confiança é o Verdadeiro Diferencial: Reconstruindo o Capital Social na Era das Seguradoras Impulsionadas por IA”, Rachlin discutiu como o avanço tecnológico torna necessário repensar os vínculos estabelecidos entre pessoas e organizações.

A apresentação relacionou confiança, pertencimento e conexões sociais à capacidade das empresas de manter relacionamentos consistentes em um ambiente marcado pela automação e pela crescente utilização de sistemas inteligentes. Para o mercado segurador, a discussão ganha relevância diante de um modelo de negócios que depende da confiança dos consumidores na capacidade das companhias de oferecer proteção e cumprir os compromissos assumidos.

O debate também reforçou que a adoção de novas tecnologias não elimina a necessidade de interação humana. À medida que processos de contratação, atendimento e regulação de sinistros passam a incorporar ferramentas de inteligência artificial, a qualidade das relações com os segurados permanece como um componente importante da experiência oferecida pelas companhias.

Nicholas Godoy, de São Paulo

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