EXCLUSIVO – “Vamos todos transformar o seguro.” Foi com essa mensagem que Gustavo Doria, fundador do CQCS, abriu os trabalhos do CQCS Inovação 2026, nesta quarta-feira (4), no Transamérica Expo, em São Paulo. O encontro reuniu autoridades, executivos e especialistas internacionais para discutir os impactos das novas tecnologias sobre a comercialização de seguros, a regulação de sinistros e a avaliação de riscos.
Na abertura, Doria destacou que a inovação deve contribuir para tornar os produtos mais acessíveis e adequados às necessidades dos consumidores. A necessidade de ampliar a cobertura securitária também foi abordada pelo superintendente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Alessandro Octaviani, que chamou a atenção para a distância entre o crescimento do setor e a parcela da sociedade efetivamente protegida por seguros.
Como exemplo, citou as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Segundo os números apresentados, os prejuízos chegaram a aproximadamente R$ 100 bilhões, enquanto as indenizações pagas pelas seguradoras somaram cerca de R$ 6 bilhões. Para Octaviani, o episódio demonstra a capacidade de resposta do mercado, mas também evidencia as oportunidades de expansão da cobertura. “Não tenho nenhuma dúvida de que desenvolver o mercado de seguros é um projeto de desenvolvimento nacional”, afirmou.

O superintendente destacou ainda os avanços regulatórios que poderão sustentar esse crescimento, como a nova Lei do Contrato de Seguro e a Lei Complementar nº 213, além de iniciativas relacionadas ao seguro rural e à tributação dos resseguradores locais. “Essas bases que citei são fundamentais para que possamos iniciar um novo ciclo do mercado”, declarou.
Entre as prioridades da autarquia, Octaviani mencionou a construção de uma estratégia nacional de proteção contra catástrofes, especialmente em municípios e estados com baixa penetração de seguros. Também defendeu o fortalecimento do consumidor por meio do Open Insurance, que poderá ampliar o acesso às informações e às opções de contratação.
Inteligência artificial ganha espaço
O avanço da inteligência artificial nas seguradoras foi abordado por Axel Schell, CTO da Allianz Technology. Durante a apresentação “IA na Allianz: Realidades, Reflexões e Caminhos a Seguir”, o executivo mostrou como a tecnologia está evoluindo de ferramentas de apoio para sistemas capazes de executar diferentes etapas de uma operação. Segundo Schell, o setor de seguros está entre os que mais utilizam inteligência artificial, mas ainda enfrenta dificuldades para converter os investimentos em ganhos efetivos de produtividade. Uma das aplicações apresentadas envolveu a regulação de sinistros por meio de agentes de IA.
Na simulação, um consumidor relatava a perda de alimentos após uma interrupção no fornecimento de energia elétrica. A partir do aviso, diferentes agentes verificavam a cobertura contratada, analisavam as circunstâncias do evento, identificavam possíveis inconsistências e encaminhavam o pagamento da indenização.
Outra demonstração envolveu um veículo conectado capaz de identificar um acidente e iniciar procedimentos de assistência ao motorista. O sistema avaliava as condições de segurança, acionava serviços e utilizava informações do automóvel para apoiar o atendimento.
Para Schell, a integração entre inteligência artificial, dados e sistemas conectados deverá modificar a relação entre seguradoras e clientes. O executivo ressaltou, entretanto, que a transformação não depende apenas da tecnologia, mas também da reorganização dos processos e da preparação dos profissionais.
A necessidade de conciliar os avanços tecnológicos com o papel dos profissionais também foi abordada por Robert Pick, CITO do Grupo Tokio Marine Holdings, no Japão. Durante a palestra “Humanizando a IA”, o executivo chamou a atenção para os desafios da adoção da inteligência artificial nas empresas, especialmente em relação à governança, à tomada de decisões e à participação humana nos processos.
Pick destacou que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia desenvolvida e controlada pelas pessoas, e não como uma transformação sobre a qual as organizações não possuem influência. Nesse contexto, ressaltou a importância de estabelecer critérios para sua utilização e de considerar as diferentes perspectivas dos profissionais envolvidos na implementação das ferramentas.
A apresentação também trouxe uma reflexão sobre a responsabilidade das empresas na condução dessa transformação. Para o executivo, a incorporação da IA exige mais do que investimentos tecnológicos, passando pela definição de mecanismos de governança e pela capacidade das organizações de orientar seu uso de acordo com as necessidades do negócio e das pessoas.
Novos riscos e transformações da mobilidade
As transformações da mobilidade e seus impactos sobre o mercado segurador foram discutidos em painel “O Futuro da Mobilidade: IA, NEVs e Circularidade” que reuniu representantes da indústria automotiva, tecnologia e seguros. O presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira, afirmou que a economia global atravessa mudanças simultâneas nas áreas tecnológica, demográfica, geopolítica e climática. Segundo ele, esses movimentos ampliam a complexidade dos riscos e exigem adaptações das seguradoras.
O dirigente destacou que o envelhecimento da população deverá modificar os padrões de consumo e aumentar a demanda por soluções de saúde, previdência e proteção financeira. Ao mesmo tempo, os eventos climáticos extremos representam um desafio crescente para a capacidade de avaliação e precificação de riscos.
Ao abordar o cenário brasileiro, Oliveira citou dados da CNseg que apontam um aumento da frequência de desastres naturais no país. Também mencionou as enchentes no Rio Grande do Sul, ressaltando a baixa participação das indenizações securitárias diante das perdas econômicas.
Para o presidente, a expansão do mercado está diretamente relacionada ao desempenho da economia. Juros elevados, inflação persistente e endividamento de famílias e empresas estão entre os fatores que podem limitar o crescimento do setor. “Todos aqui sabem que a indústria de seguros é muito fortemente correlacionada com a atividade econômica”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Oliveira mencionou uma estimativa de crescimento de aproximadamente 7% para o mercado segurador em 2026, excluindo previdência. O executivo também chamou a atenção para os limites dos modelos tradicionais de análise de riscos, especialmente diante das mudanças climáticas. “Essa é uma indústria que basicamente depende de dados, dados históricos, e a nossa capacidade de entender o que está acontecendo hoje olhando para os dados históricos é bastante limitada”, observou.
A velocidade das mudanças na indústria automobilística também esteve entre os temas do painel, que contou com a participação de Jing Liao, chairwoman da Solera Foundation e chief administrative officer da Solera Corp. Paulo Rocca, Vice-presidente de Inovação e Novos Negócios da Bosch na América Latina, destacou que o setor enfrenta uma reorganização produtiva, impulsionada por novas tecnologias, mudanças no comportamento dos consumidores e eventos climáticos extremos.
Segundo o executivo, a produção mundial de veículos, que antes da pandemia se aproximava de 100 milhões de unidades anuais, passou para um patamar de aproximadamente 80 milhões a 82 milhões. Roca também apontou a redução dos ciclos de desenvolvimento de automóveis, com fabricantes chinesas apresentando veículos em períodos menores do que os tradicionalmente praticados pela indústria.
As mudanças exigem maior capacidade de adaptação das empresas, inclusive diante dos riscos de interrupção das cadeias produtivas provocados por eventos climáticos. Para Roca, a experiência da América Latina com cenários econômicos instáveis pode representar uma vantagem competitiva diante das transformações globais.
“Hoje eu tenho muitos colegas de outros países vindo aqui aprender como vocês vivem com essa volatilidade, como é que vocês lidam com essa incerteza”, relatou.

Nicholas Godoy, de São Paulo









