Ultima atualização 07 de agosto

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Semana do Clima: novo cenário climático desafia o papel do seguro

Da esquerda para direita: Embaixador da Costa e Silva do Ministério das cidades; Fátima Lima, da Mapfre; Thelma Krug, do GCOS; Patricia Chacon, da Porto; Viviane Torinelli, do Banco Central do Brasil; e André Schelini, do SEBRAE.
Da esquerda para direita: Embaixador da Costa e Silva do Ministério das cidades; Fátima Lima, da Mapfre; Thelma Krug, do GCOS; Patricia Chacon, da Porto; Viviane Torinelli, do Banco Central do Brasil; e André Schelini, do SEBRAE.

EXCLUSIVO – A mudança no padrão dos eventos climáticos colocou o seguro no centro das discussões sobre adaptação e resiliência. Na tarde dessa quinta-feira (07), em um dos encontros promovidos pela Semana do Clima em São Paulo, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), reuniu representantes do mercado, governo, ciência e setor produtivo para de certa forma provocar e discutir como a indústria pode atuar além da indenização.

Ao abrir os debates, a diretora-executiva do iCS, Maria Netto, destacou que o papel do seguro precisa ser ampliado diante dos desafios climáticos. Segundo ela, a lógica da atividade vai além da precificação dos riscos e deve envolver mecanismos capazes de fortalecer a resiliência dos territórios. “A lógica do seguro é entender que o risco existe e precificar esse risco. Mas precisamos olhar além da precificação e entender como podemos gerir melhor essas ferramentas para fortalecer a resiliência climática”, alertou.

A executiva também ressaltou a importância das Parcerias Público-Privadas (PPPs) para ampliar investimentos em áreas estratégicas, como infraestrutura urbana e saúde. Segundo Maria Netto, o iCS tem trabalhado no desenvolvimento de propostas que aproximem diferentes setores da agenda climática, incluindo o mercado segurador. “Já temos mais de 600 propostas para que os setores, principalmente o de seguros, consigam ocupar mais espaço no papel de proteção da sociedade”, disse.

Um dos pontos discutidos durante o encontro foi a necessidade de abandonar uma visão baseada apenas em previsões tradicionais e adotar uma postura mais preventiva diante das mudanças climáticas. Mediada pela diretora de sustentabilidade da Mapfre, Fátima Lima, o primeiro painel sobre riscos climáticos e proteção financeira discutiu como fenômenos, como o El Niño, passaram a exigir uma nova abordagem de gestão de riscos diante da maior ocorrência de eventos extremos associados às mudanças climáticas.

“Quando falamos do El Niño para o setor de seguros, ele não é uma novidade, mas ele vem se mostrando de formas diferentes”, afirmou Fátima.

A presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), Thelma Krug, destacou que a ciência já possui informações suficientes para orientar decisões, mesmo diante das incertezas. Segundo ela, o desafio atual é transformar conhecimento em ação, principalmente porque os eventos extremos estão ocorrendo de maneira mais rápida e exigindo novas formas de preparação. “As decisões precisam ser tomadas antes de qualquer certeza”, comentou.

A cientista lembrou do caso do Rio Grande do Sul como exemplo da necessidade de adaptação contínua. Para ela, o episódio registrado no estado mostrou que regiões consideradas vulneráveis precisam trabalhar com planejamento permanente. “O caso do Rio Grande do Sul ainda não acabou. O estado continua sofrendo novamente. Temos a ciência necessária para nos adaptar de fato”, ponderou.

Outro ponto levantado foi a necessidade de incluir populações mais vulneráveis nas estratégias de adaptação climática. O embaixador Antonio Costa e Silva, da Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério das Cidades, destacou que comunidades localizadas em áreas de risco precisam fazer parte da construção das políticas públicas. Segundo ele, a discussão passa também pelo desafio urbano brasileiro, considerando que 87% da população vive em cidades. O representante destacou ainda que aproximadamente 20% dos assentamentos informais, favelas e comunidades estão localizados em áreas frágeis.

Para Costa e Silva, ações de mapeamento territorial, investimentos em drenagem, contenção de encostas e soluções baseadas na natureza são caminhos para aproximar a população das iniciativas de prevenção. “Quando olhamos para políticas públicas dentro das comunidades, é preciso que as pessoas que vivem nesses territórios entendam o que está acontecendo e como podem participar dessa agenda”, afirmou.

Abordando sobre a utilização inteligente de dados para prevenção, a CEO da Porto Seguros, Patrícia Chacon, destacou que esse recurso é fundamental para ampliar a proteção diante dos eventos climáticos, e a atuação das seguradoras deve, segundo ela, se apoiar em três pilares: redução da lacuna de proteção, resposta rápida após os eventos e prevenção. “A pessoa precisa voltar o mais rápido possível para sua rotina, porque depois de um evento climático ela se sente perdida”, apontou.

Patrícia explicou ainda que informações sobre clientes, regiões e padrões de risco podem ajudar seguradoras e governos a desenvolver respostas mais rápidas e eficientes. Ela também destacou iniciativas de parceria com municípios e estudos voltados à gestão preventiva dos riscos climáticos.

Um dos principais desafios apontados foi o acesso dos pequenos empreendedores às ferramentas de proteção. O diretor técnico do SEBRAE, André Schelini, chamou atenção para a dificuldade de conciliar o custo do seguro com a realidade financeira de parte dos empreendedores rurais, por exemplo. “Temos um desafio populacional onde o custo do seguro pode ser inviável para a sociedade diante de uma realidade econômica mais restrita”, afirmou. Schelini ressaltou também sobre a importância de respostas mais rápidas após eventos extremos, permitindo reorganização financeira e continuidade da produção.

A participação do setor financeiro também reforçou a necessidade de integrar seguros, crédito e gestão de riscos climáticos. Em sua fala, a gerente de Sustentabilidade do Banco Central do Brasil, Viviane Torinelli, explicou que o tema já está inserido na agenda estratégica da instituição, com foco em ampliar o conhecimento sobre riscos, aumentar a transparência e aprimorar os mecanismos de regulação e supervisão financeira.

O desafio, de acordo com a executiva, é identificar pontos de maior vulnerabilidade e compreender como esses riscos podem impactar a economia. Ela também ressaltou que o debate sobre seguros vem ganhando espaço dentro das discussões sobre custo de capital e crédito, considerando o impacto da gestão de riscos na avaliação financeira.

Infraestrutura exige novos modelos de financiamento

Mesa 2 – Infraestrutura resiliente – Claudia Prates, da CNseg mediando.

A adaptação climática também passa pela transformação da infraestrutura brasileira. Na segunda mesa de discussão, representantes do setor público e privado discutiram como investimentos em obras e concessões precisam incorporar critérios de resiliência desde a fase de planejamento, evitando que os recursos sejam direcionados apenas para reconstrução após grandes eventos.

Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg, frisou os riscos climáticos deixaram de ser uma variável periférica e passaram a influenciar diretamente a viabilidade econômica dos projetos. Segundo ela, incorporar esses riscos desde a estruturação das iniciativas permite melhorar a precificação, orientar decisões de investimento e ampliar a resiliência das concessões públicas.

Em resposta, a diretora de Infraestrutura Sustentável do BNDES, Luciene Machado, destacou que o país vem avançando na percepção sobre os impactos climáticos, principalmente entre municípios que já vivenciaram perdas provocadas por eventos extremos. A executiva explicou que o risco climático deixou de ser apenas um aspecto qualitativo e passou a influenciar avaliações de crédito, rating das operações e definição de intervenções necessárias para preservar ativos financiados.

O desafio está em integrar governos, financiadores, empresas, seguradoras e resseguradoras para criar modelos capazes de viabilizar projetos mais preparados para os novos riscos climáticos. Nesse cenário, instrumentos como Parcerias Público-Privadas (PPPs), concessões e novas formas de transferência de risco passam a ganhar relevância.

Érika Medici, da AXA Brasil, ressaltou que o papel das seguradoras precisa ir além do pagamento de indenizações. Segundo ela, o histórico acumulado pelo setor permite desenvolver modelos de análise mais precisos e identificar oportunidades de prevenção. “Quanto mais informação temos, mais fácil é trabalhar. Não devemos olhar apenas para a cobertura, mas para uma análise correta do risco, aprendendo com cada sinistro para melhorar o próximo ciclo”, debateu.

Na visão da executiva, a evolução do mercado passa também pela educação de empresas e clientes para a criação de soluções mais sustentáveis, com maior foco em prevenção e gestão de riscos.

Complementando o debate, o diretor de Infraestrutura da Marsh, André Dabus, defendeu que o mercado segurador participe mais cedo da estruturação de projetos de concessão e infraestrutura, contribuindo desde as fases de consulta pública e planejamento. Para ele, a adaptação climática exige que obras sejam concebidas para resistir a eventos extremos, incorporando o conceito de reconstrução resiliente. “Não basta reconstruir. Precisamos reconstruir de forma resiliente para que, se um novo evento climático acontecer, ele não produza as mesmas consequências econômicas, sociais e ambientais do passado”.

Seguro rural e a resiliência climática

Mesa 2 – Seguro Rural, Crédito e Gestão de Riscos – Guilherme Bastos, da FGV Agro mediando.

Depois de discutir a infraestrutura resiliente, os debates se voltaram para o campo, onde a principal conclusão dos participantes foi a necessidade de ampliar a proteção aos produtores e tornar o seguro rural uma ferramenta cada vez mais efetiva de adaptação às mudanças do clima, com produtos adequados à realidade econômica de cada perfil de produtor.

Para o diretor técnico do Sistema OCB, João José Prieto Flávio, colocou as cooperativas como uma ponte entre produtores, crédito e soluções de gestão de risco. O conhecimento mais próximo da realidade dos associados permite uma análise mais detalhada do perfil produtivo e facilita o acesso a ferramentas financeiras. “As cooperativas brasileiras hoje estão preparadas e dentro de toda essa proteção para o produtor cooperado existe um colchão diante dos desafios climáticos”, afirmou.

Ele também abordou o avanço das cooperativas de seguros após a regulamentação prevista no novo marco das cooperativas, ampliando as possibilidades de atuação desse modelo no mercado.

Para Daniel Nascimento, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, o avanço do seguro rural depende da construção de bases de dados mais robustas. Segundo ele, práticas como plantio direto, irrigação, rotação de culturas e análise de solo já permitem uma avaliação mais detalhada do risco, mas o desenvolvimento de novos produtos depende de informações mais estruturadas. “As seguradoras precisam oferecer produtos melhores para o setor rural, mas para isso precisamos de dados mais estruturados”, disse.

O executivo destacou ainda que uma base de dados mais ampla poderá apoiar o desenvolvimento de seguros paramétricos, coberturas por talhão e soluções adaptadas aos diferentes perfis de produtores.

O diretor de soluções agro do IRB(Re), Glaucio Toyama, chamou atenção para a importância do resseguro na ampliação da capacidade de proteção do setor. Na avaliação do executivo, o mercado brasileiro ainda enfrenta limitações relacionadas à disponibilidade de capital de risco, especialmente após períodos de grandes perdas climáticas. “Capital de risco é um tema importante. Precisamos aumentar a percepção sobre capacidade de risco”, provocou.

Toyama defendeu uma revisão dos modelos atuais, com produtos mais alinhados ao perfil dos produtores brasileiros, principalmente pequenos e médios agricultores. “Precisamos discutir novos modelos, diversificar riscos e pensar em produtos diferentes para pequenos e médios produtores. O mercado precisa se reinventar”, disse.

No encerramento do debate, João Adrien, Head de ESG Agro do Itaú BBA, destacou que o futuro do seguro rural dependerá da integração com novas formas de financiamento. Para ele, a transformação do crédito rural exige que seguro e mercado de capitais caminhem juntos. “Precisamos focar no seguro rural. Ainda estamos discutindo o seguro catástrofe, que já deveria estar mais avançado, é uma pasta urgente que deve tem que ser aprovada o quanto antes”.

Na perspectiva do resseguro, Toyama apontou que os próximos anos serão decisivos para aproximar diferentes instrumentos financeiros. “Nos próximos ciclos precisamos fazer crédito, seguro e mercado de capitais andarem juntos. Ou caminhamos juntos ou vamos ficar atrasados e quem sofre é a população”, concluiu.

Nicholas Godoy, de São Paulo.

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