Ultima atualização 03 de agosto

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Vendavais no Litoral expõe riscos para operações logísticas

Tempestade que atingiu litoral e interior paulista provocou danos em estruturas, operações portuárias e patrimônios; mercado avalia desafios de prevenção e cobertura diante do avanço dos eventos extremos
Antigo armazém no bairro do Paquetá, em Santos, no litoral paulista, que desabou durante o vendaval — Foto: Prefeitura de Santos/ Divulgação
Antigo armazém no bairro do Paquetá, em Santos, no litoral paulista, que desabou durante o vendaval — Foto: Prefeitura de Santos/ Divulgação

EXCLUSIVO – Os vendavais que atingiram o Estado de São Paulo na última semana deixaram um cenário de danos em diferentes regiões e levantaram novamente o debate sobre a preparação de cidades, empresas e consumidores diante do avanço dos eventos climáticos extremos. Com rajadas que chegaram a 125 km/h no interior paulista e ultrapassaram 110 km/h no litoral, a tempestade provocou mortes, queda de árvores e estruturas, cancelamentos de voos, interrupção temporária das operações no Porto de Santos e prejuízos materiais.

Em Santos, um muro desabou sobre caminhões nas proximidades do porto, árvores foram arrancadas e estruturas urbanas foram afetadas. Já em São Sebastião, um pescador morreu após o naufrágio de uma embarcação durante a ventania.

O episódio também afetou a infraestrutura logística do Estado. No Porto de Santos, rajadas intensas provocaram queda de contêineres, danos em estruturas e interrupções temporárias das operações, evidenciando os impactos que eventos climáticos podem gerar não apenas sobre patrimônios físicos, mas também sobre cadeias produtivas e atividades econômicas.

A ocorrência acontece em um momento em que empresas e seguradoras ampliam o debate sobre riscos climáticos. Com fenômenos extremos mais frequentes, o mercado passa a avaliar como produtos, coberturas e estratégias de prevenção precisam evoluir para acompanhar uma realidade de maior exposição.

Para entender como está a resposta do setor na visão dos corretores de seguros, a redação conversou com o diretor regional de Santos do Sincor-SP, Paulo Sergio de Souza. O executivo explicou que as seguradoras possuem protocolos consolidados para atender ocorrências de grande impacto, permitindo uma mobilização rápida das equipes após a comunicação dos sinistros.

Segundo Paulo, o episódio chamou atenção inclusive de moradores acostumados com ventanias no litoral paulista. Para ele, a intensidade do fenômeno ficou acima do padrão observado normalmente na região. O diretor regional destacou que o atendimento depende principalmente das coberturas contratadas pelos segurados e da avaliação técnica dos danos registrados.

“É nesse momento que entra em evidência a importância do seguro. Quem possui uma cobertura adequada consegue reduzir significativamente o impacto financeiro provocado por um evento como esse. Já quem não contratou proteção acaba arcando sozinho com prejuízos que muitas vezes comprometem seu patrimônio ou sua atividade econômica”, afirma.

Ele também explica que, em muitos produtos do mercado segurador, a caracterização do vendaval considera critérios técnicos previstos nas condições da apólice, podendo envolver parâmetros relacionados à velocidade dos ventos e à comprovação do evento por registros meteorológicos.

Locais foram atingidos pelas fortes rajadas de vento — Foto: Reprodução/Redes sociais

Resposta do setor

Na avaliação de Souza, o principal desafio do setor não está necessariamente na capacidade de resposta das seguradoras, mas na ampliação da cultura do seguro entre consumidores e pequenas empresas.

Outro ponto destacado pelo corretor é a importância da contratação adequada das coberturas. Segundo ele, muitos problemas após eventos climáticos não estão relacionados à negativa das seguradoras, mas à ausência de determinadas proteções que não foram incluídas no momento da contratação.

“Se você tem um cliente em uma região onde existe uma exposição maior a vendavais, é papel do corretor orientar sobre essa necessidade. O nosso trabalho é entender o risco e oferecer a proteção adequada para aquela realidade”, explica.

Para Souza, a orientação profissional é fundamental para evitar que segurados descubram apenas após um evento que determinada cobertura não fazia parte da apólice contratada.

“Os eventos climáticos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da gestão de risco das famílias e das empresas. As pessoas começam a perceber que essas ocorrências estão cada vez mais frequentes e passam a buscar formas de proteger seu patrimônio”, comenta.

Segundo o diretor, esse movimento também começa a atingir pequenos empreendedores que dependem diretamente de suas atividades para gerar renda, como comerciantes, quiosqueiros e prestadores de serviço.

“Nesses momentos, a gente vê muitos casos de pessoas que perdem praticamente tudo. O seguro não vai impedir que o fenômeno aconteça, mas reduz significativamente o impacto financeiro que ele provoca”, afirma.

Além dos impactos urbanos, os vendavais também afetaram uma das principais estruturas logísticas do país. No Porto de Santos, rajadas superiores a 110 km/h provocaram queda de contêineres, interrupções temporárias nas operações e danos em estruturas.

O episódio reforçou uma preocupação que vem crescendo entre empresas e gestores de risco: os eventos climáticos não provocam apenas danos físicos, mas também podem gerar paralisações operacionais, atrasos logísticos e perdas financeiras.

Olhando os grande, Simone Ramos, diretora de Portos e Logística da Lockton Brasil, comenta que esse cenário representa uma mudança na forma como as empresas avaliam suas exposições. Para a Lockton, eventos climáticos extremos deixaram de ser situações pontuais e passaram a integrar permanentemente o planejamento operacional, financeiro e securitário das organizações.

“O risco climático deixou de ser uma exposição eventual e passou a integrar as decisões operacionais, financeiras e de seguros. Nossa atuação busca preparar os clientes para prevenir, responder e se recuperar desses eventos”, afirma.

A executiva explica ainda, que a Lockton Brasil vem ampliando o trabalho de gestão de risco climático junto aos clientes, com análises de cenários, visitas técnicas, treinamentos e construção de matrizes específicas para identificar vulnerabilidades.

A preocupação das empresas, levanta a executiva, também evoluiu. Antes concentrada nos danos materiais, a avaliação passou a considerar impactos como interrupção de atividades, perda de receitas, compromissos contratuais e dificuldades de retomada após um evento extremo.

“Não se trata apenas de reparar um equipamento ou uma estrutura danificada. Muitas vezes, o maior impacto está no período em que a operação permanece parada e na capacidade da empresa de voltar a funcionar”, explica.

Nesse contexto, a executiva destaca que companhias têm revisado programas de seguros, limites de cobertura, franquias, exclusões e períodos de indenização, além de avaliar soluções complementares para riscos relacionados à interrupção dos negócios. Segundo ela, o mercado também começa a analisar alternativas para situações em que não existe necessariamente um dano material direto, mas há perda financeira provocada pela paralisação das atividades.

“Temos desenvolvido estudos de soluções paramétricas para situações em que não ocorre um dano material direto, mas existem paralisações frequentes e de curta duração que, acumuladas ao longo do ano, podem gerar perdas relevantes de receita”, afirma.

Além da contratação dos seguros, Simone ressalta que a preparação interna das empresas também passou a ser um fator relevante. A atuação das equipes operacionais, jurídicas, de engenharia, manutenção e contratos pode influenciar diretamente a velocidade de resposta após um evento.

“A qualidade das primeiras providências e a clareza na distribuição das responsabilidades podem ser determinantes na condução de uma ocorrência”, explica.

A intensificação dos eventos climáticos também vem mudando a percepção do mercado sobre o papel do seguro. Para especialistas, a tendência é que produtos e estratégias de proteção passem a incorporar cada vez mais ferramentas de prevenção, análise de dados e gestão antecipada dos riscos.

Na avaliação de Paulo Sergio de Souza, o avanço dos fenômenos naturais reforça a necessidade de uma atuação mais próxima entre seguradoras, corretores e clientes.

“O seguro não impede que o fenômeno aconteça, mas reduz significativamente o impacto financeiro que ele provoca. Esse é o papel da proteção”, conclui.

Para o setor, o desafio passa a ser ampliar o entendimento de que a contratação de seguros deve ocorrer antes da ocorrência do evento, e não apenas como uma resposta após a perda.

Nicholas Godoy

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