EXCLUSIVO – Durante muito tempo, comprar um carro, conquistar a casa própria ou ampliar um negócio significava recorrer quase que automaticamente ao financiamento bancário. O custo dos juros era tratado como parte inevitável da realização desses objetivos e, para boa parte dos brasileiros, antecipar a aquisição de um bem parecia fazer mais sentido do que esperar. Nos últimos anos, porém, essa lógica começou a mudar.
Em um cenário marcado pelo crédito mais caro, maior rigor na concessão de financiamentos e consumidores mais atentos ao impacto dos juros sobre o orçamento, cresce a busca por alternativas capazes de conciliar previsibilidade, organização financeira e formação de patrimônio.
Mais do que substituir o financiamento em determinados momentos, a modalidade reflete uma mudança na forma como famílias e empresas se relacionam com o dinheiro. A aquisição imediata passa a dividir espaço com decisões orientadas pelo planejamento, pela preservação do fluxo de caixa e pela redução do custo financeiro das operações.
Essa transformação ajuda a explicar o momento vivido pelo setor. Segundo o Anuário do Sistema de Consórcios 2026, divulgado pela Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), o segmento encerrou 2025 com resultados históricos. Foram comercializadas mais de 5,16 milhões de cotas, crescimento de 15% em relação ao ano anterior. O volume de créditos comercializados ultrapassou R$ 500,2 bilhões, avanço de 32,1%, enquanto o número de participantes ativos chegou a 12,75 milhões, alta de 13,8%. O tíquete médio também evoluiu, alcançando R$ 96,9 mil e refletindo a maior procura por créditos de valor elevado.

Os resultados acompanham um contexto econômico ainda desafiador. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo gradual de redução da taxa básica de juros, o crédito permanece caro para boa parte das famílias e empresas, especialmente nas operações imobiliárias, de veículos e de financiamento corporativo. Esse ambiente mantém elevada a procura por modalidades menos dependentes dos encargos financeiros tradicionais e incentiva uma postura mais cautelosa em relação ao endividamento.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, porém, o avanço do consórcio vai além do cenário econômico. Os indicadores sugerem uma mudança mais ampla no comportamento financeiro dos brasileiros, cada vez mais orientados por decisões de longo prazo.

Mais que uma alternativa
Essa mudança é percebida por diferentes agentes do mercado. Para a advogada Silvana Simões Pessoa, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Especialistas em Consórcios (ABAEC), o avanço da modalidade acompanha uma transformação na forma como consumidores e empresas organizam seus investimentos.
“Em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo e maior preocupação com endividamento, o consumidor passou a buscar alternativas mais planejadas para aquisição de bens e construção de patrimônio. O consórcio oferece disciplina financeira, previsibilidade e acesso programado ao crédito, sem os encargos típicos do financiamento tradicional”, explica.
Segundo ela, esse movimento revela um amadurecimento da educação financeira no país. “O brasileiro começa a compreender que nem toda aquisição precisa ser imediata. Planejar passou a ser uma forma de proteção financeira”, pontua Silvana.
A ideia encontra respaldo na evolução do próprio mercado. Enquanto os segmentos de veículos leves e motocicletas seguem liderando em volume de cotas comercializadas, o segmento imobiliário concentrou mais da metade do valor financeiro movimentado pelo sistema em 2025, com R$ 283,5 bilhões em créditos comercializados. Os números reforçam que o consórcio ganha espaço em decisões relacionadas à formação de patrimônio e investimentos de longo prazo.

Na avaliação de Silvana, essa evolução amplia significativamente o papel da modalidade. “O consórcio deixou de ser apenas uma alternativa ao financiamento e passou a ocupar um espaço estratégico no planejamento patrimonial de longo prazo. Ele é utilizado para compra de imóveis, veículos, equipamentos, expansão de negócios e sucessão patrimonial. Sua principal virtude está justamente na organização: transformar um desejo futuro em uma estrutura financeira possível, com disciplina, previsibilidade e menor exposição ao custo do dinheiro”.
A diversificação dos segmentos atendidos ajuda a explicar essa evolução. Se durante décadas o consórcio esteve fortemente associado à compra de automóveis, hoje financia imóveis, motocicletas, caminhões, máquinas agrícolas, equipamentos industriais, serviços e diferentes ativos produtivos.

Mais do que ampliar as possibilidades de aquisição, essa diversificação demonstra uma compreensão mais sofisticada sobre o uso da modalidade. Em vez de atender apenas ao consumo, o consórcio passa a ser incorporado ao planejamento de investimentos e à expansão patrimonial de famílias e empresas.
Planejar passa a valer mais
A mudança no comportamento dos consumidores também começa a alterar a forma como administradoras, instituições financeiras e especialistas enxergam o papel do consórcio na economia brasileira. Se durante muitos anos a modalidade esteve associada principalmente à compra de veículos e imóveis, hoje ela passa a integrar decisões estratégicas de investimento, expansão e gestão financeira.
Esse movimento não se restringe às pessoas físicas. Empresas de diferentes portes passaram a utilizar o consórcio como instrumento para programar investimentos sem depender exclusivamente das linhas tradicionais de crédito.
Para Silvana Simões Pessoa, essa mudança ocorre porque o empresário deixou de enxergar a modalidade apenas como uma forma de adquirir um ativo. “As empresas vêm utilizando o consórcio de forma cada vez mais estratégica, especialmente para renovação de frotas, aquisição de máquinas, equipamentos, imóveis e ativos operacionais. Para o empresário, o consórcio permite planejar investimentos sem comprometer imediatamente o fluxo de caixa com juros elevados. Ele cria uma reserva programada para expansão, modernização ou substituição de ativos”, explica.
A utilização corporativa acompanha uma realidade observada em diversos setores da economia. No transporte rodoviário, por exemplo, empresas convivem com o envelhecimento da frota e, ao mesmo tempo, enfrentam um ambiente de crédito mais seletivo. Nesse contexto, o consórcio ganha espaço na aquisição de caminhões, implementos rodoviários, máquinas agrícolas e equipamentos industriais.
Os números da ABAC refletem essa tendência. O segmento de veículos pesados encerrou 2025 com mais de 916 mil participantes ativos, movimentando quase R$ 50 bilhões em créditos comercializados e mais de R$ 24 bilhões em créditos disponibilizados, desempenho que evidencia o avanço da modalidade entre empresas e operadores logísticos.
Na avaliação da presidente da ABAEC, esse cenário revela uma mudança na própria gestão das organizações. “O crescimento do consórcio de veículos pesados revela uma mudança relevante na gestão das empresas, especialmente nos setores de transporte, logística, agronegócio e serviços. A renovação de frota deixou de ser apenas uma decisão operacional e passou a integrar o planejamento financeiro das companhias. Empresas mais estruturadas entendem que caminhões, máquinas e equipamentos precisam ser substituídos dentro de uma lógica de eficiência, produtividade e preservação de caixa”.
A evolução também pode ser observada entre consumidores que possuem acesso ao crédito tradicional. Em vez de recorrer automaticamente ao financiamento, parte desse público passou a considerar o consórcio como uma alternativa para preservar liquidez e distribuir investimentos ao longo do tempo.
Esse comportamento ajuda a explicar outro indicador relevante do Anuário da ABAC. O segmento imobiliário respondeu por 56,7% de todo o volume financeiro movimentado pelo sistema em 2025, reforçando a presença crescente da modalidade em operações voltadas à aquisição de ativos de maior valor.
Essa leitura também é compartilhada pela Bradesco Consórcios. Para Leonardo Freitas, diretor Comercial da Bradesco Auto/RE, o crescimento da modalidade acompanha uma transformação semelhante à observada no próprio mercado segurador. “O mercado de consórcios vem ampliando sua relevância dentro das estratégias de planejamento financeiro dos brasileiros. Assim como o seguro deixou de ser visto apenas como um instrumento de proteção para assumir um papel mais amplo de gestão de riscos e planejamento patrimonial, o consórcio também passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico nas decisões financeiras de pessoas e empresas”, comenta Leonardo.
O executivo observa que o consumidor busca soluções capazes de combinar organização financeira, previsibilidade e realização de objetivos de médio e longo prazo, cenário que favorece a expansão da modalidade.
Mais do que disputar espaço com o financiamento, o consórcio passa a integrar uma estratégia financeira mais ampla. Essa evolução também aproxima o produto do mercado segurador, criando oportunidades para que corretores atuem de forma cada vez mais consultiva na organização patrimonial de seus clientes.
Consórcio e seguros caminham juntos
A evolução do consórcio também começa a produzir reflexos no mercado segurador. Mais do que uma alternativa para aquisição programada de bens, a modalidade passa a integrar um ecossistema mais amplo de soluções financeiras, aproximando administradoras, seguradoras e corretores em torno de uma estratégia de relacionamento de longo prazo.
Essa transformação acompanha uma mudança na distribuição de produtos financeiros. Em vez de oferecer soluções isoladas, empresas do setor estruturam jornadas capazes de acompanhar o cliente desde o planejamento da aquisição de um patrimônio até sua efetiva proteção, ampliando o relacionamento ao longo de todo o ciclo financeiro.
Na Bradesco Seguros, esse movimento ganhou força com a ampliação da oferta de consórcios ao canal corretor. A estratégia incorpora a modalidade ao portfólio tradicionalmente comercializado pelos profissionais, permitindo que o relacionamento deixe de se concentrar apenas na proteção do patrimônio já constituído para incluir também o planejamento de novas conquistas.
Segundo Leonardo Freitas, da Bradesco Seguros, essa integração amplia o papel consultivo do corretor. “Nesse contexto, a Bradesco Consórcios tem ampliado sua presença junto ao canal corretor, integrando o produto ao ecossistema de soluções oferecido pelo Grupo Bradesco Seguros. A iniciativa amplia a capacidade consultiva dos profissionais, que passam a atuar não apenas na proteção de patrimônios, pessoas e negócios, mas também no planejamento de conquistas futuras”, frisa.
Na avaliação do executivo, essa complementaridade fortalece o relacionamento entre corretor e cliente. “O corretor passa a apoiar o cliente em duas frentes essenciais: proteger o que já foi conquistado por meio do seguro e planejar novas realizações por meio do consórcio”, destaca Leonardo.
Além de ampliar a atuação consultiva, a estratégia representa uma oportunidade de diversificação para os profissionais do setor. Em um ambiente cada vez mais competitivo, o consórcio amplia o portfólio dos corretores e cria novas possibilidades de relacionamento ao longo da vigência das cotas.
“Cada cota vendida estreita a relação entre corretor e cliente, abrindo espaço para novas conversas sobre proteção e oportunidades de ampliação patrimonial por meio do consórcio. É um produto que amplia o vínculo com o cliente e gera novas oportunidades de negócios ao longo do tempo”, acrescenta o
A aproximação entre consórcios e seguros também é percebida pela CNP Seguradora. Embora não atue como administradora de consórcios, a companhia participa dessa cadeia oferecendo soluções voltadas à proteção das operações e dos próprios consorciados.
Para Renata Oliveira, superintendente Comercial do Canal Corretores da CNP Seguradora, a modalidade reúne características que favorecem um relacionamento de longo prazo entre empresas e consumidores. “O mercado de consórcios é estratégico para a CNP Seguradora porque reúne planejamento financeiro, relacionamento de longo prazo e necessidade de proteção em diferentes momentos da jornada do cliente. Nossa atuação está concentrada em apoiar administradoras com soluções de seguros e capitalização que contribuem para a segurança das operações, a proteção dos consorciados e a geração de novas oportunidades de negócio”, explica.
Na prática, essa integração ocorre por meio de produtos desenvolvidos para reduzir riscos ao longo da operação. Entre eles estão o Seguro Prestamista, que protege o saldo devedor em situações previstas contratualmente; o Seguro Quebra de Garantia, voltado à mitigação de riscos das administradoras; e o Seguro de Danos Físicos ao Imóvel (DFI), utilizado nas operações imobiliárias para proteger o bem adquirido após a contemplação.
“Os seguros não são apenas complementares ao consórcio. Eles ajudam a tornar toda a operação mais segura, sustentável e preparada para crescer”, resume a executiva.
Renata avalia que essa integração tende a se intensificar nos próximos anos, impulsionada pela digitalização e pela busca por jornadas cada vez mais simples e conectadas. “A tendência é que a relação entre seguros e consórcios se torne cada vez mais integrada, digital e orientada à experiência do cliente. As administradoras deverão buscar soluções que simplifiquem a jornada, ampliem a segurança das operações e gerem mais valor ao consorciado”.
A convergência entre os dois mercados evidencia uma mudança relevante na atuação das seguradoras. Tradicionalmente voltadas à proteção de patrimônios já constituídos, elas passam a participar também da etapa de formação desses ativos, acompanhando o cliente desde o planejamento da aquisição até sua preservação ao longo do tempo.
Essa integração reforça o papel consultivo dos corretores e amplia as possibilidades de relacionamento com consumidores que buscam soluções financeiras cada vez mais completas. Mais do que produtos complementares, consórcios e seguros passam a compor uma estratégia única de planejamento, proteção e gestão patrimonial.
*Matéria originalmente publicada na Edição #320 da Revista Apólice.






