A intensificação do El Niño coloca produtores, seguradoras e resseguradoras em alerta para a safra 2026/27. Relatório da Aon aponta que os efeitos do fenômeno climático devem ocorrer de maneira desigual no agronegócio brasileiro, com maior exposição para trigo, soja e milho de primeira safra no Sul e para o café no Sudeste.
No Centro-Oeste, por outro lado, algumas lavouras podem encontrar condições mais favoráveis, segundo o estudo Climate Risk – El Niño Outlook for Brazil. A avaliação é que a intensidade do risco dependerá não apenas do comportamento do fenômeno, mas da região, da cultura e do estágio de desenvolvimento das plantações no momento dos eventos climáticos.
A projeção ganhou força nesta semana. Em atualização divulgada na quinta-feira (10), o Climate Prediction Center, ligado à NOAA, informou que o El Niño continua se intensificando e apontou probabilidade superior a 90% de que o evento atinja intensidade considerada “muito forte” durante os próximos meses. Para o trimestre entre outubro e dezembro, a chance de um evento histórico chega a 75%.
A NOAA ressalta, porém, que um fenômeno mais intenso aumenta a probabilidade de determinados impactos climáticos, mas não significa que eles ocorrerão com a mesma intensidade em todas as localidades.
Entre as culturas analisadas pela Aon, o trigo aparece como uma das principais exposições de curto prazo. A colheita no Sul coincide com o período no qual o El Niño deve atingir maior intensidade. O excesso de umidade pode aumentar o risco de germinação dos grãos ainda no campo, doenças fúngicas e perda de qualidade comercial.
Segundo o relatório, episódios anteriores mostram uma exposição relevante da cultura. Durante o forte El Niño de 2015/16, o trigo apresentou elevado volume de perdas seguradas, com concentração de sinistros no Rio Grande do Sul.
A Aon estima uma produção brasileira de aproximadamente 7,54 milhões de toneladas e destaca que a maior parte da cultura está concentrada na Região Sul.
Além dos impactos agronômicos, a concentração regional preocupa o mercado segurador. Uma ocorrência simultânea de perdas em diferentes propriedades pode elevar a acumulação de riscos nas carteiras de seguro rural e resseguro.
No Sudeste, o foco está na cafeicultura. O relatório aponta que episódios mais fortes de El Niño podem favorecer ondas de calor e alterações na distribuição das chuvas entre o último trimestre deste ano e o início de 2027.
Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo aparecem entre as áreas que exigem maior acompanhamento. Estresse térmico ou hídrico durante etapas como florada e enchimento dos grãos pode afetar a produtividade.
Segundo a Aon, episódios anteriores de seca e temperaturas elevadas provocaram reduções expressivas da produção em municípios analisados pelo estudo.
Soja tem cenário diferente entre Sul e Centro-Oeste
Para a soja, o cenário é mais heterogêneo. No Rio Grande do Sul, chuvas acima da média entre outubro deste ano e fevereiro de 2027 podem aumentar o risco de encharcamento, atrasos nas operações de campo e doenças.
No Centro-Oeste, entretanto, a perspectiva apresentada pela Aon é de uma distribuição mais regular das chuvas em determinadas áreas, o que pode reduzir a exposição à seca durante fases importantes da cultura.
Mato Grosso ganha peso nessa análise por responder por uma parcela significativa da produção brasileira de soja.
A avaliação reforça a necessidade de evitar uma leitura nacional única do El Niño. Uma mesma condição oceânica pode provocar efeitos diferentes — e até opostos — entre regiões produtoras.
A época de plantio também altera a exposição do milho. A primeira safra cultivada no Sul pode enfrentar maior risco entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, período que coincide com fases sensíveis do desenvolvimento das plantas e com a expectativa de maior instabilidade climática.
Já a segunda safra tende a enfrentar um cenário diferente. Sua fase reprodutiva mais sensível ocorre mais tarde, entre abril e maio, quando as projeções indicam enfraquecimento do El Niño.
A NOAA estima atualmente probabilidade de 97% de manutenção do El Niño no trimestre fevereiro-março-abril. Para março-abril-maio, essa probabilidade recua para 82% e cai para 43% entre abril e junho.
Para a Aon, o impacto climático não termina na perda física da lavoura. Uma quebra de produção pode reduzir a liquidez do produtor, comprometer sua capacidade de pagamento e aumentar o risco de crédito em diferentes elos da cadeia.
“Os impactos do clima já não se limitam à operação agrícola. Eles afetam liquidez, capacidade de financiamento e criação de valor ao longo de toda a cadeia”, afirma Beatriz Protásio, CEO para Resseguros da Aon no Brasil.
Nesse cenário, a executiva defende a combinação entre análise de dados, transferência de riscos e outras fontes de capital como parte da estratégia de proteção financeira do agronegócio.
O próprio Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) demonstra a concentração de exposição em algumas culturas. Em 2024, R$ 522,7 milhões foram destinados a todas as culturas de verão, equivalentes a 48,8% dos recursos do programa. A soja recebeu aproximadamente R$ 423 milhões, enquanto o milho de primeira safra respondeu por R$ 43,9 milhões.
Para o mercado segurador, o relatório recomenda revisar concentrações de exposição por região e cultura, acompanhar as previsões de precipitação, avaliar acumulações de riscos e realizar testes de estresse considerando perdas simultâneas.
A Aon também aponta as soluções paramétricas como uma das ferramentas disponíveis para determinados riscos climáticos. Nesse tipo de seguro, o pagamento é vinculado a parâmetros previamente definidos, como volume de chuva, temperatura ou outro índice previsto em contrato.
“O caminho mais eficiente não é buscar uma única cobertura, mas construir uma estratégia de resiliência climática”, afirma Protásio.
Norte e Nordeste também exigem atenção
Embora o maior alerta agrícola esteja concentrado no Centro-Sul, o estudo identifica riscos para Norte e Nordeste. A redução das chuvas pode prolongar períodos de estiagem, aumentar a exposição a queimadas e pressionar os níveis de rios utilizados no transporte de cargas pelo Arco Norte.
Além da produção, portanto, o El Niño pode afetar a logística de escoamento de grãos e ampliar os riscos em diferentes pontos da cadeia agroindustrial. Para a Aon, o desafio para produtores, seguradoras e instituições financeiras será transformar as projeções meteorológicas em decisões sobre exposição, crédito e proteção antes da materialização das perdas.







