EXCLUSIVO – Um risco na porta do carro, uma pequena amassadura no para-choque ou um dano causado em uma manobra de estacionamento naquele dificilmente representam um grande acidente. Ainda assim, esses pequenos imprevistos costumam gerar um dilema para o motorista: arcar com um reparo que pode custar milhares de reais ou acionar o seguro tradicional e comprometer o bônus da apólice, muitas vezes para resolver um prejuízo inferior ao valor da franquia.
Esse cenário vem impulsionando um segmento que, até poucos anos atrás, era visto apenas como um benefício complementar das apólices. As assistências automotivas voltadas para pequenos reparos passaram a ocupar um espaço cada vez maior na jornada do segurado ao oferecer soluções para danos de baixa monta, como riscos, pequenas colisões, reparos em rodas, pneus, para-brisas e retrovisores, reduzindo o desembolso do cliente e evitando, em muitos casos, o acionamento do seguro principal.
A mudança acompanha uma transformação do próprio mercado automotivo brasileiro. O custo de manutenção dos veículos continua em trajetória de alta, enquanto a frota nacional cresce e os automóveis incorporam tecnologias cada vez mais sofisticadas, tornando qualquer reparo mais complexo do que há alguns anos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o serviço de conserto de automóveis encerrou 2025 com alta acumulada de 6,94%, percentual superior à inflação oficial do período, de 4,26%. A pressão permaneceu em 2026. Até abril, o serviço acumulava aumento de 3,38% no ano e de 5,41% nos últimos 12 meses. Somente em abril, os serviços de pintura automotiva registraram elevação de 4,22%, refletindo o encarecimento gradual da manutenção dos veículos.
Ao mesmo tempo, mais veículos circulam pelas ruas brasileiras. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que a frota nacional passou de 129,1 milhões de veículos, em dezembro de 2025, para aproximadamente 131,8 milhões em junho deste ano. Somente nesse intervalo, cerca de 2,7 milhões de veículos foram incorporados ao cadastro nacional, ampliando também o universo de consumidores potencialmente expostos a pequenos sinistros e à necessidade de serviços de reparação.
Na avaliação do mercado de assistência, esse conjunto de fatores tem alterado a forma como consumidores e seguradoras enxergam as assistências automotivas. O que antes era percebido apenas como um diferencial agregado à apólice passa a assumir um papel mais estratégico, especialmente diante da crescente dificuldade de justificar o acionamento do seguro tradicional para danos de menor valor.
Segundo um levantamento interno da Maxpar, empresa especializada em assistência automotiva, esse mercado registrou crescimento de 28% nos últimos cinco anos. O indicador considera a evolução do volume de atendimentos realizados pela companhia e, de acordo com a empresa, reflete uma combinação de fatores que envolve maior percepção de valor por parte dos consumidores, ampliação da oferta pelas seguradoras e fortalecimento do canal de distribuição por meio dos corretores.

“Com base no volume de atendimentos que realizamos mensalmente, percebemos um crescimento exponencial desse mercado. Isso acontece pela qualidade das assistências, pela percepção de valor do cliente, pelo aumento do comissionamento para os corretores e também pela melhora do pós-venda para seguradoras e corretores”, afirma Raphael Ribeiro, gerente de Relacionamento com Corretores da Maxpar.
A lógica tradicional do seguro automóvel foi construída para proteger o patrimônio do segurado diante de eventos de maior impacto, como colisões de grande monta, roubos, furtos ou perda total. No dia a dia, porém, boa parte das ocorrências envolve danos menores, cujo custo nem sempre justifica o acionamento da cobertura principal.
Nesses casos, o segurado costuma enfrentar um impasse: Se optar pelo reparo particular, pode desembolsar um valor elevado, especialmente diante da alta no preço das peças e da mão de obra especializada. Ou a escolha em acionar o seguro, que além do pagamento da franquia, poderá comprometer sua classe de bônus na renovação da apólice. Foi justamente para atender essa lacuna que as assistências voltadas para pequenos reparos passaram a ganhar espaço dentro do mercado segurador.
“Na prática, as ‘Maxassistências’ surgiram para ocupar essa lacuna. Muitas vezes, o cliente não atingia o valor da franquia do casco ou, quando atingia, precisava escolher entre pagar um alto valor por conta própria ou desembolsar a franquia para acionar o seguro. Com as assistências de reparo de lataria e pintura premium, ele passa a ter uma alternativa para resolver esses danos com qualidade e menor custo”, explica Ribeiro.
Na prática, essas coberturas funcionam como uma camada intermediária entre o pagamento integral do reparo e o acionamento da apólice tradicional. Dependendo do produto contratado, o segurado pode contar com cobertura para serviços específicos, como reparos de lataria, pintura, rodas, pneus, para-brisas e até substituição de determinados componentes, mediante limites financeiros previamente estabelecidos em contrato.
Essa lógica também beneficia as seguradoras. Ao direcionar pequenos danos para produtos específicos de assistência, reduz-se o volume de acionamentos do seguro principal, preservando a estrutura da carteira e permitindo que a cobertura tradicional permaneça concentrada em eventos de maior severidade.
Mais do que uma alternativa financeira, especialistas avaliam que esse movimento acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. Em vez de utilizar o seguro apenas em situações extremas, cresce a busca por soluções capazes de resolver problemas cotidianos de forma rápida, com menor burocracia e previsibilidade de custos.
É justamente nesse ponto que as assistências começam a deixar de ser percebidas apenas como um serviço complementar para assumir uma posição mais estratégica dentro do ecossistema do seguro automóvel.
Onde será que o cliente esta ‘economizando’?
O avanço desse modelo de assistência também está relacionado à possibilidade de reduzir significativamente o custo de determinados reparos, principalmente em componentes que sofreram forte valorização nos últimos anos em razão do aumento do preço das peças, da mão de obra especializada e da maior complexidade tecnológica dos veículos.
Um exemplo citado pela Maxpar ilustra esse cenário. Segundo a empresa, a substituição completa do para-choque de um utilitário esportivo da Jeep pode chegar a aproximadamente R$ 15 mil, considerando peça, pintura e instalação. Já um cliente que possua contratada a assistência de reparo de lataria e pintura premium desembolsaria R$ 745, conforme as condições previstas na cobertura.
A comparação considera uma assistência que contempla a substituição do para-choque e de peças complementares, além de um limite de R$ 1,5 mil para cobrir pintura e instalação. Embora os valores variem conforme o modelo do veículo e as condições da cobertura contratada, o exemplo demonstra como esse tipo de serviço pode reduzir significativamente o impacto financeiro de um dano de pequena monta.
“Através da seguradora e do corretor, o cliente consegue contratar essa assistência e contar com todos esses benefícios”, afirma Ribeiro.
Para o executivo, o principal ganho não está apenas na economia imediata, mas também na possibilidade de preservar a cobertura principal para situações em que ela realmente será necessária.
Embora sejam chamados de “pequenos reparos”, esse tipo de ocorrência representa uma parcela significativa das demandas enfrentadas pelos motoristas ao longo da vida útil do veículo. Segundo a Maxpar, os atendimentos mais frequentes envolvem danos de baixa monta, especialmente em componentes mais expostos ao uso diário. Entre os serviços mais solicitados estão:
- pequenos amassados na lataria;
- riscos na pintura;
- danos em rodas;
- pneus;
- para-brisas;
- retrovisores.
Em comum, essas ocorrências costumam apresentar um custo inferior ao da franquia do seguro tradicional ou gerar dúvidas sobre a conveniência econômica de acionar a apólice. “O principal volume de atendimentos está justamente nos danos de pequena monta que ficam abaixo da franquia do casco”, explica Ribeiro.
A rapidez na execução do serviço também aparece como um diferencial. Em muitos casos, o segurado consegue resolver o problema sem abrir um processo completo de sinistro, reduzindo etapas burocráticas e o tempo de indisponibilidade do veículo.
Outro fator que ajuda a explicar o crescimento das assistências automotivas é a própria evolução tecnológica dos veículos. Itens como câmeras, radares, sensores de estacionamento, assistentes de permanência em faixa e sistemas de frenagem automática — reunidos nas tecnologias conhecidas como ADAS (Advanced Driver Assistance Systems) — passaram a equipar não apenas veículos premium, mas também modelos de categorias intermediárias e de entrada.
Embora tragam ganhos importantes de segurança, esses equipamentos também elevaram o custo dos reparos. Hoje, componentes tradicionalmente associados apenas à funilaria, como para-choques, retrovisores e para-brisas, passaram a abrigar sensores eletrônicos que exigem substituição específica, calibração e equipamentos especializados após qualquer intervenção.
Na visão da CNseg, a incorporação de tecnologias embarcadas e dispositivos de segurança vem aumentando a complexidade das oficinas e o custo das reparações automotivas, tendência que tende a se intensificar com a renovação da frota e a expansão dos veículos eletrificados.
Na avaliação de Ribeiro, essa transformação também exige uma evolução constante do próprio mercado de assistência. “É necessário atualizar continuamente a capacidade técnica para acompanhar essa evolução. As assistências também precisam evoluir para atender veículos cada vez mais tecnológicos e mostrar ao consumidor que estão preparadas para esse novo cenário”, destaca
Na prática, um impacto de baixa velocidade que antes exigia apenas pintura ou alinhamento da peça pode envolver agora a substituição de sensores, calibração de câmeras e diagnóstico eletrônico, elevando significativamente o custo final do reparo.
Um novo espaço para o corretor
Além dos benefícios para o consumidor, o crescimento das assistências automotivas também amplia as possibilidades de atuação dos corretores de seguros. Tradicionalmente lembrado apenas no momento da contratação ou da renovação da apólice, o corretor passa a manter contato mais frequente com o cliente ao oferecer soluções para situações que fazem parte da rotina de quem utiliza o veículo diariamente.
Na visão da Maxpar, esse relacionamento contínuo fortalece o pós-venda e cria oportunidades para ampliar a receita sem depender exclusivamente da conquista de novos segurados. “O principal ganho é a capacidade de gerar maior receita utilizando a mesma base de clientes. O esforço comercial é menor porque já existe relacionamento. Além disso, como as assistências têm alta utilização, aumentam também a frequência de contato entre segurado e corretor”, afirma Ribeiro.
Essa mudança acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos do mercado segurador: transformar a apólice em um instrumento de relacionamento contínuo, oferecendo serviços que acompanhem o cliente durante toda a vigência do contrato e não apenas quando ocorre um sinistro de grande impacto.
Nesse contexto, as assistências deixam de ser vistas apenas como um benefício adicional para assumir um papel estratégico tanto na experiência do segurado quanto na fidelização das carteiras. O crescimento das assistências automotivas reflete uma mudança mais ampla na forma como consumidores enxergam a proteção do veículo. Se antes o seguro era lembrado principalmente diante de grandes acidentes, roubos ou perda total, hoje cresce a demanda por soluções capazes de resolver problemas cotidianos com menor custo, rapidez e previsibilidade.
Ao mesmo tempo em que os reparos ficam mais caros, os veículos incorporam tecnologias mais sofisticadas e a frota brasileira continua em expansão, ampliando o potencial de utilização desses serviços.
Nesse cenário, a assistência automotiva deixa de ocupar um papel secundário dentro da apólice para se consolidar como uma ferramenta capaz de complementar a cobertura tradicional, reduzir despesas para o segurado e fortalecer o relacionamento entre clientes, corretores e seguradoras.
Mais do que evitar o pagamento de uma franquia, esses serviços passam a representar uma nova lógica de proteção: uma em que o seguro não é acionado apenas para grandes eventos, mas é complementado por soluções específicas para as necessidades do dia a dia do motorista.
Nicholas Godoy





