EXCLUSIVO – O ano de 2026 marca um ponto de inflexão definitivo para o mercado de seguro de transporte de cargas no Brasil. À primeira vista, os números sugerem um cenário de bonança, em que estimativas da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projetam uma expansão de 6,6% para o segmento. No entanto, uma análise técnica mais aprofundada revela que esse crescimento ocorre sobre um terreno em permanente movimento, onde o setor deixa de operar sob uma lógica predominantemente comercial para ingressar na era da conformidade radical.
Não se trata apenas de transportar mais e segurar mais, mas de operar sob um ambiente regulatório digital sem precedentes, gerenciar riscos físicos agravados por fatores climáticos e de infraestrutura, além de preparar-se para a sofisticação contratual exigida pelo recém-formalizado acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.

O motor desse crescimento é multifatorial, impulsionado pelo avanço do e-commerce, pela integração às cadeias globais e pelo aumento do valor agregado das cargas. Contudo, na visão de João Paulo de Oliveira Barbosa, CEO da Mundo Seguro, corretora especializada em transporte, o mercado não deve confundir expansão com estabilidade. Para os players da cadeia logística (embarcadores, transportadores e corretores), a mensagem para 2026 é clara: o espaço para o amadorismo nas “apólices de gaveta” e para a desconexão entre o papel e a estrada praticamente deixou de existir.
Segundo Barbosa, há um aumento estrutural do risco logístico. “Estamos vendo uma convergência de fatores que elevam o custo potencial da sinistralidade: roubo de cargas persistente, deterioração da malha rodoviária, eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e uma concentração de valores por embarque que amplia o prejuízo em caso de perda total”, analisa.
Nesse cenário, empresas que ainda tratam o seguro como uma commodity ou um “custo obrigatório” para cumprir tabela estão assumindo passivos relevantes. “A apólice de 2026 precisa ser um instrumento de proteção do balanço financeiro e de garantia da continuidade operacional. Quem falha nessa leitura amplia significativamente seu risco de ruptura operacional”, observa.
Talvez a mudança mais impactante para o dia a dia das transportadoras em 2026 seja a maturidade da fiscalização digital. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) consolidou um ecossistema de dados que cruza informações do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC), Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), Código Identificador da Operação de Transportes (CIOT), Vale-Pedágio e apólices de seguro obrigatório.
Essa integração sistêmica altera de forma profunda a natureza do risco de compliance. Vale lembrar que, anteriormente, uma apólice irregular ou vencida só vinha à tona no momento do sinistro ou em fiscalizações físicas pontuais. Em 2026, com a maturidade desse ecossistema digital, inconsistências recorrentes passam a ser identificadas de forma automatizada e praticamente em tempo real.
“O seguro deixou de ser apenas um instrumento de indenização futura e passou a ser parte ativa da regularidade da operação no presente”, pontua Barbosa. O cruzamento digital reduz drasticamente a margem para inconformidades operacionais, criando um ambiente em que falhas de cobertura podem resultar em autuações, suspensão de registros e inviabilização prática da operação.
Isso impõe um novo imperativo: estar segurado corretamente deixa de ser uma formalidade e passa a ser uma condição operacional. A apólice precisa estar alinhada aos dados declarados nos documentos fiscais e operacionais. Divergências de valor, rota ou vigência passam a gerar alertas imediatos. Apesar da pressão regulatória crescente, o mercado ainda convive com um vício técnico perigoso: a desconexão entre o seguro contratado e a operação real, o chamado operational mismatch. Barbosa identifica isso como o risco mais crítico do ciclo atual. “Ainda vemos um volume relevante de apólices subdimensionadas. São contratos com limites de garantia, regras de gerenciamento de risco e processos de averbação que não refletem a realidade da estrada”, alerta.
Na prática, essa desconexão se manifesta em três gargalos:
- Dados desatualizados: apólices renovadas automaticamente sem refletir mudanças no perfil da carga ou novas rotas de maior exposição ao risco.
- Subcontratação invisível: uso intensivo de terceiros e Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) sem enquadramento adequado na apólice principal, gerando lacunas de cobertura.
- Descumprimento do PGR: falhas na execução do Plano de Gerenciamento de Risco — como rastreamento, rotas autorizadas e paradas programadas — que podem resultar em negativas legítimas de indenização.
Em um ambiente de margens pressionadas, um sinistro negado por erro técnico pode comprometer toda a operação. “O risco não está na falta de apólice, mas na falsa sensação de cobertura”, resume.
O fator geopolítico: acordo Mercosul–UE e seus impactos
Enquanto o mercado doméstico se ajusta à fiscalização digital, o cenário internacional adiciona uma nova camada de complexidade. A formalização do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, em janeiro, após mais de 25 anos de negociações, cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta que o acesso do Brasil ao comércio global pode saltar de 8% para 36%, com a eliminação de tarifas sobre 91% dos produtos exportados para a União Europeia. O fluxo de cargas tende a crescer, mas sob padrões técnicos e contratuais significativamente mais elevados.

Para Aparecido Rocha, insurance reviewer e especialista em transporte internacional, o impacto do acordo será sobretudo qualitativo. “O acordo eleva a régua. O seguro de transporte passa a ser um requisito estratégico para acesso ao mercado europeu. Não se trata apenas de cobrir a carga, mas de garantir rastreabilidade, previsibilidade e conformidade em toda a cadeia”, afirma.
Segundo o especialista, essa exigência se traduz em mudanças concretas na estrutura das operações. “O mercado europeu demanda previsibilidade operacional. Isso implica contratos mais claros, limites de responsabilidade bem definidos e documentação absolutamente consistente. O seguro deixa de ser apenas uma proteção financeira e passa a integrar a governança da operação”, complementa.
Rocha ressalta ainda que o Brasil não parte de uma posição tecnicamente frágil. As apólices internacionais brasileiras, segundo ele, já são maduras do ponto de vista técnico. “O desafio não está no produto securitário em si, mas na sua aplicação a fluxos logísticos mais complexos, com múltiplos modais, maior concentração de valor por embarque e exigências contratuais mais rígidas”, explica.
A integração logística tende a reduzir riscos tradicionais, como avarias decorrentes de armazenagem prolongada, mas cria novas exposições associadas à concentração de cargas em portos e à dependência crescente de sistemas digitais integrados ao comércio exterior. Nesse contexto, ganham relevância riscos cibernéticos e falhas sistêmicas capazes de impactar operações inteiras.
Além disso, cresce a pressão por harmonização contratual e alinhamento a padrões de liability europeus, ampliando a responsabilidade de embarcadores, operadores logísticos e seguradoras ao longo de toda a cadeia.
Outro vetor relevante para 2026 levantado pelo insurance, é a incorporação progressiva da agenda ESG aos critérios técnicos de aceitação e precificação do seguro. Impulsionada pelo acordo com a União Europeia, a sustentabilidade deixa de ser apenas um elemento reputacional e passa a influenciar diretamente decisões de subscrição. “Reguladores e o mercado avançam na integração da sustentabilidade à precificação, à aceitação de riscos e até às coberturas diferenciadas, alinhando o setor às práticas ambientais, sociais e de governança”, afirma.
Operadores com passivos ambientais relevantes, frotas obsoletas ou estruturas de governança frágeis tendem a enfrentar maior rigor na contratação de coberturas ou custos mais elevados. Em operações com cargas perigosas ou potencialmente poluentes, a capacidade de resposta ambiental prevista na apólice será cada vez mais testada.
Para Aparecido, o acordo Mercosul–UE deve ser interpretado como um vetor de transformação estrutural do seguro de transporte internacional no Brasil. “Não se trata apenas de um aumento de volume, mas de um gatilho para uma mudança mais profunda no segmento”, afirma. Segundo ele, o novo ambiente exigirá maior sofisticação na gestão de riscos, no compliance regulatório e no desenvolvimento de produtos, funcionando como um catalisador para a modernização do mercado segurador brasileiro, com impactos diretos em tecnologia, regulação e competitividade.
Tecnologia não substitui seguro
Diante de tanta complexidade, a tecnologia é frequentemente apresentada como solução definitiva. Sistemas de torre de controle, Internet of Things (IoT) e inteligência artificial para gestão de rotas são ferramentas essenciais, mas insuficientes por si só. “A tecnologia reduz a probabilidade do evento, mas não absorve o impacto financeiro quando ele ocorre. Ela não substitui a análise técnica do contrato de seguro”, reforça o executivo da Mundo Seguro. Um sistema de rastreamento sofisticado não garante indenização se a averbação não foi realizada corretamente ou se os limites da apólice foram ultrapassados.
Diante desse cenário de crescimento, rigor fiscalizatório e maior exigência internacional, o caminho apontado pelos especialistas é inequívoco: o seguro de transporte precisa migrar definitivamente da esfera burocrática para a estratégica. Para isso, essa transição passa por uma política de proteção mais madura e dinâmica, estruturada sobre cinco fundamentos interdependentes.
O primeiro é o alinhamento operacional contínuo, que exige a revisão permanente das apólices para garantir que reflitam a operação real, como as rotas efetivamente utilizadas, valores transportados, perfis de carga e modelos de subcontratação, e não apenas um histórico defasado ou pressupostos genéricos. Em paralelo, a conformidade regulatória plena torna-se indispensável, com auditoria constante dos dados enviados aos sistemas oficiais, de modo a evitar inconsistências que possam comprometer a regularidade da operação em um ambiente de fiscalização digital.
Outro pilar é o gerenciamento de risco efetivo. O cumprimento rigoroso do Plano de Gerenciamento de Risco (PGR) deixa de ser uma recomendação operacional e passa a ser condição direta para a validade da cobertura securitária, especialmente em um contexto de maior exposição a sinistros e negativas por falhas procedimentais. Essa lógica impõe, ainda, uma integração multidisciplinar mais robusta, na qual a gestão do seguro não fique restrita ao departamento financeiro, mas envolva de forma coordenada as áreas operacional, jurídica, logística e de compliance.
Por fim, Barbosa destaca a necessidade de acompanhamento técnico contínuo, com corretoras especializadas atuando não apenas como intermediárias comerciais, mas como consultoras de risco, capazes de antecipar mudanças regulatórias, revisar estruturas de cobertura e apoiar decisões estratégicas. Em um ambiente cada vez mais complexo, tratar o seguro de forma estática ou genérica deixa de ser uma opção viável.
O transporte de cargas brasileiro entra em 2026 maior, porém mais exposto. A combinação entre fiscalização digital e abertura comercial cria um ambiente seletivo, no qual eficiência logística e robustez securitária caminham juntas. “Em um ambiente de fiscalização digital, cadeias complexas e maior responsabilização, quem trata o seguro de forma genérica corre riscos desnecessários. Quem se antecipa e estrutura sua proteção com critério técnico opera com mais segurança, previsibilidade e confiança” conclui.
Para ambos os especialistas, o recado final para o mercado é claro: o novo ambiente regulatório e comercial tende a diferenciar operações estruturadas daquelas mais vulneráveis. Em 2026, o seguro de transporte deixa de ser apenas uma exigência formal.
Nicholas Godoy, de São Paulo.




