Ultima atualização 10 de junho

Consultas em saúde mental crescem 73% na saúde suplementar

Levantamento aponta que consultas com psiquiatras e psicólogos cresceram entre 2021 e 2025. Cenário coincide com a entrada da NR-1 e o fortalecimento das políticas de cuidado mental nas empresas

EXCLUSIVO: A discussão sobre saúde mental nunca esteve tão presente na agenda das empresas e da saúde suplementar. Em meio a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que ampliou a atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, dados obtidos junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) revelam uma escalada na procura por atendimento especializado.

O levantamento mostra que o número de consultas realizadas por psiquiatras e psicólogos saltou de 6,1 milhões em 2021 para 10,6 milhões em 2025, representando um crescimento superior a 73% no período. O maior avanço foi registrado em 2023, quando os atendimentos ultrapassaram a marca de 10,7 milhões, mantendo-se em patamar elevado nos anos seguintes. A tendência reforça o crescimento da demanda por cuidados relacionados ao tema em um período em que empresas, operadoras e reguladores intensificam ações voltadas à prevenção e ao gerenciamento desses riscos.

A mudança regulatória também reflete essa nova realidade. Ao exigir que organizações incorporem fatores de risco psicossociais à gestão de saúde e segurança do trabalho, a norma reflete uma percepção que já vinha ganhando força no mercado: o cuidado mental corporativo passou a ser um componente estratégico para a sustentabilidade dos negócios e para a gestão de pessoas, além contribui para reduzir custos relacionados a afastamentos, absenteísmo e assistência.

Evolução das consultas com psiquiatras e psicólogos:

AnoNúmero de consultas
20216.114.485
20227.158.102
202310.724.314
20249.599.054
202510.593.339

Fonte: ANS – Padrão TISS (maio/2026).

O movimento também é observado nas internações psiquiátricas. Segundo o levantamento, o total passou de 95.818 registros em 2021 para 183.546 em 2025, praticamente dobrando em apenas cinco anos. Ao mesmo tempo, houve uma mudança importante no perfil da assistência: enquanto em 2021 as internações hospitalares representavam 73% do total, em 2025 essa participação caiu para 54%, com crescimento significativo do modelo de hospital-dia, que passou de 27% para 46%, refletindo uma tendência de utilização de modalidades menos restritivas de tratamento.

Evolução das internações psiquiátricas:

AnoHospitalarHospital-diaTotal
202169.69026.12895.818
202285.63239.593125.225
202389.65049.496139.146
202493.13076.766169.896
202598.95384.593183.546

Fonte: ANS – Padrão TISS (maio/2026).

Na avaliação da ANS, o avanço da demanda por serviços relacionados à saúde mental exige investimentos permanentes na ampliação e qualificação das redes credenciadas para garantir acesso dentro dos prazos regulatórios e assegurar a continuidade do tratamento aos beneficiários.

A agência também aponta que outro desafio está na consolidação de modelos assistenciais centrados na promoção da saúde, na prevenção e na atenção primária, reduzindo a fragmentação do cuidado e priorizando abordagens ambulatoriais e multidisciplinares sempre que possível.

“O setor enfrenta o desafio de equilibrar ampliação do acesso, sustentabilidade e qualidade assistencial, garantindo que questões como coparticipação e reembolso não se tornem barreiras ao tratamento contínuo”, destaca o documento encaminhado pela reguladora. Segundo a Agência, a saúde mental deve ser tratada de forma transversal, integrada às demais linhas de cuidado, reconhecendo sua influência direta sobre diversas doenças crônicas e sobre a qualidade de vida da população.

O crescimento dos casos também amplia a responsabilidade das empresas na promoção do bem-estar emocional dos trabalhadores. De acordo com a agência, cerca de 70% dos vínculos da saúde suplementar estão concentrados em planos coletivos empresariais, o que torna o ambiente corporativo um espaço estratégico para ações preventivas.

Nesse contexto, a reguladora firmou acordos de cooperação com entidades como a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil) e o Serviço Social da Indústria (SESI), buscando fortalecer programas voltados à educação em saúde, desenvolvimento de boas práticas e criação de linhas de cuidado específicas.

Entre as iniciativas está o Projeto Mental Lab, desenvolvido em parceria com o SESI, que pretende testar e validar estratégias de atenção voltadas aos trabalhadores da indústria, com potencial de aplicação em todo o setor da saúde suplementar.

Além do fortalecimento da assistência, a agência vem ampliando políticas voltadas à prevenção. Atualmente, existem 421 programas de Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças (Promoprev) aprovados pela agência, dos quais 77 contemplam ações relacionadas à saúde mental, incluindo iniciativas focadas em ansiedade, depressão, alcoolismo, alterações de humor, saúde da mulher e da criança, além cuidados destinados à população adulta e idosa.

Programas Promoprev aprovados pela ANS:

IndicadorQuantidade
Total de programas Promoprev421
Programas que abordam saúde mental77
Participação18%

Distribuição dos programas relacionados à saúde mental:

TemaQuantidade
Específicos de saúde mental (ansiedade, depressão, estresse, TEA etc.)12
Alcoolismo36
Saúde da mulher2
Saúde da criança2
Adulto e idoso25

Fonte: Sistema Promoprev/ANS (14/05/2026).

A saúde mental também passou a integrar de forma estruturante o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção Primária à Saúde (APS), sendo considerada requisito para a obtenção da Certificação Plena da ANS. O objetivo é que a atenção primária seja capaz de acolher e acompanhar grande parte das demandas relacionadas ao sofrimento psíquico de maneira integrada ao cuidado geral em saúde.

Falta de dados por diagnóstico ainda limita análises

Apesar do crescimento expressivo dos atendimentos, a ANS esclarece que não consegue identificar especificamente o aumento de diagnósticos relacionados a ansiedade, depressão ou burnout dentro da saúde suplementar. Isso ocorre porque, desde 2010, uma decisão judicial impede que a agência exija das operadoras o envio da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID) por meio do Padrão TISS.

Como consequência, embora seja possível observar a expansão das consultas e das internações, não há informações consolidadas que permitam detalhar quais transtornos são responsáveis pelo aumento da demanda assistencial.

Os dados apresentados pela ANS refletem um cenário de transformação da saúde suplementar, no qual a saúde mental deixa de ser uma demanda periférica para se consolidar como um dos principais desafios assistenciais do setor. Ao mesmo tempo em que cresce a procura por atendimento especializado, aumenta a necessidade de investimentos em prevenção, integração entre níveis de cuidado e desenvolvimento de estratégias capazes de garantir sustentabilidade financeira sem comprometer o acesso e a qualidade da assistência, reforçando a importância de uma atuação conjunta entre operadoras, empregadores e políticas públicas.

Nicholas Godoy

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