A baixa penetração de seguros no Brasil tem ampliado os impactos econômicos de desastres naturais e reduzido a velocidade de recuperação de municípios atingidos por eventos extremos. A avaliação é da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), com base em dados recentes sobre ocorrências climáticas e indenizações no país. Municípios de Santa Catarina estão entre os que mais receberam recursos federais em 2026 para ações emergenciais. Segundo levantamento com base em dados do Diário Oficial da União, cidades como Rio do Sul (R$ 3,53 milhões), Luiz Alves (R$ 470 mil) e Massaranduba (R$ 452 mil) foram contempladas com repasses para recuperação de danos causados por enchentes e chuvas intensas.
O volume de repasses evidencia a recorrência de eventos extremos na região Sul, especialmente chuvas intensas e enchentes. Segundo o “Radar de Eventos Climáticos e Seguros do Brasil”, da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), a frequência média anual de eventos climáticos praticamente dobrou no país na comparação entre os períodos 2015–2019 e 2020–2024, passando de 2.500 registros anuais para 4.500. Somente até junho de 2025, os eventos climáticos significativos no país geraram perdas estimadas de R$ 31 bilhões.
Somente até junho de 2025, esses eventos geraram perdas estimadas em R$ 31 bilhões. As chuvas intensas concentram os impactos sociais mais severos, com média anual de 278 mortes e 669 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas. Apesar dos repasses públicos, a baixa cobertura securitária agrava a exposição de famílias, empresas e municípios. Estimativas da Confederação Nacional das Seguradoras indicam que apenas cerca de 9% das perdas econômicas decorrentes de desastres climáticos são cobertas por seguros no Brasil. O descompasso também é evidente no agronegócio, setor mais afetado em termos econômicos, mas com apenas 3,3% da área coberta pelo Programa de Seguro Rural em 2025.
Em Santa Catarina, os efeitos dos eventos extremos já se refletem no aumento das indenizações. Em 2025, os pagamentos cresceram 15,3% no seguro auto, 11% no residencial, 7,3% no habitacional e 75,4% no seguro empresarial, evidenciando a pressão sobre o patrimônio de famílias e empresas.
Para a diretora de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras, Claudia Prates, o seguro deve ser incorporado como instrumento estratégico de política climática. “O seguro precisa ser reconhecido como instrumento estruturante de política climática. Ampliar a cobertura significa reduzir a dependência de recursos emergenciais, acelerar a recuperação econômica e fortalecer a capacidade das cidades de enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes. O Brasil precisa integrar proteção securitária, planejamento urbano e gestão de risco em uma mesma agenda de resiliência.”
A executiva também destaca a importância da cooperação entre setor público e privado, com o desenvolvimento de mecanismos para cobertura de catástrofes e seguros voltados à infraestrutura urbana e serviços essenciais.
Na mesma linha, o presidente do Sindicato das Seguradoras de Santa Catarina (SindsegSC), João Amato, afirma que o setor tem papel estratégico na mitigação de riscos, mas ressalta a necessidade de avanços na ampliação da proteção. “O mercado segurador comprovou sua solidez e resiliência nos últimos acontecimentos na região, mas ainda persiste o desafio de avançar na ampliação da proteção, especialmente para as populações economicamente mais vulneráveis. O setor tem um papel estratégico na gestão e mitigação dos riscos associados a eventos climáticos extremos e vem evoluindo continuamente suas ferramentas de análise, gestão de exposição e apoio às comunidades. Ainda assim, fortalecer a resiliência climática exige um esforço que vai além da atuação isolada do seguro, envolvendo planejamento urbano, prevenção, mitigação e cooperação entre empresas, governos e sociedade. A discussão sobre novos instrumentos e mecanismos colaborativos é fundamental para ampliar a capacidade de adaptação, sobretudo em regiões mais expostas, e para lidar de forma estruturada com o aumento dos riscos climáticos no longo prazo”, concluiu.
A experiência internacional indica que países com maior participação do seguro na economia conseguem responder de forma mais rápida a desastres, reduzindo a pressão sobre o orçamento público e fortalecendo a recuperação local. Nesse contexto, ampliar a cultura do seguro no Brasil passa a ser não apenas uma agenda do setor, mas uma estratégia central para o desenvolvimento econômico e a adaptação às mudanças climáticas.




