Ultima atualização 12 de fevereiro

Liquid Underwriting: a subscrição como sistema vivo

Durante décadas, a subscrição se apoiou em uma suposição estável: a de que o passado é um guia confiável para o futuro. Históricos de sinistros, tabelas atuariais e categorias de risco bem delimitadas permitiram classificar, precificar e gerir a incerteza. Essa suposição, no entanto, está deixando de ser válida.

A volatilidade já não é episódica — é estrutural. A complexidade já não está contida — é sistêmica. A incerteza já não é “ruído” — tornou-se o sinal definidor do nosso tempo. Nesse contexto, o risco deixa de se comportar como um conjunto de eventos isolados e passa a operar como um sistema, moldado pela interação entre volatilidade climática, aceleração tecnológica, instabilidade geopolítica e fragmentação social. A essa condição dou o nome de Liquid Risk (Risco Líquido) — conceito analisado em profundidade no relatório Navigating Liquid Risk: Rethinking Insurance for a World of Disruption.

Do risco sólido ao risco líquido

O seguro sempre evoluiu em paralelo às mudanças na forma como as sociedades compreendem a incerteza. Os primeiros modelos surgiram quando o risco deixou de ser interpretado como destino divino e passou a ser algo mensurável e gerenciável. A probabilidade substituiu o destino, estabelecendo as bases da subscrição moderna e da ciência atuarial.

Hoje, assistimos a uma nova transformação. Na era do Liquid Risk, a incerteza é contínua, a causalidade torna-se difusa e a exposição evolui em tempo real. Os riscos já não permanecem estáveis tempo suficiente para serem capturados por condições de apólice fixas, gatilhos estáticos ou decisões periódicas de subscrição. O resultado é uma lacuna crescente entre a forma como o risco se comporta e a maneira como os sistemas de subscrição foram projetados para interpretá-lo.

A lacuna entre projeção e percepção

Apesar de sinais de risco cada vez mais dinâmicos, a subscrição permanece, em grande parte, estática. As decisões continuam concentradas em momentos pontuais — submissão, emissão e renovação — enquanto o risco segue se transformando continuamente.

Para fechar essa lacuna, as seguradoras precisam evoluir de um modelo baseado em previsão para um modelo centrado em interpretação; de avaliações periódicas para detecção contínua; e de decisões isoladas para uma estratégia com consciência de portfólio. Se a subscrição continuar operando sob pressupostos de estabilidade em um mundo definido pela fluidez, as seguradoras enfrentarão maior volatilidade não apenas nos índices de sinistralidade, mas também no controle estratégico, na eficiência de capital e na confiança. Este não é um problema de dados. É um problema de modelo operacional.

Liquid Underwriting: a resposta operacional

Liquid Underwriting é a resposta operacional ao Liquid Risk. Trata-se de um modelo de subscrição contínuo e sensível ao contexto, que integra sinais em tempo real, interpretação do risco e consciência de portfólio para apoiar decisões adaptativas à medida que as condições evoluem.

Onde a subscrição tradicional assume estabilidade, o Liquid Underwriting assume movimento. Onde os modelos tradicionais extrapolam o passado, o Liquid Underwriting escuta sinais. Onde a subscrição antes ocorria em pontos fixos no tempo, agora ela se desdobra de forma contínua ao longo do ciclo de vida da apólice. Mais do que um exercício pontual de seleção de riscos, o Liquid Underwriting redefine a subscrição como uma disciplina de decisão contínua, projetada para operar em ambientes de incerteza permanente. Esses princípios são desenvolvidos em detalhe no relatório Liquid Underwriting: Transforming Underwriting into a Living System.

A figura a seguir ilustra as capacidades centrais que sustentam a tomada de decisão contínua e contextual em um ambiente de risco líquido, apoiando a interpretação do risco, a gestão ativa de portfólios e a ação orientada por eventos.

O novo papel do subscritor

O Liquid Underwriting não reduz o papel do subscritor — ele o eleva. Em um mundo de volatilidade permanente e sinais contínuos, o valor da subscrição já não reside na execução de regras, mas na interpretação da incerteza — uma atividade que a tecnologia pode apoiar, mas não substituir.

Essa mudança traz implicações arquitetônicas concretas. O Liquid Underwriting pressupõe uma arquitetura desacoplada, na qual a inteligência de decisão é separada dos sistemas de registro. Os sistemas core continuam cumprindo seu papel como sistemas de registro, enquanto a tomada de decisão se aproxima do ponto onde os sinais emergem e o significado é construído. Baseados em arquiteturas event-driven e API-first, os underwriting workbenches tornam-se a camada cognitiva da subscrição — um ambiente em que a automação apoia a interpretação e a tecnologia amplia o julgamento humano. Nesse contexto, a IA não substitui os subscritores; ela os reposiciona. O verdadeiro desafio já não é a disponibilidade de dados, mas a coerência das decisões.

O que isso significa para as seguradoras

Tratar a subscrição como um sistema vivo tem implicações que vão além da otimização de processos. Isso redefine a forma como as seguradoras pensam sua estratégia, seus produtos e sua arquitetura tecnológica. A subscrição passa a ser um mecanismo de interpretação do risco em tempo real, e não apenas de classificação; os portfólios são ativamente orientados, em vez de passivamente acumulados; e os produtos evoluem de contratos estáticos para proteções contextuais e sensíveis a eventos.

Do ponto de vista arquitetônico, isso exige fundamentos modulares, orientados a APIs e capazes de sustentar decisões contínuas. Do ponto de vista estratégico, requer uma mudança de foco: da eficiência isolada para a resiliência, a inclusão e a confiança. As seguradoras melhor posicionadas em um ambiente de Liquid Risk serão aquelas capazes de alinhar estratégia de subscrição, desenho de produtos e tecnologia em torno de um mesmo princípio: a capacidade de interpretar e responder à medida que o mundo muda.

*Por Fabio Sarrico, analista sênior da Celent.

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