Empresas ligadas à inteligência artificial receberam 95,2% de todo o investimento global destinado a insurtechs no primeiro trimestre de 2026. Dos US$ 1,63 bilhão captados pelo setor, aproximadamente US$ 1,55 bilhão foi direcionado a companhias classificadas como focadas em IA.
Os números, originalmente levantados pela Gallagher Re, integram a primeira edição do WIR Index, publicação trimestral criada pela WIR Innovation para acompanhar investimentos, tecnologia e regulação no mercado de seguros brasileiro, latino-americano e global.
Embora a edição seja identificada como referente ao segundo trimestre de 2026, os dados globais de funding utilizados são do primeiro trimestre, último período consolidado disponível na elaboração do levantamento. A própria WIR informa que os números agregados de Q2 ainda não haviam sido publicados pelos principais trackers considerados na metodologia.
Segundo os dados da Gallagher Re, os dez maiores aportes globais do primeiro trimestre foram destinados a empresas relacionadas à inteligência artificial. O movimento ocorreu em um período no qual o investimento total em insurtechs cresceu 24% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Para Nicholas Weiser, fundador e CEO da WIR Innovation, a concentração de recursos em IA mostra uma mudança nos critérios considerados pelos investidores. “A IA deixou de ser diferencial e virou pré-requisito. Mas a leitura mais importante do índice é contraintuitiva: a maior parte do capital que entra no Brasil está sendo alocada em ferramentas de workflow que os grandes modelos de linguagem vão comoditizar em 24 meses. O que não comoditiza é o dado proprietário — de cotação, de sinistro, de comportamento”, afirma.
A afirmação sobre a comoditização das ferramentas representa uma tese da WIR e não uma projeção da Gallagher Re.
Rodadas brasileiras passam de R$ 600 milhões
No Brasil, o índice acompanha uma série de captações realizadas por empresas ligadas a seguros, saúde e tecnologia. Somados, os negócios listados em reais superam R$ 600 milhões.
Esse montante, porém, não representa apenas investimentos realizados no segundo trimestre de 2026. A janela utilizada pela WIR compreende rodadas anunciadas entre dezembro de 2024 e junho deste ano.
Entre os negócios acompanhados estão a Série C de R$ 125 milhões da Azos; a Série A de R$ 106 milhões da Arvo, realizada em setembro de 2025; a Série B de R$ 102 milhões da Darwin Seguros, anunciada em 2025; e a rodada seed de R$ 45 milhões da Segura em 2026.
A captação da Arvo foi liderada por Kaszek e Base10 Partners e direcionada à expansão de uma plataforma que utiliza inteligência artificial para analisar contas médicas, autorizações e sinistros.
“O caso da Arvo é a prova local da tese: dado proprietário de sinistro atrai cheque Tier 1. E a chegada da a16z ao Brasil e ao México na mesma tese — automação do corretor — sinaliza que a camada de distribuição está sendo capitalizada antes de consolidar”, analisa José Carlos de Paula, sócio e CSO da WIR Innovation, ex-CEO da Santander Corretora e ex-C-level de Notredame Intermédica e Hapvida.
Já a Segura levantou R$ 45 milhões em rodada coliderada pela Andreessen Horowitz (a16z) e pela Kaszek para ampliar sua infraestrutura de IA voltada à operação entre seguradoras e corretores.
Na avaliação da WIR, esses aportes indicam maior interesse do capital por empresas que combinam inteligência artificial com bases próprias de dados e integração aos processos do mercado.
Entre os casos internacionais destacados está a Corgi, seguradora norte-americana que utiliza IA em sua operação. Em maio, a companhia anunciou uma Série B de US$ 160 milhões com valuation de US$ 1,3 bilhão. Cerca de três semanas depois, captou mais US$ 106 milhões em uma rodada B1 que elevou sua avaliação para US$ 2,6 bilhões.
Para a WIR, a valorização é um sinal de que investidores estão atribuindo maior valor a modelos que associam inteligência artificial a dados de subscrição. Essa interpretação faz parte da análise proprietária do índice.
Índice acompanha adoção de IA
A publicação também criou o WIR AI Adoption Index, que busca posicionar empresas brasileiras de acordo com a profundidade da automação e o número de linhas de negócio nas quais utilizam inteligência artificial.
A própria WIR ressalta que essa classificação é uma estimativa qualitativa baseada em informações públicas, como anúncios, produtos, rodadas de investimento e entrevistas, e não uma auditoria das empresas avaliadas.
Além de investimentos e tecnologia, o levantamento acompanha temas regulatórios, entre eles o Open Insurance. Em março, a Susep abriu uma tomada de subsídios para receber contribuições destinadas ao aperfeiçoamento da estrutura do sistema.
O WIR Index encerra a primeira edição com três previsões que serão acompanhadas nas próximas publicações. Entre elas estão a expectativa de que uma insurtech B2B brasileira anuncie uma Série B superior a US$ 30 milhões até o fim de 2026 e de que ao menos uma seguradora de grande porte coloque um agente de inteligência artificial em produção em processos de sinistros ou cotação.
A terceira aposta prevê um avanço concreto da Fase 3 do Open Insurance divulgado pela Susep até setembro deste ano. Segundo a metodologia, as previsões terão critérios objetivos de verificação e passarão a contar com um placar de acertos e erros a partir da próxima edição.
N.G.







