A adoção da inteligência artificial acelerou nas empresas globais, mas transformar os investimentos em retorno financeiro ainda deve levar mais de dois anos. Segundo a terceira edição da pesquisa anual de adoção e riscos de IA da Gallagher, 63% das organizações já operacionalizaram totalmente ou implementaram a tecnologia em partes de seus negócios, ante 45% no levantamento anterior.
Entre as empresas que medem o retorno sobre investimento (ROI) das iniciativas de IA, a expectativa é de que sejam necessários, em média, 28 meses para que o valor gerado pela transformação supere os custos iniciais. Quase dois terços das organizações pesquisadas já acompanham esse indicador.
Apesar do prazo para recuperação dos investimentos, os efeitos sobre a operação já aparecem. Em média, 86% das empresas avaliam como positivo ou muito positivo o impacto da IA sobre a produtividade dos funcionários. Além disso, 82% afirmam já observar benefícios da tecnologia e 83% acreditam que ela contribuirá para o crescimento das receitas no futuro.
As aplicações mais frequentes estão concentradas na gestão de operações de TI, em funções de relacionamento com clientes, como chatbots e assistentes virtuais, e em atividades de pesquisa e análise de dados.
Para André Scudiere, head de Digital & Dados da Gallagher Brasil, o desafio agora é transformar projetos de experimentação em aplicações capazes de ganhar escala.
“Os dados mostram que a IA já entrega produtividade, mas o retorno financeiro depende da capacidade de transformar experimentação em escala. Isso exige profissionais preparados, processos redesenhados e uma infraestrutura tecnológica confiável. Como broker de seguros, nosso papel é apoiar os clientes para que a inovação aconteça de forma responsável, conectando os benefícios da tecnologia aos riscos operacionais, financeiros, cibernéticos e reputacionais envolvidos”, afirma.
Falta de profissionais dificulta avanço
A escassez de talentos aparece como a principal barreira à ampliação do uso da tecnologia. Mais da metade das empresas cita lacunas de competências e dificuldades de recrutamento entre os obstáculos para avançar na implementação de IA.
Na sequência aparecem limitações técnicas e de infraestrutura, além de questões relacionadas a compliance, governança e privacidade de dados.
O estudo mostra ainda que, apesar da expansão do uso da tecnologia, a estrutura de governança não avançou no mesmo ritmo. Menos da metade das organizações adotou estruturas formais de gestão de riscos para IA, realizou avaliações de impacto ético ou desenvolveu planos específicos de resposta a incidentes envolvendo a tecnologia.
Entre os principais riscos percebidos pelos executivos estão erros, desinformação e alucinações produzidas pelos sistemas de IA, citados por 57% dos entrevistados. Riscos jurídicos e reputacionais aparecem em seguida, com 56%, e violações de privacidade e proteção de dados, com 55%.
Também estão entre as preocupações ataques cibernéticos e fraudes, dependência excessiva da tecnologia, redução do julgamento humano, impactos sobre empregos e problemas relacionados à governança.
“Não é sustentável acelerar a adoção de IA e discutir governança apenas depois. As empresas precisam definir desde o início onde a tecnologia pode ser utilizada, quais dados podem ser processados, como os resultados serão validados e quem responde pelas decisões. A combinação entre governança, julgamento humano e instrumentos adequados de seguro será fundamental para que a IA gere valor sem criar exposições desproporcionais”, afirma Scudiere.
A expansão da IA também começa a provocar mudanças no mercado de seguros. Segundo a Gallagher, as novas exposições estão levando ao desenvolvimento de soluções específicas, endossos e coberturas adicionais e, em alguns casos, exclusões relacionadas à tecnologia.
O levantamento também aponta que muitas apólices existentes ainda não tratam explicitamente dos riscos relacionados à inteligência artificial, o que pode gerar dúvidas sobre a abrangência das coberturas diante de perdas provocadas pelo uso da tecnologia.
A pesquisa ouviu mais de 1,2 mil líderes empresariais em mercados como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália, Índia, Japão, países nórdicos, Coreia do Sul e Irlanda.







