EXCLUSIVO – O mercado de seguros brasileiro atravessa um ciclo atípico de rentabilidade, sustentado pela combinação de fatores. O cenário, que tem ampliado margens e gerado resultados consistentes para as companhias, também abre espaço para movimentos estratégicos mais ousados. É nesse contexto que o GrupoGC decidiu acelerar sua agenda de crescimento e consolidar um novo ciclo de expansão.
Após 15 anos de crescimento contínuo, a companhia inicia um novo ciclo estratégico que vai além da expansão orgânica. A proposta agora é reposicionar o grupo como um ecossistema de distribuição, com novas arquiteturas de negócio, investimentos em tecnologia e um modelo mais integrado entre corretores, parceiros e seguradoras. “Não queremos mais ser apenas uma gestora de corretoras. Queremos ser um ecossistema de distribuição, com capacidade de orquestrar oportunidades, negócios e crescimento”, afirma Murilo Riedel, CEO do GrupoGC, em entrevista.
A origem do GrupoGC está diretamente ligada ao empreendedorismo de executivos vindos do setor bancário. Profissionais com forte atuação em seguros decidiram criar suas próprias corretoras, mas com um diferencial estrutural, onde em vez de operar de forma isolada, fundaram uma gestora responsável por coordenar estratégia, contratos e desenvolvimento de negócios. “Costumo dizer que a GC é a primeira gestora do Brasil fundada pelos próprios geridos”, explica.
O modelo rompe com o conceito tradicional de assessorias focadas em backoffice. Segundo Murilo, o principal ativo no GC sempre foi a capacidade de estruturar negócios, conectar parceiros e desenhar estratégias de crescimento. Esse posicionamento sustentou a expansão do grupo, que saiu do zero para cerca de R$ 2,6 bilhões em prêmios emitidos, com expectativa de se aproximar de R$ 3 bilhões no curto prazo.
Ambição e reconfiguração

Agora, a companhia busca um salto mais ambicioso. A meta é atingir R$ 6 bilhões em prêmios nos próximos cinco anos, apoiada em uma reconfiguração estratégica. O movimento é impulsionado por uma leitura clara do mercado: a distribuição de seguros está mudando e deve se tornar mais integrada, tecnológica e baseada em ecossistemas. “Existe um mar de oportunidades em novas arquiteturas de negócios, modelos societários e parcerias. Quando você se enxerga como um ecossistema, essas possibilidades se ampliam exponencialmente”, frisa.
Entre os principais vetores desse novo ciclo do GrupoGC estão no avanço das aquisições e a consolidação de corretoras, movimento que tem contribuído para o ganho de escala e fortalecimento de operações no mercado. Soma-se a isso a adoção de novos arranjos societários, que permitem maior flexibilidade na estrutura de capital e na formação de parcerias. As empresas também têm intensificado a construção de parcerias estratégicas, ampliando o alcance comercial e a oferta de soluções. Paralelamente, os investimentos em tecnologia seguem como prioridade, impulsionando eficiência operacional, digitalização de processos e melhoria na experiência de clientes e corretores. Esse conjunto de iniciativas é complementado pela ampliação da capacidade de distribuição, elemento central para sustentar o crescimento e aumentar a penetração dos produtos no mercado.
No centro dessa transformação está a OneGC, plataforma tecnológica desenvolvida em parceria com a MJV, multinacional brasileira especializada em soluções digitais. Mais do que uma iniciativa de digitalização, a proposta nasce com um objetivo mais amplo: estruturar uma camada de orquestração capaz de integrar, organizar e potencializar o uso das múltiplas ferramentas que hoje compõem o ambiente operacional das corretoras.
A leitura do GrupoGC parte de um diagnóstico claro do mercado. Em um cenário de rápida evolução tecnológica com a proliferação de soluções de gestão, motores de cotação, automação e aplicações de inteligência artificial, o desafio deixou de ser o acesso à tecnologia. A complexidade agora está na capacidade de integrar essas soluções e transformá-las em eficiência operacional e inteligência de negócios. “O mercado está em ebulição tecnológica. Temos ferramentas de gestão, motores de cotação, inteligência artificial, automação… O desafio não é mais ter acesso a essas soluções, mas organizá-las e extrair valor delas”, afirma.

É nesse contexto que a OneGC se posiciona como uma plataforma estruturante. Em sua primeira fase, o projeto contempla 14 módulos que cobrem toda a jornada operacional de uma corretora que vai da prospecção e venda ao pós-venda, passando por processos como emissão, gestão de comissões, sinistros e renovações. A proposta é consolidar, em um único ambiente, atividades que tradicionalmente operam de forma fragmentada, reduzindo fricções e aumentando a eficiência do dia a dia.
Além da unificação operacional, a plataforma também incorpora uma camada estratégica baseada em dados. A ideia é oferecer às corretoras acesso a informações estruturadas e acionáveis, capazes de apoiar a tomada de decisão, identificar oportunidades comerciais e aprimorar a gestão do negócio. Nesse sentido, a evolução da OneGC prevê a ampliação contínua de funcionalidades, com a integração de ferramentas de business intelligence, recursos financeiros, gestão de pessoas e aplicações mais avançadas de inteligência artificial.
Outro elemento central é a lógica omnichannel, que permite a integração com diferentes sistemas e pontos de contato, criando uma experiência mais fluida tanto para o corretor quanto para o cliente final. Na prática, a plataforma funciona como um hub integrador, conectando tecnologias diversas sob uma mesma arquitetura e simplificando a operação. “É uma plataforma que vai unificar todo o processo, toda a vida das corretoras, trazendo muito mais eficiência e permitindo que elas foquem no que é mais importante: a prospecção de novos negócios e o relacionamento com os clientes”, reforça.
Mesmo com o avanço tecnológico, o GrupoGC sustenta que a transformação não altera a essência do modelo de distribuição. A cultura e o papel do corretor permanecem no centro da estratégia, agora potencializados por um ambiente mais estruturado e orientado por dados. “O principal ativo não é a ferramenta. É a capacidade de desenhar soluções e arquiteturas de negócios junto ao mercado” pontua.
Consolidação e futuro da distribuição
O movimento do GC também dialoga com uma tendência mais ampla: a consolidação do mercado de corretoras no Brasil, ainda altamente fragmentado. Para Murilo, plataformas de distribuição com capacidade de integração e escala devem ganhar protagonismo nos próximos anos, especialmente à medida que o setor avança em digitalização e novos modelos de negócio.
Além das transformações internas, o executivo faz um alerta ao mercado. Para ele, o atual ciclo de resultados do setor, o qual é considerado “único”, precisa ser aproveitado como vetor de investimento e inovação. “Nunca houve, na história do seguro no Brasil, uma combinação tão favorável: juros altos, baixa inflação de custos e queda na frequência de sinistros. Isso precisa se transformar em investimento no próprio mercado”, destaca.
Segundo ele, há risco de acomodação diante da rentabilidade elevada, o que pode atrasar avanços estruturais importantes, especialmente na experiência do cliente e na digitalização. “Esse não é um ciclo permanente. É uma janela. E precisa ser usada para construir o futuro do setor”, conclui o CEO.
Ao reposicionar sua estratégia, o GrupoGC se alinha a uma transformação mais ampla da indústria de seguros: a transição de modelos fragmentados para ecossistemas integrados, baseados em tecnologia, dados e novas formas de distribuição. Se a ambição de dobrar de tamanho se concretizar, o movimento pode não apenas redefinir o papel da companhia, mas também influenciar o próprio desenho competitivo do mercado nos próximos anos.
Nicholas Godoy




