Existe um momento raro na vida de qualquer setor, que é aquele em que um mercado inteiro se cria do zero, com as cadeiras ainda vazias e as decisões estruturais todas em aberto. O mercado segurador brasileiro está vivendo esse momento agora, com a regulamentação do mutualismo.
O caminho até aqui é conhecido de quem acompanha o setor. Em maio, o Conselho Nacional de Seguros Privados publicou as Resoluções nº 491 e nº 492, que regulamentam a Lei Complementar nº 213, sancionada em janeiro de 2025, e trazem para dentro do Sistema Nacional de Seguros Privados dois modelos que operavam à margem dele: a proteção patrimonial mutualista e as cooperativas de seguros.
Pela nova regra, as associações mutualistas passam a contratar administradoras autorizadas pela Susep, responsáveis pela gestão técnica, operacional, financeira e contábil dos grupos. Em agosto, quando a autarquia encerrou o prazo de análise prioritária desses pedidos de autorização, havia 63 projetos apresentados, ou seja, 63 empresas que, em sua maioria, ainda estão desenhando neste momento o próprio conselho, a diretoria, a política de contratação e a régua de produto. Guardo esse número, porque é dele que trata este artigo, mas antes preciso explicar por que esse mercado importa tanto.
Como atuária, passei duas décadas modelando risco, e uma das primeiras coisas que a modelagem ensina é que ela só enxerga quem já está na base. Quem nunca entrou nela simplesmente não existe para o modelo, o que é bem diferente de estar mal precificado: essa população é invisível para a conta, e não há sofisticação técnica que resolva a ausência do dado.
O retrato da proteção no Brasil é exatamente esse. Levantamento da CNseg, feito com dados de seguradoras que representam cerca de 56% do mercado analisado, aponta que apenas 17% dos imóveis residenciais e 29% da frota nacional contam com seguro, enquanto a Susep estimava, em 2024, algo entre cinco e oito milhões de brasileiros atendidos por associações de proteção veicular. São pessoas que, em boa parte, não encontraram no seguro tradicional um produto que coubesse no orçamento delas ou que aceitasse o risco que elas representam, e que por isso buscaram proteção onde havia oferta.
Foi ocupando esse espaço que o mutualismo cresceu, levando cobertura para onde não existia alternativa, seja por região, seja por tipo de risco, e entrando justamente onde as seguradoras optaram por não estar. Podemos e devemos discutir a qualidade da governança com que isso foi feito, e a regulamentação existe precisamente para endereçar esse ponto, mas o mérito social do movimento é difícil de contestar. Para mim, o mutualismo é a maior porta de inclusão securitária que este país abriu em muito tempo.
O recorte que a Sou Segura acompanha há anos ajuda a qualificar quem é essa população descoberta, porque ela não é neutra em gênero. A 1ª Pesquisa FeMa Meter, publicada pela Susep com base consolidada até dezembro de 2024, mostrou que a participação feminina como contratante varia bastante entre produtos, chegando a 44,9% na previdência privada aberta e caindo para 13,4% nos seguros climáticos e rurais, enquanto o levantamento da CNseg registrou 42% de mulheres entre os consumidores de seguro de automóvel.
Quando um produto é desenhado sem considerar quem carrega a maior parte do trabalho de cuidado, quem tem renda média menor, quem vive mais tempo e quem depende do veículo como instrumento de trabalho, ele não chega a essas pessoas, e isso raramente acontece por má-fé: acontece porque elas não estavam na sala em que o produto foi desenhado.
É por isso que os 63 projetos em análise na Susep me parecem mais importantes do que a leitura puramente regulatória sugere. Essas administradoras terão de constituir conselhos, contratar diretorias técnicas, financeiras e de compliance, e decidir como distribuem, como se comunicam e para quem desenham seus produtos, e nada disso está pronto. Tudo será definido nos próximos meses, em decisões que hoje custam pouco e que, depois de tomadas, se tornam a estrutura com que o setor conviverá por décadas.
A comparação com o mercado consolidado explica o risco. A mesma pesquisa da Susep mostrou que as mulheres são 54,4% da força de trabalho do setor segurador, 28,5% da gestão executiva e apenas 18,5% dos conselhos de administração, um funil que ninguém desenhou de propósito e que se formou ao longo de décadas, uma decisão de cada vez. Corrigi-lo depois tem se mostrado lento e pouco eficaz, tanto que o próprio levantamento não encontrou associação significativa entre a existência de políticas de diversidade nas empresas e a presença feminina em cargos de gestão executiva. Em um mercado que nasce agora essa é uma vantagem que não se repete.
Por isso, há três pontos muito importantes que precisam ser considerados. Primeiro, as administradoras em processo de autorização devem analisar a composição de seus conselhos e diretorias com diversidade desde a primeira ata, como decisão de estrutura, tomada enquanto ainda é barata. O segundo é dirigido ao regulador, para que a informação produzida por esse novo mercado já nasça desagregada por gênero, porque a Susep provou com o FeMa Meter que sabe produzir inteligência de gênero no setor e seria uma perda começar um mercado inteiro sem esse recorte.
O terceiro se refere ao próprio setor tradicional, para que encare o mutualismo regulado como parceiro na expansão do mercado e não como concorrente incômodo, já que cada pessoa que entra em um grupo mutualista formalizado passa a ter uma relação com proteção financeira que muitas vezes nunca teve antes, e é assim, uma pessoa de cada vez, que se reduz a lacuna de proteção de um país.
A diversidade é um tema que mexe com lucro, com produtividade e com a capacidade de uma empresa de entender o próprio mercado consumidor. Aqui os dois lados dessa conta se encontram de forma quase literal, porque o mercado que está nascendo existe para atender exatamente quem ficou de fora, e seria uma ironia difícil de justificar se ele reproduzisse, na própria estrutura, os mesmos vazios de representação do mercado que deixou essas pessoas de fora. A janela para evitar isso está aberta neste momento e não vai ficar aberta por muito tempo, o que torna a conversa urgente.
*Por Camila Maximo, presidente da Sou Segura.







