Ultima atualização 17 de junho

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Copa do Mundo: o jogo muda, mas o Seguro Viagem não

EXCLUSIVO – Com a Copa do Mundo de 2026 em andamento e milhares de brasileiros viajando para acompanhar os jogos nos Estados Unidos, Canadá e México, cresce também a atenção ao seguro viagem diante dos custos elevados. Embora o produto não conte com uma cobertura específica para megaeventos como o torneio, a exposição dos viajantes a riscos operacionais e financeiros que muitas vezes passam despercebidos permanece.

Os indicadores de viagens ajudam a dimensionar esse cenário. Levantamento do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) aponta que os aeroportos brasileiros contam com 1.148 voos programados para os três países-sede durante os meses de junho e julho, sendo 1.036 operações para os Estados Unidos, 90 para o México e 44 para o Canadá.

Ao mesmo tempo, dados do Skyscanner mostram que a procura por destinos ligados ao Mundial também cresceu. As buscas por viagens para Filadélfia aumentaram 10%, enquanto Miami registrou alta de 14%, evidenciando que muitos brasileiros estão aproveitando a competição para montar roteiros que combinam futebol, lazer e turismo.

Nesse cenário, embora o seguro viagem não tenha uma cobertura específica para a Copa do Mundo, especialista ouvido pela Revista Apólice avalia que eventos dessa magnitude ampliam a exposição dos viajantes a riscos operacionais e financeiros que muitas vezes passam despercebidos. Para Renato Spadafora, fundador da Decole Assessoria em Seguro Viagem, o principal desafio continua sendo o custo da assistência médica na América do Norte. “Nos Estados Unidos, uma simples visita ao pronto-socorro pode custar cerca de US$ 5 mil. Poucos dias de internação podem rapidamente superar US$ 100 mil”, pontua.

Na análise do especialista, embora Canadá e México possuam características próprias em seus sistemas de saúde, o consumidor brasileiro deve observar principalmente os limites de cobertura médico-hospitalar contratados, já que os gastos para estrangeiros também podem ser elevados.

O período da Copa ainda adiciona um fator operacional importante: a concentração de turistas. “Além das altas temperaturas do verão no hemisfério norte, cidades muito cheias podem enfrentar dificuldades de disponibilidade de médicos ou leitos. Por isso, é fundamental contar com uma empresa de assistência especializada e com uma rede consolidada de atendimento”, observa.

Diferentemente do que muitos imaginam, o mercado não desenvolveu seguros específicos para a Copa do Mundo. Na prática, as apólices disponíveis continuam oferecendo as coberturas tradicionais, como assistência médica, extravio de bagagem, atraso de voos e proteção financeira para determinadas despesas não reembolsáveis.

Entretanto, algumas situações típicas de um megaevento esportivo podem ser contempladas dependendo do plano contratado. Renato explica que determinadas seguradoras oferecem coberturas para perdas financeiras decorrentes da interrupção da viagem, inclusive em casos que impeçam o viajante de usufruir do roteiro previamente planejado. “Algumas companhias chegam a oferecer coberturas para multas e retenções não reembolsáveis superiores a US$ 10 mil, além de prejuízos decorrentes da impossibilidade de aproveitar a viagem e até os ingressos caso seja necessário retornar antecipadamente ao Brasil”, relata.

Por outro lado, ele chama atenção para as ocorrências envolvendo bagagem, que continuam entre as maiores fontes de insatisfação dos consumidores. “O processo costuma exigir documentação das companhias aéreas e, muitas vezes, os valores de indenização ficam abaixo da expectativa do viajante”.

Na visão de Spadafora, um dos principais equívocos dos brasileiros é enxergar o seguro viagem apenas como uma proteção financeira. “O seguro viagem é, antes de tudo, um serviço de assistência. Mais importante do que o valor segurado é a capacidade de providenciar rapidamente atendimento médico, orientação e suporte em um país desconhecido”.

A comparação feita pelo especialista é simples: um seguro que apenas reembolsa despesas, sem garantir o socorro imediato, perde justamente a sua principal função em uma emergência.

Essa percepção também ajuda a explicar por que o mercado vem crescendo de forma consistente. Conforme destaca Renato, o segmento registra expansão superior a dois dígitos ao ano, impulsionado tanto pelo aumento das viagens internacionais quanto pela maior conscientização dos consumidores sobre os riscos de embarcar sem proteção.

Outro ponto frequentemente observado pelo mercado é a confiança excessiva dos viajantes nos benefícios oferecidos pelos cartões de crédito. Embora muitos produtos disponibilizem algum tipo de assistência internacional, o especialista alerta que essas coberturas costumam possuir regras próprias, exigências específicas e limitações operacionais.

Em alguns casos, por exemplo, o benefício só é válido quando toda a viagem foi adquirida com o próprio cartão ou exige que o cliente arque inicialmente com as despesas para solicitar reembolso posteriormente. “Viajar com uma empresa especializada e contando também com uma corretora preparada pode fazer toda a diferença justamente no momento em que o cliente mais precisa de orientação”, reforça.

Tendência é de maior profissionalização do mercado

O crescimento do turismo internacional e o aumento da demanda por proteção têm provocado uma evolução contínua do próprio mercado de seguro viagem. Para Renato, a combinação entre mais consumidores, maior utilização dos serviços e concorrência entre empresas vem impulsionando melhorias constantes nos produtos oferecidos.

Em um contexto de inflação médica global e custos hospitalares cada vez mais elevados, ele observa que as seguradoras também têm acompanhado esse movimento por meio da ampliação gradual dos limites de cobertura.

Na avaliação do especialista, no entanto, o principal diferencial do seguro viagem ainda é pouco compreendido pelos brasileiros. “O seguro viagem é, antes de ser um seguro, um serviço de fundamental ajuda na providência do socorro. Mais importante do que o montante da cobertura, o produto oferece um apoio integral na rápida providência do atendimento”, explica.

Para ilustrar essa visão, Renato faz uma analogia com a assistência veicular. “De que serviria um seguro de guincho que apenas reembolsasse os gastos? O mais importante é que o reboque chegue rapidamente. A mesma lógica vale para um desmaio na rua em um país desconhecido: de que adianta a cobertura se não houver o socorro propriamente dito e um eficiente canal de comunicação?”.

Nicholas Godoy

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