Ultima atualização 21 de outubro

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Setor de seguros supera custo de capital pela 1ª vez desde 2017

Relatório do BCG aponta retorno anualizado de 15% aos acionistas em cinco anos e mudança na preferência dos investidores; no Brasil, seguros de vida ganham espaço enquanto algumas linhas enfrentam maior pressão competitiva

EXCLUSIVO – O setor global de seguros registrou um retorno total anualizado ao acionista (TSR) de 15% nos últimos cinco anos, superando o custo de capital próprio das seguradoras pela primeira vez desde 2017. O resultado, apresentado no relatório The 2026 Insurance Value Creators Report: An Early Look at Returns, do Boston Consulting Group (BCG), reflete a recuperação da rentabilidade da indústria e sinaliza uma mudança na preferência dos investidores, com maior interesse por companhias de vida e saúde (L&H) e multilinhas.

O desempenho ocorre após um período de retornos mais modestos, marcado pelos efeitos da pandemia e por mudanças nas condições de mercado. Segundo Abel Colaço, sócio do BCG, a melhora resulta da combinação entre a recuperação dos resultados operacionais e o aumento das receitas financeiras das seguradoras.

No segmento de danos e responsabilidades (P&C), assim como no resseguro, as condições favoráveis de preços contribuíram para a rentabilidade acumulada. Já as companhias de vida e saúde e multilinhas foram beneficiadas pela maior receita de investimentos e por mudanças no comportamento dos consumidores após a pandemia.

Embora P&C ainda apresente o melhor desempenho no horizonte de cinco anos, os resultados mais recentes indicam uma mudança na dinâmica do setor. Em 2025, as seguradoras de L&H e multilinhas passaram a registrar retornos superiores, enquanto algumas carteiras de P&C começaram a apresentar sinais de moderação nos preços. “Ainda é cedo para afirmar que essa mudança de preferência dos investidores se aprofundará de forma duradoura”, pondera Abel.

O executivo explica que o movimento está relacionado tanto ao ambiente financeiro quanto às características dos diferentes negócios. Enquanto os seguros de vida são mais sensíveis às taxas de juros devido à duração dos compromissos assumidos, o segmento de saúde apresenta uma dinâmica própria. Ao mesmo tempo, o envelhecimento populacional e a maior conscientização sobre proteção financeira contribuem para sustentar a demanda.

No Brasil, parte dessas transformações já pode ser observada. De acordo com Colaço, o mercado segurador nacional apresentou melhora nos resultados, apoiada pela sustentação dos preços, pelo aumento da receita financeira e pela expansão dos seguros de vida, especialmente produtos resgatáveis e coberturas que podem ser utilizadas pelo segurado ainda em vida.

“O mercado brasileiro acompanhou, em alguma medida, as tendências globais. Observamos uma melhora considerável dos resultados, apoiada pela sustentação de preços, pela maior receita financeira e pelo crescimento das linhas de vida, especialmente de produtos resgatáveis e coberturas para utilização em vida”, afirma.

Para os próximos anos, a expectativa é de que o segmento de vida permaneça aquecido, inclusive com as discussões sobre o desenvolvimento de produtos de vida universal, modalidade que combina proteção securitária com características de acumulação financeira.

Em contrapartida, algumas linhas de P&C podem enfrentar maior concorrência. O cenário também apresenta desafios para produtos relacionados ao crédito, como os seguros prestamista e rural, que, segundo o executivo, podem continuar pressionados pelo ambiente de juros elevados.

Já os seguros corporativos apresentam oportunidades de expansão. A maior disponibilidade de capacidade de resseguro e o interesse de grandes participantes em diversificar suas carteiras podem favorecer o crescimento dessas operações e estimular movimentos de consolidação. “Já as linhas corporativas apresentam espaço para ampliar sua penetração, favorecidas pela maior disponibilidade de resseguro e pelo interesse de grandes participantes em diversificar seus portfólios e encontrar novas avenidas de crescimento. Nesse espaço, em particular, podemos assistir a movimentos de consolidação”, avalia Abel.

A perspectiva de um mercado mais competitivo representa um desafio para as seguradoras que se beneficiaram dos reajustes de preços nos últimos anos. Segundo o BCG, a moderação tarifária deve reduzir o espaço para sustentar a rentabilidade apenas por meio do aumento dos prêmios. Entre os segmentos mais expostos estão automóvel e imóveis comerciais, nos quais as companhias podem intensificar a concorrência para conquistar participação de mercado.

Nesse contexto, a capacidade de selecionar riscos, controlar despesas e administrar sinistros tende a ganhar importância na preservação das margens. “A manutenção de um TSR atrativo exigirá rigor na seleção técnica de riscos, gestão de sinistros e excelência operacional. As companhias capazes de combinar essas competências estarão mais bem posicionadas para preservar suas margens”, destaca o sócio do BCG.

A mudança também pode impulsionar fusões e aquisições (M&A). Conforme o executivo, operações desse tipo permitem ampliar escala, reduzir custos, diversificar riscos e fortalecer capacidades tecnológicas e comerciais. Entretanto, a capacidade de integração e a disponibilidade de capital serão determinantes para o sucesso dessas estratégias.

Longevidade impulsiona novos produtos

Enquanto parte do mercado de danos enfrenta um ambiente de maior competição, as perspectivas para os seguros de vida e saúde estão associadas a transformações demográficas e nas necessidades dos consumidores.

O envelhecimento da população amplia a demanda por soluções que ofereçam proteção financeira durante a vida, e não apenas indenização em caso de morte. Entre os produtos com potencial de crescimento estão coberturas para doenças graves e contratos que combinam diferentes garantias. “As coberturas tradicionais de falecimento passam a conviver com contratos que combinam diferentes formas de proteção. Ganham relevância produtos com garantias e benefícios em vida, como coberturas para diagnósticos de doenças graves”, explica Colaço.

Apesar das oportunidades, o executivo ressalta que a ampliação dessas garantias exige atenção ao consumo de capital e à sustentabilidade econômica dos produtos. Além disso, parte da melhora recente dos resultados de L&H está relacionada às receitas financeiras, o que impede atribuir toda a evolução da rentabilidade a fatores estruturais.

Além das mudanças no comportamento dos investidores, o relatório identifica a inteligência artificial como uma das principais forças de transformação operacional do setor segurador.

A evolução da IA generativa e dos agentes de inteligência artificial deve ampliar a capacidade de análise de dados e automatização de processos complexos, com aplicações em subscrição, regulação de sinistros, identificação de fraudes e atendimento. Abel Colaço analisa que essas ferramentas também podem elevar a produtividade de corretores e equipes comerciais, além de produzir ganhos em tecnologia da informação, atividades administrativas e gestão de pessoas. Entretanto, a adoção ocorre em diferentes níveis de maturidade entre as companhias. “O desafio é aplicar essas soluções em escala e repensar os processos para transformar seu potencial em resultados consistentes”, afirma.

Para os próximos três a cinco anos, o BCG identifica quatro pilares para a criação sustentável de valor: rigor técnico na subscrição, inovação no portfólio de vida e saúde, aplicação de inteligência artificial em escala e alocação dinâmica de capital.

Na avaliação do executivo, a combinação dessas estratégias será determinante para que as seguradoras consigam preservar a rentabilidade em um ambiente de maior competição, novas demandas de proteção e transformação tecnológica.

“Nos próximos anos, as seguradoras que conseguirem escalar essas capacidades estarão mais bem posicionadas para capturar ganhos de eficiência, fortalecer o crescimento e construir vantagens competitivas sustentáveis”, conclui o executivo. 

Nicholas Godoy

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