EXCLUSIVO – Intitulado Namu Vida, a plataforma lançada na noite da última quinta-feira (24) reflete uma nova fase da healthtech no mercado, com o intuito de oferecer um ecossistema que integre diferentes dimensões da saúde e bem-estar em uma mesma jornada completa, desde o nascimento até atual fase da vida de uma pessoa. O lançamento ocorreu durante o encontro “Além do Bem-Estar”, realizado no STATE Innovation Center, em São Paulo.
A plataforma integra informações relacionadas à genética, hábitos, alimentação, exames, medicamentos, vacinas e dados gerados por dispositivos conectados. A partir desse conjunto, a Namu pretende desenvolver uma visão longitudinal do usuário e utilizar tecnologia e inteligência artificial para apoiar a identificação de riscos, o acompanhamento da saúde e a personalização do cuidado.
Durante a apresentação, o CEO da empresa, Deuk Soo Yeo, relacionou o conceito da empresa à simbologia de uma árvore. Segundo ele, a árvore representa longevidade, equilíbrio e cuidado, além de servir como metáfora para uma estrutura que conecta diferentes dimensões da vida. “A nossa vida, como sabemos, por um lado é bastante breve. A gente vive 80, 90 anos e quando percebemos tudo passou num piscar de olhos. Ao mesmo tempo, estamos vivendo um momento bastante único na nossa história”, afirmou.
Para Deuk, o avanço da inteligência artificial também coloca em discussão o papel das pessoas em um cenário no qual máquinas poderão realizar um número crescente de atividades cognitivas e físicas. “Acredito que a IA possa ter muita inteligência, mas a inteligência não é o mesmo que a sabedoria. A inteligência encontra caminhos, mas a sabedoria mostra para onde faz sentido caminhar”, disse.

A partir dessa visão, o executivo apresentou o Namu Vida concretização de evolução. A plataforma pretende reunir dados atualmente dispersos e transformá-los em conhecimento aplicável ao cuidado. “Queremos transformar toda essa base em conhecimento e conhecimento em cuidado. A partir da integração e da sinergia desses dados, queremos construir uma inteligência capaz de antecipar risco, apoiar diagnóstico e indicar o melhor caminho para cada pessoa”, explicou.
Sete novas plataformas
A CMO da Namu, Glaucia Saffa, detalhou sobre as diferentes soluções que passam a integrar o ecossistema acompanhando todo o ciclo de vida daquele usuário. A estratégia, segundo a executiva, parte da compreensão de que longevidade não envolve apenas o aumento da expectativa de vida, mas também aspectos físicos, mentais, comportamentais e preventivos. A proposta é que os serviços compartilhem uma mesma camada de inteligência, permitindo que informações geradas em diferentes experiências sejam conectadas.
O Namu Nutri, por exemplo, foi apresentado como uma plataforma de inteligência nutricional que acompanha hábitos e comportamento alimentar para adaptar recomendações. Entre os recursos estão cardápios, bioimpedância, leitura de rótulos, lista de compras e acompanhamento da rotina. Já o Namu Treino combina informações sobre atividade física, sono, variabilidade da frequência cardíaca e estresse para adaptar os exercícios ao momento do usuário. A plataforma também utiliza recursos de reconhecimento de voz e câmera do celular para auxiliar na execução e no acompanhamento dos treinos.
Na área de saúde mental, o Namu Mente reúne avaliações de estado emocional, diário de humor, práticas relacionadas à terapia cognitivo-comportamental e acompanhamento do sono. A proposta é observar não apenas a qualidade do sono, mas sua relação com estresse, humor e comportamento. O Namu Livros amplia o ecossistema para o campo do conhecimento, com livros digitais e audiobooks de conteúdos curtos. Segundo a empresa, os materiais foram desenvolvidos para serem consumidos em períodos de aproximadamente 10 a 12 minutos.
Na saúde feminina, o Namu Mulher, por sua vez, acompanha aspectos relacionados à mulher ao longo de diferentes fases, incluindo ciclo menstrual, sintomas, contracepção, gestação, exames, hábitos, humor e menopausa. A plataforma Namu Beleza combina avaliação da pele e do cabelo com recomendações personalizadas e possibilidade de acompanhamento com profissionais de estética e dermatologia. O sistema também inclui recursos relacionados à compra e ao controle de estoque de produtos.
Por sua vez, o CTO da Namu, Thiago Monteiro, apresentou a visão da empresa sobre longevidade. Ele dividiu o conceito em três dimensões: lifespan, relacionada ao tempo de vida; healthspan, relacionada à qualidade e à capacidade física durante esses anos; e brainspan, relacionada à preservação das capacidades cognitivas.
O executivo questionou se o aumento da expectativa de vida necessariamente significa viver melhor. “Quando a gente olha para longevidade, as coisas foram avançando. A gente passou a quanto tempo você vive e depois foi avançando em quão bem você vive. Mas talvez a gente tenha perguntado pouco em relação ao quão bem você pensa enquanto vive”, afirmou. “O grande propósito de tecnologia é transformar informação sobre o corpo e a mente em anos de vida saudável”, completou.
O evento também contou com um talk-show mediado por Bella Pugliese, CEO da Ace Cortex, que reuniu Juliana Pereira, VP de Cliente da Amil e conselheira da Febraban; Gustavo Meirelles, VP e Chief Medical Officer da Afya; e Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios. A discussão partiu de uma questão central: como utilizar tecnologia e inovação para fazer com que as pessoas vivam mais e melhor.
Juliana Pereira destacou a dificuldade de transportar para a saúde conceitos de experiência do cliente utilizados em outros setores. Para ela, o cuidado em saúde possui características próprias e ainda enfrenta uma comunicação excessivamente associada à doença. “A saúde tem um diálogo muito pesado e sensível. Os dados são muito agressivos para se entender do ponto de vista do cliente”, comentou.

Gustavo Meirelles chamou atenção para outro desafio: o excesso de informação disponível, acompanhado pelo crescimento da desinformação. Para o executivo, a evolução da forma como as pessoas buscam informações sobre saúde, passando por profissionais, mecanismos de busca, redes sociais e, mais recentemente, inteligência artificial, exige maior capacidade de educação e orientação. “Sair do conceito de doença e começar a falar de saúde de fato, saúde e bem-estar”, aconselhou.
Meirelles também ponderou que a tecnologia, isoladamente, não resolve os problemas do setor. Segundo ele, educação e capacitação da população e dos profissionais são necessárias para que as ferramentas sejam utilizadas de maneira adequada.
Na sequência, Arthur Freitas abordou o papel da frequência no acompanhamento da saúde. Para ele, a tecnologia permite ampliar a distribuição de informações e criar mecanismos para que cada indivíduo acompanhe aspectos da própria rotina. O executivo também apontou a fragmentação como um dos obstáculos para uma abordagem mais integrada. Segundo Freitas, empresas ainda precisam avançar na compreensão dos impactos que diferentes fatores produzem sobre a saúde dos colaboradores.
Dados como infraestrutura
A programação também teve uma palestra de Jacson Barros, diretor da vertical Health da AWS, que concentrou sua apresentação nos desafios relacionados a dados e inteligência artificial na saúde. Barros destacou que a tecnologia disponível atualmente não eliminou problemas históricos do setor. Para ele, a transformação digital precisa estar associada a objetivos concretos, interoperabilidade e capacidade de transformar dados em decisões.
O primeiro ponto apresentado foi a necessidade de conectar dados. Barros simplificou o conceito de interoperabilidade como a possibilidade de compartilhar informações de maneira fluida, mas ressaltou que a troca de dados, por si só, não resolve um problema. Como exemplo, citou a diferença que o conhecimento sobre a trajetória de um paciente pode fazer na tomada de decisão médica. Segundo ele, olhar apenas para uma informação isolada não permite compreender a jornada completa daquela pessoa. “Se eu não conhecer um filme do paciente, só ter acesso à fotografia, sempre vou estar dando uma proposta terapêutica, uma orientação equivocada porque eu não tive acesso àquela jornada”, disse.
O segundo desafio apontado por Barros foi a confiabilidade dos dados. Ele relatou uma situação vivida durante a implantação de um sistema de gestão hospitalar, quando encontrou planilhas utilizadas paralelamente ao sistema porque os profissionais não confiavam nas informações registradas na plataforma. “Se eu não confio no dado, por que a IA vai confiar?”, questionou.
Para ele, padronização, qualidade e contextualização dos dados são condições para que sistemas de inteligência artificial possam produzir resultados úteis. O terceiro ponto foi transformar dados em decisão. Barros criticou a produção de informações que não são utilizadas posteriormente para orientar ações.
A inteligência artificial, na avaliação do executivo, pode ajudar a mudar esse cenário, desde que os dados estejam preparados para serem utilizados. “Ter dados não significa que eles estão prontos para ser usados. Então a minha mensagem para vocês: deixem os dados prontos. Invistam na contextualização da informação. Invistam na preparação do dado”, afirmou. “A IA mal começou. A tecnologia mal começou. A gente está falando de ChatGPT, amanhã vai ter outro nome. Só que o conhecimento, o julgamento e a responsabilidade continuam sendo nossos”, concluiu.
A discussão apresentada durante o evento convergiu, assim, para um ponto comum entre as diferentes apresentações: a tecnologia pode ampliar a capacidade de acompanhamento e personalização da saúde, mas depende de dados confiáveis, integração entre diferentes sistemas e, principalmente, de uma mudança na forma como o cuidado é pensado e oferecido.
Nicholas Godoy, de São Paulo







