O Clube Internacional de Seguros & Transportes (CIST) reuniu especialistas dos setores de seguros, transportes, logística, tecnologia e gestão de riscos no dia 16 de setembro, em São Paulo. Realizado no Auditório Sura, com participação presencial e transmissão pelos canais digitais da entidade, o Workshop abordou os desafios das operações com cargas a granel e as possibilidades de aplicação de dados e soluções digitais no seguro de transportes.
O primeiro painel, “Dispersão natural de granéis e seus impactos jurídicos, operacionais e securitários”, partiu de um estudo de caso envolvendo a importação de 10 mil toneladas de um produto a granel. A quantidade havia sido confirmada por draft survey no embarque, enquanto a pesagem terrestre registrou, após a descarga, 9.750 toneladas, indicando uma diferença de 2,5%.
O caso serviu de base para discutir se a diferença poderia ser considerada uma perda natural, em qual etapa teria ocorrido, quem responderia por ela e como o seguro reagiria ao evento.
Mediado por Denis Teixeira, vice-presidente Sênior de Transportes, Auto e Frota, Logística da Alper, o painel reuniu Paulo Cremoneze, advogado e sócio do escritório Machado & Cremoneze; Mauro Marcelo Shimada, especialista em vistoria e regulação de sinistros de transporte e operações de granel; Fulvio Balmant, Head de Insurance para América Latina e Caribe na BASF; e Ricardo Ortega, gerente de Seguros da Sura.
Ao apresentar o caso, Denis Teixeira destacou que uma aparente diferença de peso envolve questões técnicas, jurídicas, operacionais e securitárias. “Precisamos ter bastante entendimento do processo do início ao fim e trabalhar com empresas que efetivamente tenham conhecimento técnico e experiência”, afirmou.
Os especialistas explicaram que uma diferença quantitativa não pode ser automaticamente classificada como perda natural. A análise deve considerar as características da mercadoria, as condições de armazenamento e transporte, os equipamentos utilizados, os métodos de medição e todas as transferências de responsabilidade.
Mauro Marcelo Shimada ressaltou a necessidade de reconstruir a cadeia de custódia da carga. “A gente precisa entender todas as transferências e como chegou a essas 250 toneladas. É necessário compreender a divergência, mas também identificar efetivamente a causa”, disse.
Na perspectiva do embarcador, Fulvio Balmant destacou a importância de estabelecer previamente responsabilidades e procedimentos. “Os contratos precisam refletir o processo de gestão de riscos, deixando claras as responsabilidades entre as partes, o tipo de produto transportado e como ele deve ser trabalhado”, afirmou.
Paulo Cremoneze explicou que uma perda inicialmente considerada natural pode ser questionada caso existam provas de falha operacional. “Se for demonstrado que houve uma falha significativa, que o equipamento era ineficiente ou que não foram adotados os cuidados necessários, é possível desqualificar a perda como natural”, pontuou.
Ricardo Ortega chamou a atenção para as diferenças entre os métodos de aferição. Embora o draft survey e a pesagem em balança sejam reconhecidos, eles utilizam critérios distintos. “Estamos falando de dois métodos válidos, mas que não são comparáveis. Esse é o grande problema”, observou.
O debate mostrou que contratos claros, critérios de medição previamente definidos, registros de toda a cadeia e o rápido envolvimento do corretor de seguros, da seguradora e dos reguladores de sinistros são essenciais para apurar responsabilidades e reduzir conflitos.
Dados e soluções digitais
O segundo painel, “Soluções digitais para o transporte e gestão de riscos”, discutiu como os dados públicos podem apoiar a prevenção de fraudes documentais, a identificação de condutores, a consulta de informações sobre veículos e o desenvolvimento de indicadores para avaliação de riscos.
Mediado por Rene Ellis, diretor do CIST e advisor em gestão de riscos, o painel contou com Cida Hess, assessora da Presidência da Prodesp em Negócios Estratégicos; Antônio Carlos Cruz, assessor de Negócios Estratégicos da Presidência da Prodesp; e Eduardo Muniz, Head de Inovação da Prodesp.
Na abertura, Rene Ellis ressaltou o potencial das informações mantidas pelo poder público. “A Prodesp tem informações valiosíssimas e pouca gente da iniciativa privada sabe que elas estão à disposição. São dados importantes para a tomada de decisões”, afirmou.
Cida Hess destacou que a qualidade e a procedência das informações são fundamentais para a gestão de riscos. “Temos a capacidade de prover dados com credibilidade. É importante saber a origem da informação, ter rastreabilidade, metodologia, certificação e tempo de resposta”, disse.
Eduardo Muniz explicou que dados originalmente estruturados para atender às políticas públicas também podem apoiar diferentes atividades econômicas. Entre as informações disponíveis estão dados de trânsito, veículos e condutores. “A Prodesp não vende dados. A API realiza uma consulta e devolve uma informação. O que facilitamos é a construção de produtos para que cheguem ao mercado de forma mais consistente”, esclareceu.
As aplicações voltadas ao combate à fraude possuem respaldo legal específico. Para outras finalidades, o tratamento das informações pode depender do consentimento do titular e da participação dos órgãos responsáveis pelas respectivas bases, em conformidade com a legislação.
Antônio Carlos Cruz relacionou a utilização de dados confiáveis à redução dos custos gerados pelos riscos e pelas fraudes. “Seja em uma operação de crédito, na jornada de um veículo ou no início de uma operação de seguro, essa jornada precisa nascer de forma verdadeira. É necessário identificar se quem está iniciando a operação é, de fato, quem está se apresentando”, afirmou.
O painel também discutiu a possibilidade de criação de um “motorista positivo”, reunindo, mediante as autorizações necessárias, informações oficiais e dados de telemetria. A iniciativa poderia apoiar a avaliação de riscos, a prevenção de acidentes e o desenvolvimento de ações de treinamento, reconhecimento e retenção de bons profissionais.
Os representantes da Prodesp destacaram que novas soluções podem ser construídas em colaboração com o setor privado, inclusive para integrar informações sobre rodovias, veículos, cargas perigosas e áreas vulneráveis. “Tragam a necessidade e podemos trabalhar de forma conjunta para construir uma API que atenda a um problema de negócio”, afirmou Muniz.
Além da programação técnica, o Workshop teve ingresso social, com arrecadação de alimentos destinados ao Centro Espírita União Fraterna. Ao final, o CIST anunciou a preparação de uma visita técnica à Prodesp, prevista para outubro.
Com o encontro, a entidade reforçou sua proposta de promover conhecimento, relacionamento e troca de experiências entre os diferentes profissionais que integram as cadeias de seguros, transportes, logística e gestão de riscos.







