EXCLUSIVO – A FM Seguros se prepara para iniciar uma nova etapa de sua história no Brasil. Presente no País há cerca de 40 anos e com atuação como resseguradora admitida desde o fim dos anos 2000, a companhia pretende começar a operar como seguradora em 2027. O foco inicial será o segmento de property para grandes riscos corporativos, área em que o grupo concentra sua atuação global. Neste segmento ela já atua com os planos globais de seguros de empresas multinacionais.
“O Brasil é um território importante para a companhia há bastante tempo”, afirma Daniel Mazzi, vice-presidente da FM. Segundo o executivo, entre os mercados relevantes nos quais a FM ainda não possuía licença própria para operar como seguradora, o Brasil ocupava posição de destaque, atrás apenas da China. A licença permitirá à companhia ganhar autonomia na operação e aprofundar o relacionamento com corretores e segurados, sem abandonar as parcerias construídas ao longo dos anos.
A estratégia inicial já está definida, uma vez que a empresa não irá atuar no varejo. O alvo são grandes empresas e operações complexas. “Nosso foco é property de grandes riscos, clientes multinacionais, bem específicos”, explica Mazzi.
A companhia observa diferentes setores da economia, mas mantém a especialização que caracteriza sua operação internacional. Em um segundo momento, poderá avaliar a ampliação da atuação para empresas de menor porte dentro do universo corporativo. Nos Estados Unidos, segundo Mazzi, a FM vem desenvolvendo soluções destinadas ao middle e upper middle market. Ele avalia que esse segmento também pode oferecer oportunidades no Brasil, mas deixa claro que não faz parte da primeira etapa da operação.
Mais do que a emissão de uma apólice, a estratégia está baseada em um modelo no qual engenharia e prevenção de perdas fazem parte da relação com o segurado. Não por acaso, Mazzi iniciou sua trajetória na própria FM justamente na área. Engenheiro químico, passou os primeiros seis anos na área antes de migrar para subscrição e, posteriormente, para posições de gestão.
Mesmo com a constituição da seguradora, a engenharia deverá continuar como a maior equipe da operação. É a partir desse trabalho técnico que a companhia busca conhecer os processos dos clientes, identificar vulnerabilidades e orientar medidas para reduzir a exposição aos riscos. O objetivo é evitar que o seguro seja visto apenas como mecanismo de indenização depois que o prejuízo já aconteceu. “Você ajuda o cliente no que mais importa para ele, que é manter a operação de forma contínua”, enfatiza Mazzi.
Um grande sinistro pode produzir efeitos que ultrapassam os danos materiais cobertos pela apólice. Uma fábrica parada, por exemplo, pode perder mercado para concorrentes durante o período necessário para reconstrução ou retomada da produção. Há ainda possíveis impactos sobre reputação, clientes e cadeia de fornecimento. É nesse espaço que a companhia pretende reforçar sua proposta de valor. “Nosso trabalho é justamente tentar ser um aliado estratégico nessa gestão de risco e apoiar a empresa para difundir uma cultura de prevenção dentro da organização”, pondera.
Para grandes grupos com operações internacionais, esse trabalho também precisa ultrapassar fronteiras. A estrutura global permite acompanhar instalações de um mesmo cliente em diferentes países, com equipes locais realizando visitas e apoiando a implementação de práticas de prevenção. A relação, por isso, tende a ser construída no longo prazo.
Tecnologia ajuda a antecipar o risco
A tecnologia ganhou espaço nesse processo, especialmente na análise de eventos climáticos. A FM utiliza mapas de inundação e outras ferramentas de modelagem, algumas desenvolvidas internamente e outras provenientes de fontes externas, para realizar análises preliminares de forma remota. Isso permite que engenheiros e subscritores cheguem a uma avaliação com mais informações sobre a exposição de determinada instalação. A visita presencial, entretanto, continua fazendo parte do processo.
“Nenhuma tecnologia substitui ainda uma avaliação em campo. Ela é complementar”, ressalta o executivo. Para ele, uma análise local permite identificar características que os modelos não necessariamente conseguem capturar, como diferenças de elevação do terreno, acessos a edifícios e possíveis caminhos da água em uma inundação. A tecnologia ajuda a fazer uma primeira leitura e, principalmente, a direcionar a atenção dos especialistas para os pontos que exigem uma investigação mais detalhada.
O avanço das ferramentas também permite olhar além do risco atual. A companhia cruza informações de seus clientes com projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para avaliar como determinadas localidades podem estar expostas em horizontes como 2030 e 2050. “Você tem o mapa que mostra o risco atual, mas qual vai ser o seu risco futuro, em 2030 ou 2050?”, questiona Mazzi. A partir desses dados, a companhia busca mostrar aos clientes o que pode acontecer com instalações que já ocupam e apoiar decisões sobre novas operações.
Esse tipo de informação começa a entrar inclusive nas decisões de expansão. Mazzi cita o caso de um cliente que estudava instalar uma operação em outro país e buscou informações sobre os riscos da região antes de definir cidade e terreno. A lógica é simples: prevenir durante o planejamento tende a ser menos complexo e menos caro do que adaptar uma instalação depois de pronta.
O mesmo raciocínio vale para instalações existentes. Em áreas sujeitas a ventos fortes, por exemplo, a avaliação pode envolver desde a condição dos telhados até a capacidade da estrutura de suportar determinadas cargas. Dependendo do diagnóstico, a solução pode exigir uma intervenção relativamente simples ou uma mudança estrutural de custo elevado.
Kelly Lubiato







