Dias atrás, ouvi um corretor comentar sobre o futuro da nossa profissão diante do avanço da inteligência artificial. Para ele, o corretor nunca vai desaparecer porque o cliente sempre preferirá o atendimento humano, a conversa direta e a confiança construída na relação.
Concordei de imediato. Quem atua no mercado de seguros vivencia isso diariamente: muitas vezes o cliente não quer apenas um orçamento na tela. Ele quer saber se determinada seguradora é confiável, se aquela franquia vale a pena ou simplesmente nos confronta com uma pergunta direta: “Jônatas, o que você faria no meu lugar?”.
No entanto, uma reflexão ficou me incomodando. O cliente de hoje valoriza esse contato humano. Mas e o cliente de daqui a 15 ou 20 anos?
Confesso que penso muito no futuro. Como pai do Davi e do Teodoro, passei a reparar ainda mais nas transformações do mundo em que eles vão crescer, não só na tecnologia, mas no consumo, no trabalho e na própria gestão financeira. Aos 35 anos, meu planejamento envolve construir, no ciclo dos próximos 15 anos, uma estrutura financeira que me garanta autonomia por volta dos 50. Não para parar de trabalhar, pois gosto do que faço, mas pela liberdade de decidir o ritmo da minha rotina.
Talvez por isso o debate sobre a IA me chame tanto a atenção. Quando dizem que o corretor continuará firme porque as pessoas gostam de falar com pessoas, minha reação inicial é concordar é o que presencio na minha corretora hoje. Mas, ao olhar para os meus filhos, percebo que eles não pertencem ao mesmo mundo em que fui criado.
Para a geração deles, interagir com uma IA será tão trivial quanto é para nós enviar um texto pelo WhatsApp. Eles não precisarão passar por um processo de adaptação na vida adulta; a tecnologia já estará incorporada ao seu cotidiano desde a infância.
Quando o Davi e o Teodoro tiverem 30 anos e precisarem segurar um veículo, será que vão procurar um corretor, enviar documentos, aguardar cotações e analisar propostas manualmente? Ou simplesmente dirão para seu assistente virtual: “Analise meu perfil, compare as opções do mercado e contrate a melhor alternativa”?
Não tenho essa resposta. E é justamente por não tê-la que considero arriscado desenhar o futuro da nossa profissão assumindo que o comportamento do consumidor continuará estático.
No curto prazo, aliás, enxergo a IA muito mais como aliada do que como ameaça.
Quem vivencia a rotina de uma corretora conhece bem o peso do trabalho operacional: cotações, comparações de apólices, elaboração de propostas, conferências, acompanhamento de renovações e o envio de lembretes. Na minha corretora, estou buscando justamente automatizar esse fluxo. O raciocínio é objetivo: se a tecnologia absorve a burocracia, sobra tempo para o que realmente exige a minha presença para prospectar, negociar, analisar riscos específicos e demonstrar por que o caminho aparentemente mais barato pode ser uma armadilha.
Em curto e médio prazo, o corretor que souber operar com IA não será substituído por ela; ele simplesmente atenderá o dobro ou o triplo de clientes em relação àquele que insistir em métodos exclusivamente manuais. A minha aposta atual é usá-la para ganhar produtividade e expandir a carteira, sem abrir mão do relacionamento.
O ponto de virada está na próxima geração. Nós aprendemos a nos adaptar gradualmente às transformações digitais. Antes, íamos à agência bancária; depois, migramos para o computador; em seguida, para os aplicativos no celular. Agora, entramos na era da linguagem natural, onde basta dizer o que queremos que o sistema execute.
Os meus filhos não passarão por esse processo de transição: eles já nascem inseridos nessa dinâmica. Isso não significa que rejeitarão o contato humano, mas sim que terão baixíssima tolerância para processos lentos quando não enxergarem um valor claro nessa intermediação.
Se um sistema inteligente for capaz de mapear o perfil do cliente, pesquisar seguradoras, comparar franquias e entregar a contratação em segundos, sustentar que “o cliente sempre prefere falar com o corretor” passa a ser uma aposta perigosa. Ele até pode querer falar conosco, mas teremos que oferecer razões muito mais sólidas para isso.
Acredito que atividades estritamente mecânicas, como gerar cotações e disparar propostas, perderão o valor comercial. O diferencial estará na consultoria técnica e na relação de confiança.
O cliente do futuro poderá chegar até nós com cinco opções levantadas pela própria IA e fazer a mesma pergunta de hoje: “Qual delas você faria?”. É nesse momento que a experiência de mercado se sobressai. Nem sempre a proposta mais em conta atende a necessidade real do cliente, e pequenos detalhes de cobertura, imperceptíveis para quem compra seguro de vez em quando fazem toda a diferença na hora do sinistro.
O papel do corretor migrará definitivamente da figura do intermediário para a do consultor de riscos. A tecnologia levanta as variáveis; o profissional orienta a decisão.
Enxergo os próximos anos como uma janela estratégica. Quero chegar ao meu horizonte de 15 anos com uma carteira consolidada, uma operação enxuta e a eficiência que a tecnologia proporciona hoje. Uma carteira de seguros não se resume a apólices avulsas; é uma rede de relacionamentos de longo prazo. O cliente que entra pelo seguro auto é o mesmo que, no futuro, contrata proteção residencial, vida, empresarial ou indica novos contatos.
Minha diretriz é clara: utilizar a tecnologia para crescer enquanto o fator humano ainda é um diferencial decisivo e, paralelamente, preparar a operação para um modelo de consumo em rápida evolução.
Não descarto nem mesmo cenários em que as IAs dos clientes negociem diretamente com os sistemas das seguradoras, automatizando cotações e renovações com mínima intervenção humana. Se esse nível de automação se concretizar, nosso papel exigirá uma entrega ainda mais qualificada em gestão de riscos e aconselhamento financeiro.
Em vez de me prender à pergunta “a IA vai acabar com o corretor?”, prefiro focar em questões mais práticas: como posso usá-la para melhorar meu atendimento hoje? Qual ganho de escala minha corretora terá ao automatizar processos? E o mais importante: quando qualquer pessoa puder cotar um seguro em segundos, qual será o motivo real para ela ainda querer falar comigo?
Não pretendo disputar velocidade com um algoritmo. Prefiro dominar a ferramenta para aprimorar aquilo que só a experiência humana consegue entregar. É aí que reside o futuro da nossa profissão.
Jônatas Freire Alves é advogado e corretor de seguros, sócio da Inove Insurance Corretora de Seguros e Assessoria Jurídica, em Fortaleza (CE).







