Participar da Artemis London 2026, uma das principais conferências globais dedicadas a catastrophe bonds e insurance-linked securities (ILS), ao lado de gestores, investidores, resseguradores e estruturadores, reforçou para mim uma percepção sobre o momento que o setor atravessa: o mercado tem capital e demanda para continuar crescendo, mas essa expansão precisará acontecer com disciplina.
O segmento de cat bonds vem de uma temporada de emissões recordes e forte entrada de recursos. Somente no primeiro semestre de 2026, as emissões chegaram a quase US$ 18 bilhões, o maior volume já registrado para o período. Enquanto o mercado em circulação alcançou aproximadamente US$ 65,6 bilhões ao final de junho.
Ao mesmo tempo, a maior liquidez começa a pressionar preços e spreads, criando uma questão importante para investidores e gestores: como preservar a disciplina técnica e estrutural conquistada nos últimos anos enquanto se amplia o universo de produtos e riscos disponíveis ao capital alternativo?
Este capital alternativo pode desempenhar um papel nesse processo, especialmente quando as exposições podem ser claramente identificadas, modeladas e estruturadas. Porém, também exige separar adequadamente diferentes componentes de risco, físico, cibernético, operacional, entre outros, para evitar que um instrumento aparentemente diversificador carregue correlações que não foram devidamente compreendidas.
Esse ponto leva a uma das principais conclusões que trouxe de Londres: a novidade, por si só, não significa diversificação.
Para que um novo produto ou risco seja relevante para um portfólio de ILS, ele precisa oferecer contribuição marginal de diversificação e retorno ajustado, apoiado por modelos, dados e estruturas que permitam ao investidor compreender e precificar a exposição.
O Brasil também pode fazer parte dessa expansão
E essa discussão é particularmente relevante para o Brasil. O desenvolvimento das Letras de Risco de Seguro (LRS) cria uma infraestrutura doméstica para aproximar o mercado segurador e ressegurador do capital institucional e abre a possibilidade de estruturar riscos que historicamente permaneceram sem cobertura ou concentrados nos balanços tradicionais.
O Brasil possui um conjunto bastante diverso de exposições: eventos hidrológicos, agricultura, seca, infraestrutura e outros riscos climáticos e catastróficos com características distintas das exposições que hoje concentram grande parte do mercado global de ILS.
Isso não significa que todo risco seja automaticamente adequado à securitização. Pelo contrário, para atrair capital de forma sustentável, será necessário desenvolver dados históricos, modelos de perda, estruturas transparentes e gatilhos capazes de reduzir o basis risk e permitir uma avaliação clara da exposição.
Mas é justamente aí que vejo oportunidade. À medida que essa infraestrutura amadurece, o país pode contribuir para ampliar o universo de riscos disponíveis ao capital de ILS.
E quais serão os próximos perils?
A discussão sobre diversificação também precisa ir além dos riscos naturais. Riscos cibernéticos, infraestrutura digital e outros emergentes já começam a ampliar as fronteiras do mercado. E acredito que, no futuro, riscos biológicos e pandêmicos também podem fazer parte dessa discussão.
A pandemia de Covid-19 demonstrou a dimensão sistêmica do risco biológico e, antes dela, o mercado já havia experimentado estruturas de transferência de risco pandêmico para o mercado de capitais. A experiência mostrou tanto o potencial desses instrumentos quanto a dificuldade de desenhar gatilhos capazes de representar adequadamente a evolução de uma emergência biológica.
Hoje temos acesso a uma quantidade muito maior de sinais epidemiológicos, ambientais, biológicos, de mobilidade e exposição. O desafio é transformar esses sinais em métricas que tenham significado financeiro.
Para que o risco biológico possa se tornar uma categoria mais ampla de risco transferível, será necessário avançar na capacidade de mensurar exposição, modelar cenários de perda e desenvolver índices e gatilhos transparentes, testáveis e suficientemente correlacionados às perdas que pretendem representar.
É um problema semelhante ao enfrentado por outras categorias ao longo da evolução do mercado – antes de transferir um risco, precisamos ser capazes de medi-lo e precificá-lo.
A próxima fase dos ILS
Saí da Artemis London 2026 com uma visão otimista sobre o futuro do setor. O mercado de ILS se consolidou como uma fonte relevante de capacidade para seguros e resseguros, porém, sua próxima fase não será determinada apenas pela quantidade de capital disponível.
O crescimento sustentável dependerá da capacidade de preservar disciplina e transparência enquanto ampliamos o conjunto de riscos que esse capital consegue absorver.
A próxima fronteira dos ILS não é apenas ter mais capital. É tornar mais riscos mensuráveis, precificáveis e transferíveis.
*Mirelle Pereira é engenheira sanitarista, epidemiologista e fundadora da Santé.







