EXCLUSIVO – O Brasil envelhece mais rápido do que o mercado segurador consegue se adaptar, pois enquanto a população acima dos 50 anos concentra patrimônio, renda e decisões financeiras familiares, boa parte desse público ainda percebe o seguro como um produto distante, excessivamente técnico e pouco conectado às suas necessidades reais. Em um cenário de aumento da expectativa de vida e transformação do perfil de consumo da população madura, o setor começa a enfrentar um desafio que vai além da distribuição de produtos: reposicionar o seguro dentro da agenda da longevidade.
A discussão ganha força em um momento em que a chamada economia prateada domina como uma das principais forças de consumo do país, além de ser uma nova realidade populacional. Hoje, consumidores maduros movimentam cerca de R$ 1,8 trilhão no Brasil, representando aproximadamente 24% do consumo privado nacional. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que o mercado segurador ainda opera, em muitos casos, com produtos padronizados, comunicação genérica e pouca segmentação voltada às diferentes fases do envelhecimento.

Para Marcos Ferreira, especialista em longevidade, pós-carreira e mercado de seguros, existe um descompasso entre a velocidade de envelhecimento da população e a forma como o setor ainda estrutura suas soluções. Segundo ele, embora as seguradoras tenham evoluído na simplificação de jornadas e desenvolvimento de produtos, ainda existe dificuldade em compreender as diferenças de comportamento dentro do próprio público maduro.
“O que funciona para uma pessoa de 50 anos é diferente do que pode funcionar para alguém de 60, 70 ou 80 anos. O que percebo ainda é uma oferta adaptada de produtos de prateleira, sem a segmentação e personalização adequadas para a população madura”, afirma.
A distância entre o setor e o público 50+ não está apenas nos produtos, mas também na forma como o seguro ainda é comunicado. Historicamente marcado por linguagem técnica, excesso de regulamentação e foco operacional, o mercado segurador ainda enfrenta dificuldades para transformar proteção financeira em algo tangível, cotidiano e conectado à experiência de vida dos consumidores maduros.
Na avaliação de Marcos, um dos principais erros do setor está justamente na forma como parte das companhias ainda enxerga esse consumidor. “O setor vem evoluindo no sentido de vencer a comunicação excessivamente técnica ou regulamentada, mas ainda existem estereótipos importantes. Muitas vezes se ignora que o público 50+ é digital, conectado e utiliza tecnologia no dia a dia”, explica.
A falta de representatividade também aparece como um fator relevante nesse distanciamento. Pesquisas indicam que consumidores maduros ainda sentem ausência de produtos, serviços e campanhas efetivamente pensadas para suas necessidades e estilo de vida. “No estudo Tsunami Latam, 55% das pessoas acima de 50 anos afirmam sentir falta de produtos, serviços e comunicações desenvolvidas para elas. Esse é um público exigente, que valoriza transparência, clareza e argumentos racionais”, levanta o especialista.
Economia prateada expõe potencial
Apesar da dificuldade de conexão, o mercado já reconhece o peso econômico desse segmento. O envelhecimento da população brasileira vem alterando progressivamente a distribuição de renda, patrimônio e capacidade de consumo, concentrando ativos financeiros justamente entre consumidores mais maduros. “Estamos falando de um segmento que já movimenta R$ 1,8 trilhão no Brasil e representa cerca de 24% do consumo privado. Esse valor deve dobrar nos próximos anos”, explica.
Na visão de Marcos, o mercado financeiro já compreende que a maior parte da poupança e dos ativos está concentrada em pessoas acima de 55 ou 60 anos. Ainda assim, o setor segurador continua subexplorando parte desse potencial, especialmente ao insistir em modelos padronizados de oferta.
Mais do que uma mudança demográfica, o envelhecimento populacional também vem alterando a própria lógica de consumo de proteção financeira, pois a grande transformação da longevidade atual não está apenas em viver mais, mas em como viver melhor durante essas décadas adicionais. “Estamos vivendo uma revolução da longevidade. O grande desafio deixou de ser apenas aumentar a expectativa de vida e passou a ser garantir qualidade nesses anos adicionais”, destaca.
Na prática, isso significa que consumidores maduros passaram a buscar previsibilidade financeira, autonomia e planejamento de longo prazo para sustentar duas ou até três décadas adicionais de vida ativa. Nesse cenário, o seguro deixa de ocupar apenas um papel ligado à indenização ou proteção contra morte e passa a integrar discussões mais amplas sobre qualidade de vida, saúde, pós-carreira, independência financeira e gestão patrimonial.
Segundo o estudo da Hype60+, ainda existe uma diferença relevante entre o que as seguradoras oferecem e o que esse público efetivamente procura em termos de assistência, proteção e serviços. “Cerca de 45% dos maduros sentem que os produtos ainda não são desenvolvidos pensando em suas necessidades. O setor precisa entender melhor o comportamento de compra desse consumidor e se antecipar com soluções preventivas e de melhora da qualidade de vida”, afirma.
Digitalização aproxima, mas também pode afastar
A transformação digital também passou a ocupar papel central nessa relação entre seguradoras e consumidores maduros. Embora parte do mercado ainda associe envelhecimento a baixa familiaridade tecnológica, o comportamento do público 50+ mostra um cenário mais complexo.
Segundo Marcos Ferreira, a tecnologia pode tanto aproximar quanto afastar consumidores maduros, dependendo da forma como é aplicada. “A digitalização pode oferecer jornadas mais simples e convenientes, mas também pode criar excesso de etapas, telas e processos complexos. O consumidor maduro valoriza simplicidade e fluidez”, explica.
Dados do 1º Anuário Mosaic Insights, da Serasa Experian, mostram que cerca de 64% dos consumidores maduros de alta renda possuem presença digital ativa. Para o especialista, o problema não está na tecnologia em si, mas na falta de adaptação da experiência digital ao perfil desse público.
Nesse ambiente, startups e insurtechs passaram a ganhar espaço ao simplificar linguagem, jornada e contratação de seguros, especialmente em nichos ligados à longevidade e prevenção. Marcos Ferreira pontua que empresas mais novas conseguem avançar com maior velocidade justamente por nascerem sem os legados tecnológicos e culturais das grandes companhias tradicionais. “As startups têm vantagem de agilidade porque surgem focadas em resolver dores específicas sem carregar estruturas antigas. Hoje vemos soluções ligadas à prevenção de quedas, monitoramento remoto e gestão de doenças crônicas sendo desenvolvidas com velocidade muito maior”, pontua. Apesar disso, ele acredita que o mercado ainda tende a buscar equilíbrio entre inovação e confiança institucional. “O público maduro valoriza muito a solidez e reputação de uma marca. O ideal é um mix entre a confiança das seguradoras tradicionais e a capacidade de inovação das insurtechs” complementa.
Em meio a essa transformação, o papel do corretor também tende a mudar.O envelhecimento da população deve ampliar ainda mais a relevância da consultoria personalizada e da construção de relacionamento de confiança.
Na avaliação do especialista, consumidores maduros tomam decisões menos impulsivas e valorizam reputação, proximidade e compreensão das diferentes fases da vida financeira. Nesse contexto, a tecnologia tende a funcionar como complemento, mas não substitui completamente a construção de vínculo humano. “O público maduro valoriza confiança e relacionamento. Um profissional que compreenda ciclos de vida, pós-carreira e planejamento financeiro possui um diferencial que a tecnologia sozinha não substitui”, comenta.
Olhando para o futuro, Marcos Ferreira firma os próximos anos devem acelerar uma transformação mais ampla no próprio conceito de seguro. Em vez de atuar apenas como mecanismo de indenização, o setor tende a se aproximar de um modelo mais multidimensional, conectado à prevenção, qualidade de vida, assistência contínua e organização patrimonial.
Na avaliação, os produtos mais relevantes dentro da agenda da longevidade serão justamente aqueles ligados à proteção da vida humana, como saúde, vida, previdência e soluções residenciais, mas combinados a serviços preventivos e iniciativas voltadas à manutenção da autonomia e da capacidade cognitiva.
“Vejo grande potencial em soluções voltadas à melhora da qualidade de vida, prevenção de doenças crônicas, manutenção da interação social e renovação de conhecimento. As apólices serão os meios para entregar essas soluções”, conclui.
Mais do que adaptar produtos, o desafio do setor segurador passa a envolver uma mudança mais profunda de linguagem, posicionamento e compreensão sobre envelhecimento. Em um país que envelhece rapidamente, o seguro começa a deixar de ser apenas proteção financeira para assumir um papel cada vez mais ligado à autonomia, previsibilidade e construção de uma longevidade mais ativa.
Nicholas Godoy





