O avanço do número de empresas em recuperação judicial no Brasil deixou de ser um dado estatístico para se tornar um fator concreto de preocupação para o mercado segurador, em especial para o seguro garantia. Fundamental para viabilizar contratos, destravar investimentos e conferir segurança jurídica às relações comerciais, o instrumento passa a ocupar o centro das atenções em um cenário de maior estresse financeiro. A situação traz preocupação e acende o alerta no mercado.
Os números recentes reforçam essa percepção. Dados da Serasa Experian indicam que o volume de recuperações judiciais nunca esteve tão elevado no país. Foram 977 processos iniciados no último ano, o maior patamar desde 2016, em um ambiente marcado por crédito mais restrito, custo financeiro elevado e aumento da inadimplência. Como resultado, o Brasil atingiu a marca histórica de 2.466 empresas em recuperação judicial, crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Os segmentos de agro e serviços lideram os pedidos, refletindo tanto as oscilações de mercado quanto desafios estruturais enfrentados por essas atividades.
Esse contexto impõe uma série de desafios ao seguro garantia. Em situações de recuperação judicial, cresce o risco de inadimplemento contratual, o que pode levar ao acionamento das apólices e à materialização de sinistros relevantes. Além disso, há preocupações quanto a eventuais bloqueios judiciais, disputas sobre a execução de garantias e a própria previsibilidade das decisões judiciais, elemento essencial para a adequada precificação de risco.
Para tornar a situação ainda mais complexa, o efeito pode se espalhar em cadeia, atingindo não apenas as empresas diretamente envolvidas na recuperação judicial, mas também fornecedores, parceiros comerciais e instituições financeiras, ampliando a complexidade das exposições assumidas por seguradoras e resseguradoras, tanto no Brasil quanto no exterior.
Outro ponto de atenção é a crescente dificuldade na análise de crédito. Em um ambiente econômico volátil, combinado a incertezas jurídicas que se intensificam a cada novo caso de grande repercussão, a tomada de decisão é ainda mais desafiadora e exige maior rigor técnico. A avaliação de risco precisa considerar não apenas indicadores financeiros tradicionais, mas também aspectos como governança, estrutura de capital, resiliência operacional e, principalmente, o ambiente regulatório e judicial ao qual a empresa está submetida.
Curiosamente, o movimento brasileiro ocorre na contramão do cenário global, onde os pedidos de falência apresentaram queda de 19% no acumulado de 2025. Essa divergência reforça a necessidade de uma análise local aprofundada e de estratégias específicas para o mercado nacional, que apresenta dinâmicas próprias e maior sensibilidade a fatores como custo de crédito e insegurança jurídica.
Diante desse panorama, o seguro garantia consolida seu papel como ferramenta indispensável para a manutenção da atividade econômica e demanda evolução constante. O momento exige aprimoramento nos modelos de subscrição, maior integração com resseguradores e diálogo entre mercado, reguladores e Judiciário para garantir maior previsibilidade e segurança jurídica. Mais do que nunca, é fundamental equilibrar a função de viabilizar negócios com a responsabilidade de preservar a solidez do sistema segurador.
Portanto, o aumento das recuperações judiciais não deve ser visto apenas como um sinal de alerta, mas como um chamado à ação. Para o setor de seguros, o momento é um teste relevante de resiliência, capacidade técnica e adaptação a cenários turbulentos. Esses atributos serão determinantes para sustentar o crescimento do mercado em um ambiente cada vez mais dinâmico e desafiador, que muda constantemente e exige rápida adaptação.
Por Marcos Vinicius Pereira, diretor Comercial, de Marketing e Atendimento da Newe Seguros.




