EXCLUSIVA – Mestre Paulinho da Viola lançou Dança da solidão em 1972. Um clássico da música popular brasileira. Parte da letra do extraordinário samba diz assim: “Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado, quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”. É por aí. A maioria das pessoas vive em um “ponto cego” entre passado, presente e futuro. O impacto dessa incerteza não somente na vida, mas também no planejamento financeiro pessoal é mais certo que “dois e dois igual a quatro”. “É batata!”, como diziam nossos avós. Temos pavor da morte, mas muitos ignoram o risco mais provável e mais longo, ou seja, o de justamente não morrer e ficar sem poder trabalhar e tocar a vida adiante. “Esquecemos o passado”, como alerta sabiamente o samba do Paulinho da Viola. Mas esquecemos também de “preparar” o futuro.
No Brasil, os dados oficiais mostram que a incapacidade para o trabalho é um fenômeno (muito preocupante, diga-se de passagem e sem rodeios) massivo e crescente especialmente por conta de afastamentos temporários e de aposentadorias por invalidez. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) provam isso. No ano passado, foram concedidos pouco mais de 4 milhões de benefícios por incapacidade temporária que representam um aumento de 15,19% em relação a 2024. O cenário preocupa o Poder Público, mas também vários segmentos de mercado, principalmente o de seguros e, pontualmente, quem trabalha diretamente com a carteira “vida”.

“O principal gatilho de uso do seguro de vida hoje é a proteção em vida. Por meio de coberturas como perda de renda, diagnóstico de câncer, doenças graves e invalidez, principalmente para a classe média e empreendedores, funciona como um suporte financeiro essencial para a manutenção do padrão de vida e substituição de renda em casos de afastamento por doença ou acidente, impedindo que imprevistos de saúde causem um colapso no patrimônio pessoal ou no fluxo do negócio”, diz o superintendente comercial e de produtos da Seguros Unimed, Rodrigo Aguiar.
Diretora de seguros de pessoas da Tokio Marine, Nancy Rodrigues enxerga, entretanto, que o principal gatilho para o uso do seguro de vida concentre-se nas coberturas relacionadas à morte — natural, acidental e funeral — que respondem pela maior parte dos acionamentos. Em seguida, segundo Nancy, destacam-se as coberturas de perda de renda (desemprego e incapacidade temporária) e de invalidez permanente total ou parcial por acidente. “Em termos financeiros, as coberturas de morte representam cerca de 80% do valor total dos sinistros avisados, enquanto a invalidez permanente corresponde a aproximadamente 10%. Isso ocorre porque essas coberturas possuem capitais segurados mais elevados, ao contrário das coberturas de perda de renda, que geralmente têm valores menores e são limitadas a um período específico”, salienta a executiva.
Para a classe média e os empreendedores, Nancy acredita que esse cenário evidencia o papel do seguro de vida como um instrumento essencial de proteção financeira familiar e continuidade econômica. “No caso dos empreendedores, especialmente, a cobertura por morte ou invalidez é crítica para mitigar o impacto direto na renda do negócio e na manutenção do padrão de vida da família, enquanto as coberturas de perda de renda atuam como um suporte relevante em situações de interrupção temporária da atividade profissional”, afirma a executiva da Tokio Marine.
Diretor de produtos massificados, automóvel, auto frotas, parcerias e vida da Axa no Brasil, Clovis Alexandre da Silva posiciona a família em primeiro plano. O principal gatilho, como ele argumenta, continua sendo a proteção financeira da família diante de imprevistos, especialmente morte, invalidez ou perda temporária de renda, especialmente após choques com a pandemia da covid. “No Brasil, isso ganha ainda mais relevância porque muitas famílias dependem de uma única fonte de renda. Para a classe média e para empreendedores, o seguro de vida funciona como um instrumento de continuidade financeira, capaz de preservar o padrão de vida da família, honrar compromissos como financiamentos e garantir liquidez em momentos críticos”, ressalta.
Em 2024, a professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Rogiene Santos escreveu em 2024 um artigo intitulado As empresas deveriam se preocupar com a educação financeira dos seus colaboradores? no qual alerta o mundo corporativo para essa necessidade emergente. Não menos preocupante que a falta de planejamento financeiro reinante na casa do brasileiro há, contudo, outro contexto alarmante: a alta informalidade no mercado de trabalho, que, segundo Rogiane, fomenta uma questão importante sobre proteção financeira das famílias. “Uma parcela significativa dos trabalhadores não têm benefícios oferecidos no emprego formal, como previdência complementar ou seguro de vida corporativo. Nesse contexto, surge uma reflexão importante: Como se preparar para um evento inesperado, como morte ou incapacidade do principal provedor da renda familiar?”, indaga a professora da FGV.

Dados do próprio mercado securitário mostram que a discussão sobre proteção financeira ainda é, como Rogiane alerta, incipiente no país. “Estimativas indicam que apenas cerca de 19% dos brasileiros possuem seguro de vida, o que significa que mais de 80% da população adulta não conta com esse tipo de proteção financeira. Esse dado não necessariamente significa que todos deveriam contratar um seguro. O ponto central é que ele revela um espaço importante para reflexão sobre gestão de riscos financeiros familiares”, reforça.
Em famílias com renda instável ou informal, por exemplo, surgem perguntas relevantes. A primeira dela é se existe uma reserva financeira capaz de sustentar a família por alguns meses ou anos. Outro ponto, segundo Rogiane, é como a família reagiria financeiramente à perda da renda principal e, por fim, quais instrumentos financeiros poderiam ajudar a reduzir essa vulnerabilidade. “O seguro de vida aparece nesse debate como uma das possíveis ferramentas de proteção financeira, mas a decisão sobre utilizá-lo ou não depende da realidade econômica e das escolhas de cada família”, reflete.
A realidade está pintada com cores fortes. Enxergá-la com nitidez exige esforço e, sobretudo, estratégias condizentes com as demandas que o brasileiro hoje apresenta. A informalidade no mercado de trabalho brasileiro reforça, como sinaliza Nancy Rodrigues, a necessidade do setor segurador ampliar o acesso ao seguro de vida para além do vínculo formal de emprego. “Esse movimento abre espaço para o desenvolvimento de soluções mais flexíveis, acessíveis e adaptadas à realidade de autônomos, empreendedores e profissionais independentes. Nesse sentido, o cenário atual acaba impulsionando a inovação no setor e criando oportunidades importantes para expandir a cultura de proteção financeira no país”, observa.
Clovis Alexandre alerta para o fator de que muitos trabalhadores autônomos ou informais não têm acesso a benefícios corporativos, como seguro coletivo ou planos de proteção oferecidos por empresas. “Isso cria um espaço importante para soluções individuais que possam oferecer proteção financeira e renda em caso de incapacidade e imprevistos”, pontua o executivo da AXA. Ao mesmo tempo, como ele acrescenta, exige do setor segurador um esforço maior de educação financeira e adaptação de produtos com coberturas mais flexíveis e acessíveis, além de maiores desafios em relação às informações de histórico de renda do segurado tendo os microsseguros como um caminho para algumas ofertas, além de diferentes formas de cobranças não recorrentes etc.
Fomento cultural

A cristalina verdade — e dela não se pode fugir — é que as coberturas em vida ainda são pouco compreendidas pelo consumidor. Como explicar para ele parâmetros de coberturas como “invalidez permanente total ou parcial por acidente ou doença”, “doenças graves (câncer, AVC, infarto, Alzheimer etc.)”, “cobertura para profissionais liberais e autônomos” e “diária por incapacidade temporária (DIT)”? Rodrigo Aguiar reconhece que a percepção de que o seguro de vida só é acionado em caso de falecimento tem mudado significativamente, mas ainda representa um desafio de comunicação com o consumidor. “Nosso esforço está focado em reposicionar o seguro de vida como um instrumento de cuidado em vida, um suporte financeiro e de bem-estar para momentos de vulnerabilidade. Para desmistificar e facilitar a compreensão das coberturas em vida, nós focamos em demonstrar seu valor prático e a precisão do risco coberto”, destaca Aguiar. Em essência, a chave, como acrescenta o executivo, é comunicar que o seguro de vida, em sua versão ampliada com coberturas em vida, é um planejamento de risco que protege o futuro financeiro do segurado contra imprevistos de saúde, permitindo que o foco total seja no bem-estar e na recuperação.
Para Clovis Alexandre, as chamadas coberturas em vida que permitem ao segurado acessar o benefício sem que ocorra o falecimento precisam ser realmente mais difundidas. Ele cita, por exemplo, aquelas em caso de invalidez permanente total ou parcial por acidente ou doença, momento este em que o seguro garante uma indenização quando um evento compromete permanentemente a capacidade de trabalho ou autonomia do segurado. Para doenças graves, o segurado recebe pagamento antecipado ou indenização em diagnósticos como câncer, AVC ou infarto ajudando a custear tratamento e reorganizar a vida financeira durante a recuperação. “Existem também coberturas para profissionais liberais e autônomos pensadas para quem depende diretamente do próprio trabalho para gerar renda. Essas coberturas todas ampliam o papel do seguro de vida que deixa de ser apenas proteção para os beneficiários e passa a ser também um apoio financeiro direto ao segurado em momentos críticos”, afirma.
Precificação e renda complementar
A precificação do risco crescente de doenças crônicas também está no centro do debate. Para Clovis Alexandre, ela envolve uma análise atuarial baseada em diversos fatores: idade, histórico de saúde, estilo de vida, dados epidemiológicos e estatísticas de mortalidade e morbidade. “O setor acompanha de perto tendências como o aumento de doenças crônicas — diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer — para ajustar modelos de risco. Ao mesmo tempo, há um movimento crescente de incentivo à prevenção e promoção de saúde, com programas que estimulam hábitos saudáveis e acompanhamento médico, porque isso beneficia tanto o segurado quanto a sustentabilidade do produto”, constata.

Nancy Rodrigues reforça que as seguradoras precificam o risco de todas as coberturas, incluindo as doenças crônicas, com base em modelos estatísticos e atuariais que utilizam tanto dados históricos internos quanto informações públicas provenientes de órgãos governamentais. Esses modelos consideram fatores como incidência, frequência, severidade e evolução das doenças ao longo do tempo. “A precificação é continuamente revisada e aprimorada à medida que a seguradora amplia sua carteira, acumula experiência técnica e incorpora novas evidências sobre comportamento de risco, avanços médicos e mudanças demográficas, garantindo maior aderência entre risco assumido e preço praticado”, enfatiza.
Outro importante aspecto consiste em o seguro de vida tornar-se um instrumento de renda complementar, ou seja, complementar, por exemplo, ao INSS. Há, contudo, uma baixa cobertura previdenciária efetiva no país com uma parcela significativa da população que, apesar de apta, não está de fato protegida pela Previdência Social, seja por informalidade, por falta de vínculo contributivo ou por limitações na assistência.
Como apontam dados da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), os seguros de pessoas avançaram 8,3% em 2025 com indenizações pagas chegando a R$ 17,5 bilhões. As seguradoras que operam no ramo arrecadaram R$ 78,8 bilhões em prêmios, cifra R$ 6,1 bilhões acima do registrado em 2024. “Mas o ponto central não é necessariamente enxergar o seguro de vida como substituto do sistema previdenciário. A questão mais relevante é compreender como diferentes instrumentos podem compor uma estratégia de planejamento financeiro, como: poupança e investimentos; previdência complementar e proteção contra eventos inesperados. O seguro pode ou não fazer parte dessa equação. O importante é que cada indivíduo ou família reflita sobre como pretende lidar financeiramente com riscos ao longo da vida”, avalia Rogiane.
No lugar do salário
Não é exagero afirmar que o crescimento do uso do seguro de vida também pode estar relacionado ao fato de ser um benefício muito desejado. Segundo Rodrigo Aguiar, a assertiva não corresponde a um exagero, mas a uma realidade técnica: “O seguro de vida moderno atua como um substituto de salário ao blindar a capacidade de geração de renda do segurado. Diante de um afastamento por doença ou acidente, coberturas como a DIT e as indenizações por doenças graves garantem a liquidez necessária para manter o padrão de vida, preenchendo o vácuo financeiro deixado pela interrupção do trabalho e pelas limitações de teto e carência do INSS.”
Nancy Rodrigues segue outra linha opinativa: “O seguro de vida funciona como um instrumento de proteção de renda e não exatamente como um substituto de salário e pode ser visto como um mecanismo de proteção do padrão de vida da família funcionando como uma rede de segurança em situações que podem comprometer a geração de renda”, justifica. Ela pondera, contudo, que a função do seguro é justamente oferecer suporte financeiro em momentos de imprevisto, como uma incapacidade temporária, uma doença grave ou a ausência do provedor da família, ajudando a preservar a estabilidade financeira do segurado e de seus dependentes.
Seguro prestamista ampliado
Em tese, o seguro prestamista “ampliado” (ou com coberturas mais abrangentes) diferencia-se do básico por oferecer proteção para uma gama maior de eventos, trazendo mais tranquilidade financeira para o segurado e sua família, além de proteger o credor. Segundo Carlos Alexandre, o seguro prestamista tradicional protege principalmente o credor em operações de crédito, garantindo a quitação da dívida em caso de eventos como morte ou invalidez. Já as versões ampliadas incluem coberturas adicionais, como desemprego involuntário. Isso amplia, portanto, a proteção para o cliente e ajuda a evitar inadimplência em momentos de dificuldade. “Nesse sentido, ele [o seguro prestamista “ampliado”] pode contribuir para maior estabilidade financeira tanto para as famílias quanto para o sistema de crédito, pois reduz o impacto de eventos inesperados sobre a capacidade de pagamento”, reforça.
Matéria originalmente publicada na Edição #318 da Revista Apólice.




