EXCLUSIVO – Aexigência de seguro cibernético para fornecedores começa a ganhar espaço entre grandes empresas, diante do risco de incidentes que podem comprometer toda uma cadeia. O movimento foi destacado durante workshop promovido pela Howden, que discutiu os impactos dos ataques sobre as operações e as barreiras à contratação da cobertura no Brasil.
Para Marta Helena Schuh, diretora de Seguros Cibernéticos e Tecnológicos da corretora, o porte de um prestador de serviços pode levar uma empresa a subestimar sua exposição. Mesmo contratos considerados pouco relevantes podem envolver acesso a sistemas, compartilhamento de informações ou alguma dependência operacional. “Apesar de eles serem pequenos, eles podem te causar um grande prejuízo”, afirmou.
A executiva chamou a atenção para os limites dos questionários usados na contratação de fornecedores. Em sua avaliação, a autodeclaração de que existem controles de segurança nem sempre é acompanhada de uma verificação. Com isso, a contratante pode manter conexões com parceiros que não possuem a estrutura informada e que também não teriam condições financeiras de responder por eventuais danos.
Esse cenário tem levado grandes companhias a incluir o seguro cibernético entre as exigências para fechar contratos. Marta relatou a própria Howden vem recebendo pequenas empresas que procuram a cobertura por solicitação de seus clientes. Embora ainda não seja uma prática disseminada, ela observa crescimento dessa demanda como parte da gestão dos riscos de terceiros.
A exposição também aparece no sentido inverso: quando um grande cliente sofre um ataque e interrompe suas atividades, os fornecedores podem perder encomendas e receita, como exemplo de um caso passado, a diretora citou o caso da Jaguar Land Rover para mostrar como a paralisação de uma companhia pode atingir toda uma cadeia produtiva. O incidente, ocorrido em agosto de 2025, interrompeu a fabricação de veículos e levou fornecedores a enfrentar cancelamentos e adiamentos de pedidos. Em análise publicada em outubro daquele ano, o Cyber Monitoring Centre estimou um impacto financeiro de £1,9 bilhão no Reino Unido, com mais de 5 mil organizações afetadas. O levantamento considerou as perdas na montadora e os efeitos sobre fornecedores, concessionárias e outros negócios ligados à operação.
Ao comentar o episódio, Marta destacou que a concentração de negócios em um único cliente costuma ser analisada sob a perspectiva do risco de crédito. Essa mesma dependência, porém, também precisa entrar na avaliação da exposição cibernética, já que um incidente no contratante pode comprometer a atividade de empresas que não foram diretamente atacadas. Na análise sobre, o Cyber Monitoring Centre ressalta que interrupções em compradores ou clientes importantes podem ficar fora das coberturas. A existência de uma apólice, portanto, não significa que toda perda decorrente de um incidente na cadeia esteja amparada.
Apesar da ampliação das discussões sobre o tema, a contratação do seguro ainda encontra dificuldades no Brasil. Marta relatou ofertas com taxas a partir de 1% do limite contratado e associou a redução de preços à maior concorrência entre seguradoras e à melhora dos controles de segurança das empresas.
O movimento sucede o período de pressão sobre os preços durante a pandemia, quando a migração acelerada para o trabalho remoto ampliou as vulnerabilidades. Na avaliação da diretora, os investimentos feitos desde então ajudaram as empresas a atender aos requisitos das seguradoras e contribuíram para melhorar as condições de contratação.
O preço, contudo, é apenas uma parte da decisão. O desafio é traduzir avaliações técnicas de segurança em consequências que a direção consiga dimensionar, como a interrupção das operações e as perdas financeiras. “Os dois ambientes não falam a mesma língua hoje”, disse. Para ela, mapas de risco e avaliações de maturidade precisam ser relacionados aos possíveis impactos sobre o negócio para que o assunto receba a atenção necessária dentro das organizações.
As tensões geopolíticas também têm levado o tema aos conselhos de administração. No Brasil, a exetutiva destacou uma procura maior de empresas doa ramos de petróleo e gás por informações sobre a exposição cibernética, diante do uso de sistemas semelhantes aos empregados em operações no exterior. A preocupação tem gerado consultas sobre como esses riscos podem afetar os negócios e quais alternativas existem para administrá-los. Parte das empresas avançou para a contratação do seguro, enquanto outras seguem avaliando a proteção, relatou a executiva.
Para Jean Bayon de La Tour, International Head of Cyber da Howden, a preparação para um incidente passa pelo envolvimento da alta gestão em simulações de crise. Durante o workshop, ele defendeu exercícios que permitam testar os procedimentos e identificar falhas antes de uma ocorrência real.
Nessas simulações, os executivos podem avalia como reagiriam à indisponibilidade dos sistemas e quais pontos do processo de resposta precisam ser melhorados. Na avaliação de Bayon de La Tour, o aprendizado ajuda a reduzir o tempo de reação quando um incidente acontece, com efeitos sobre a duração da paralisação e os prejuízos para a empresa.
Nicholas Godoy







