Ultima atualização 23 de abril

A conta da saúde suplementar não fecha e alguém vai pagar por isso

A saúde suplementar no Brasil está ficando mais cara, mais complexa e cada vez mais difícil de sustentar, especialmente para quem, na prática, financia o sistema: as empresas. O país tem hoje mais de 53 milhões de beneficiários de planos de saúde, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgados no final de 2025, formando um dos maiores sistemas privados de saúde do mundo.

Ao mesmo tempo, a incorporação constante de novas tecnologias médicas, medicamentos de alto custo e terapias avançadas aumenta o valor médio dos procedimentos realizados no sistema. Mas há um elemento adicional nesse cenário que muitas vezes passa despercebido: a estrutura de financiamento da saúde suplementar brasileira.

Diferentemente do que ocorre em muitos países, a maior parte dos planos de saúde no Brasil está vinculada ao ambiente corporativo. Os planos coletivos empresariais representam aproximadamente 70% dos contratos do setor, o que significa que são as empresas que sustentam financeiramente grande parte desse sistema. Essa dinâmica cria uma relação direta entre saúde, economia e produtividade.

Para as empresas, os planos de saúde tornaram-se um dos principais componentes do custo de gestão de pessoas. Essa pressão é reforçada pelos reajustes dos contratos empresariais, que seguem dinâmica própria e, em muitos casos, crescem acima dos índices aplicados aos planos individuais. Em muitos casos, os reajustes anuais superam a inflação geral da economia, pressionando orçamentos corporativos e ampliando o debate sobre sustentabilidade.

Diante dessa pressão, empresas já começam a dividir o custo dos planos com os próprios funcionários. Dados da consultoria Acrisure Brasil, divulgados na imprensa nacional em fevereiro de 2026, mostram que quase metade das companhias já adota algum nível de compartilhamento da mensalidade, movimento que vem crescendo como resposta aos reajustes elevados do setor.

Se nada mudar estruturalmente, o risco não é apenas o aumento dos custos. O risco é uma redução gradual da cobertura privada de saúde, com impactos diretos sobre milhões de brasileiros e sobre a própria capacidade do sistema público de absorver essa demanda adicional.

Por isso, a discussão sobre o futuro da saúde suplementar precisa evoluir além das negociações anuais de reajuste ou das discussões pontuais entre operadoras e prestadores. O verdadeiro desafio está em transformar o modelo de gestão do sistema.

Isso passa, necessariamente, por três frentes principais: uso intensivo de dados, gestão de saúde populacional e maior eficiência operacional.

Modelos que combinam tecnologia com operação especializada têm ganhado espaço no setor, permitindo não apenas automatizar processos, mas também melhorar a tomada de decisão clínica e administrativa. Esse tipo de abordagem tem se mostrado relevante especialmente em áreas como regulação médica, auditoria de contas e gestão de autorizações, onde há grande volume de demandas repetitivas e alto impacto sobre custos.

Ao integrar tecnologia e dados à operação, conseguimos eliminar desperdícios e elevar a eficiência do sistema. Essa capacidade de adaptação é vital: sem abraçar a IA e novos modelos de gestão, corremos o risco de permitir que as pressões atuais escalem de um problema gradual para uma crise sistêmica.

Por André Machado Júnior, CEO da Maida Health.

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