Ultima atualização 16 de março

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6º ConsegNNE: CEOs debatem inovação e IA no seguro

A inovação e o avanço da inteligência artificial foram alguns dos temas centrais do painel “A Inovação Construindo Relacionamentos e Negócios”, realizado na manhã deste sábado (14) durante o 6º Congresso dos Corretores de Seguros do Norte e do Nordeste (Consegnne), em Salvador. Executivos de grandes seguradoras discutiram como a transformação tecnológica tem impactado a operação das companhias e a relação com corretores e consumidores. O debate reuniu lideranças como Eduard Folch, CEO da Allianz Seguros; Paulo Kakinoff, CEO da Porto; Carlos Alberto Trindade, CEO da Alba Seguradora; e Ney Dias, diretor-presidente da Bradesco Auto/RE. A mesa também contou com a participação de Nelson Alves, COO da Mapfre, e Marcelo Goldman, diretor de Massificados da Tokio Marine Seguradora

Durante o painel, Carlos Alberto Trindade destacou que o setor vive um momento semelhante às grandes transformações industriais provocadas pela tecnologia ao longo da história. Para ele, a inteligência artificial representa uma nova etapa dessa evolução.

Na avaliação do executivo, enquanto a Revolução Industrial ampliou a capacidade física de produção das pessoas, a inteligência artificial tem o potencial de multiplicar a capacidade intelectual dos profissionais. “O que mais me encanta na inteligência artificial é a capacidade de trabalhar lado a lado com o ser humano”, afirmou. Para Trindade, o uso dessas ferramentas tende a aumentar a produtividade das equipes e permitir que profissionais se concentrem em atividades de maior valor, especialmente no relacionamento com clientes. Ainda assim, o executivo ressaltou que a tecnologia não substitui o papel da corretagem. “A máquina pode acelerar processos e organizar informações, mas quem orienta o cliente e traduz o risco continua sendo o corretor”.

A transformação digital também foi abordada por Eduard Folch, da Allianz. O executivo destacou que a inovação sempre esteve presente na evolução do setor segurador, que ao longo das décadas incorporou novas formas de comunicação, comercialização e relacionamento com os parceiros de distribuição. “Falar de inovação em seguros é falar de mudança constante”, afirmou. Segundo ele, ferramentas como inteligência artificial ajudam a tornar processos mais rápidos e eficientes, mas exigem atenção redobrada à segurança e à transparência na relação com os clientes.

Nelson Alves, da Mapfre, reforçou que o seguro é, antes de tudo, um negócio baseado em confiança. Para o executivo, a tecnologia deve ser utilizada como instrumento para fortalecer essa relação. “O seguro é, no fundo, a compra de uma promessa. Por isso, a tecnologia precisa servir para reforçar a confiança e entregar soluções cada vez mais simples e eficientes ao consumidor”, afirmou.

Inovação também nasce de mudanças simples

Representando a Tokio Marine, Marcelo Goldman ressaltou que inovação não se limita necessariamente a grandes projetos tecnológicos. Em muitos casos, pequenas mudanças em produtos ou processos podem gerar impacto relevante para os clientes. Como exemplo, o executivo citou uma atualização recente nas condições do seguro residencial da companhia que permite utilizar a cobertura de despesas de aluguel também em situações de violência doméstica, oferecendo suporte financeiro para que vítimas possam deixar o local de risco.

Goldman também destacou os investimentos da seguradora em tecnologia e automação, incluindo iniciativas baseadas em inteligência artificial para acelerar a análise e a liquidação de sinistros. Em alguns casos, explicou, processos que antes levavam dias já podem ser concluídos em poucas horas. “A tecnologia tem nos permitido reduzir significativamente o tempo de pagamento de sinistros, melhorando a experiência do cliente e do corretor”.

Outro ponto recorrente no debate foi o baixo nível de proteção securitária no Brasil. Executivos destacaram que a penetração do seguro ainda é limitada em diversos segmentos, o que representa tanto um desafio quanto uma oportunidade para o mercado.

Nesse contexto, o diretor-presidente da Bradesco Auto/RE, Ney Dias, chamou atenção para o chamado “gap de proteção”, ou seja, a diferença entre as perdas econômicas e a parcela efetivamente coberta por seguros. Dados apresentados durante o painel indicam que, em eventos climáticos recentes, apenas uma pequena parte dos prejuízos registrados no país estava protegida por apólices. A ampliação da cobertura, portanto, depende de estratégias que combinem inovação, educação financeira e desenvolvimento de novos produtos.

Para Paulo Kakinoff, da Porto, a inovação precisa ser vista como uma agenda conjunta de toda a indústria seguradora. O executivo destacou que o avanço tecnológico deve estar direcionado, sobretudo, à ampliação da proteção da sociedade. Na avaliação dele, o Brasil ainda apresenta níveis de penetração do seguro inferiores aos de muitos países comparáveis, o que evidencia o potencial de crescimento do setor. “Precisamos direcionar a inovação para aquilo que realmente importa: ampliar a proteção das pessoas e das empresas”, afirmou.

Kakinoff também ressaltou que a tecnologia deve servir para potencializar, e não substituir, a principal característica da indústria seguradora: o relacionamento humano. “O que vendemos todos os dias é proteção contra o imponderável. Isso envolve confiança e relação humana, algo que nenhuma tecnologia substitui”, concluiu.

Na sequência da programação, o evento recebeu o professor Abel Veiga Copo, da Universidad Pontificia Comillas, que apresentou a palestra “Impasses da Inteligência Artificial”, trazendo uma reflexão profunda sobre os impactos da tecnologia no mercado de seguros e no direito. Especialista em direito securitário e autor de mais de 130 obras, o professor tem se dedicado nos últimos anos a estudar a relação entre inteligência artificial, regulação e seguros, incluindo temas como discriminação algorítmica e o uso de dados no setor.

Durante sua exposição, Copo provocou o público com uma pergunta central: a inteligência artificial está criando uma crise de segurabilidade? Segundo ele, a expansão das tecnologias de análise de dados e de previsão pode alterar profundamente um dos pilares históricos do seguro: a aleatoriedade. “O seguro sempre se baseou na incerteza. Se a tecnologia passa a prever cada vez mais os riscos, precisamos nos perguntar qual será o papel do seguro no futuro”, afirmou.

O professor explicou que, com a enorme quantidade de dados disponíveis desde hábitos de consumo até informações de saúde captadas por dispositivos digitais, seguradoras e empresas passam a ter capacidade cada vez maior de prever comportamentos e riscos individuais. Isso pode enfraquecer princípios tradicionais do setor, como a mutualidade, que distribui riscos entre grupos.

Outro ponto central da palestra foi o papel da regulação diante desse avanço tecnológico. Para Copo, cabe aos governos e legisladores estabelecer limites claros para o uso da inteligência artificial, especialmente quando decisões automatizadas impactam diretamente a vida das pessoas. “Se não houver regulação, podemos chegar a uma terra de ninguém”, alertou.

O especialista também destacou que, apesar do avanço tecnológico, o papel humano no mercado de seguros continua essencial, especialmente no trabalho de corretores e mediadores. Para ele, a tecnologia pode automatizar tarefas burocráticas, mas não substitui a capacidade humana de compreender contextos, orientar clientes e gerar confiança. “A confiança não está em um algoritmo. Está no corretor, no produto e na clareza das coberturas”, disse.

Ao longo da palestra, Copo também abordou riscos como a discriminação algorítmica, quando sistemas automatizados utilizam dados pessoais para selecionar ou excluir clientes, muitas vezes sem transparência. Para o professor, esse é um dos grandes debates éticos e jurídicos do futuro do setor. Ele concluiu destacando que a inteligência artificial traz enormes oportunidades para o mercado, como maior eficiência na análise de sinistros e gestão de riscos, mas reforçou que o desafio será equilibrar inovação tecnológica, proteção de dados e justiça nas relações contratuais.

Nicholas Godoy, da Bahia

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