Ultima atualização 23 de março

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Sucessão em corretoras ganha liderança feminina

EXCLUSIVO – No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a discussão sobre liderança feminina ganha novos contornos no mercado de seguros. A sucessão em empresas familiares raramente é um processo simples. No segmento de corretagem, historicamente marcado por lideranças masculinas e relações construídas ao longo de décadas, esse movimento ganha camadas adicionais de complexidade. Mais do que assumir um negócio, a nova geração precisa equilibrar legado, transformação e legitimidade em um ambiente altamente relacional.

Esse cenário reflete uma estrutura ainda em transformação. Dados recentes do setor mostram que, embora as mulheres já representem cerca de 55% da força de trabalho nas seguradoras, sua presença diminui à medida que se avança na hierarquia. Nos cargos de diretoria, por exemplo, ainda há aproximadamente 2,4 homens para cada mulher, um avanço em relação ao passado, mas que evidencia um funil persistente na ascensão à liderança.

Michelle Cunha

A desigualdade também se manifesta em outros indicadores. Em média, mulheres recebem cerca de 70% do salário dos homens no setor e têm menor acesso a promoções: enquanto aproximadamente 14% dos homens são promovidos anualmente, entre mulheres esse índice gira em torno de 9%. Esses dados ajudam a dimensionar o desafio estrutural que acompanha os processos sucessórios, especialmente quando o protagonismo feminino entra em cena.

Para muitas mulheres que hoje ocupam posições estratégicas em corretoras, esse caminho começa antes mesmo de qualquer decisão formal. “Minha trajetória no mercado de seguros começou dentro da corretora da minha família, o que me proporcionou um contato muito próximo com o negócio desde cedo”, afirma Michelle Cunha, sócia e gestora da Insurance Broker Assessoria e Corretora de Seguros, empresa integrante do Grupo Exalt. “Iniciei atuando em funções operacionais, buscando compreender todas as rotinas, processos e, principalmente, o relacionamento com os clientes”.

Essa construção gradual, baseada na vivência prática e no entendimento profundo da operação, é uma característica recorrente em processos sucessórios no setor. Mais do que uma transição formal de comando, trata-se de uma jornada de preparação que muitas vezes silenciosa envolve ganhar espaço, assumir responsabilidades e, sobretudo, construir autoridade.

Viviane Grossi Conceição

No caso de Viviane Grossi Conceição, sócia-diretora da Corretora de Seguros N&G, empresa integrante do Grupo A12+, a entrada no negócio da família foi resultado de uma decisão amadurecida. “Sempre tive o desejo de construir minha própria trajetória profissional fora do ambiente familiar. Queria me provar para mim mesma”, conta. Após uma década atuando em uma multinacional, a decisão de ingressar na corretora veio acompanhada de um novo objetivo. “O desejo de empreender começou a ganhar força. Sabia que entrar na empresa representava mais do que uma oportunidade profissional, mas um passo de continuidade e evolução”.

Apesar das trajetórias distintas, os relatos convergem em um ponto central: a sucessão, no mercado de corretagem, raramente acontece de forma abrupta. Em geral, ela é construída ao longo do tempo, combinando planejamento e adaptação. “A transição é uma combinação diária de planejamento e construção natural”, explica Michelle. “Existe uma expectativa de continuidade, mas também uma preocupação em garantir estrutura nesse processo”.

Legado e legitimidade

Se assumir uma posição de liderança já é um desafio em qualquer contexto, nas empresas familiares ele ganha contornos específicos. A nova geração precisa não apenas dar continuidade ao negócio, mas também conquistar legitimidade diante de equipes, clientes e parceiros. “Um dos principais desafios é consolidar uma posição de liderança em um ambiente onde já existe uma história construída”, afirma Michelle. “Isso envolve assumir responsabilidades estratégicas e, ao mesmo tempo, conquistar legitimidade”.

Esse processo passa, inevitavelmente, pela forma como a liderança é construída no dia a dia. No caso de Viviane, a estratégia foi baseada em escuta e integração. “Dediquei esse primeiro momento a uma imersão estruturada, com reuniões junto a todos os setores da empresa e conversas individuais com cada liderança”, explica. “Mais do que entender o funcionamento do negócio, esse movimento foi fundamental para construir relações de confiança”.

A construção de autoridade, nesse contexto, deixa de ser uma imposição hierárquica e passa a ser um processo relacional. “Sempre houve um cuidado muito grande em respeitar as trajetórias já existentes. A liderança só faz sentido quando construída de forma coletiva”, completa Viviane.

Mas esse caminho também é atravessado por riscos pouco visíveis. Um dos mais relevantes é a perda de talentos ao longo da trajetória profissional. Dados do setor indicam que entre 30% e 40% das mulheres deixam o mercado após a maternidade, o que impacta diretamente a formação de novas lideranças e a própria sustentabilidade dos processos sucessórios no longo prazo.

O recorte feminino entre percepção e realidade

Embora cada trajetória seja única, o fator gênero ainda aparece como um elemento relevante no setor. Tradicionalmente masculino, o mercado de seguros impõe, em muitos casos, desafios adicionais para mulheres em posição de liderança, especialmente em contextos sucessórios. “No meu caso específico, não senti diretamente essa diferença, mas acredito que, de forma geral, ela existe”, afirma Michelle. “Em muitos casos, há um desafio adicional de demonstrar que a posição ocupada é resultado de preparo e mérito”.

Viviane compartilha uma visão complementar. “Ser mulher influencia a forma como vivenciamos nossa trajetória. Isso se traduz em um olhar mais atento às relações, à escuta e à construção de conexões”, diz. Ao mesmo tempo, ela destaca a necessidade de assertividade. “Também exige firmeza para ocupar espaços e se posicionar com segurança”.

Esse equilíbrio entre sensibilidade e posicionamento tem se consolidado como uma característica marcante de uma nova geração de lideranças no setor, trazendo não apenas diversidade, mas também novas formas de gestão e relacionamento. Ao mesmo tempo, a realidade fora das empresas também pressiona essas trajetórias. Cerca de 70% das executivas relatam impacto direto da chamada “geração sanduíche”, quando é preciso conciliar carreira, filhos e o cuidado com os pais. Ainda assim, o movimento de transformação é reconhecido: mais de 60% das profissionais avaliam que houve avanço nas oportunidades de liderança nos últimos anos, indicando que, apesar dos desafios estruturais, a mudança está em curso.

Ao olhar para o futuro, as duas executivas convergem em um ponto central: protagonismo e preparo são determinantes para ampliar o espaço feminino no setor. “Meu principal conselho é buscar preparo contínuo e assumir o protagonismo da própria trajetória. É fundamental entender o negócio em profundidade, conquistar espaço e construir credibilidade ao longo do tempo”, conclui Michelle Cunha.

Na mesma linha, Viviane Grossi reforça a importância da construção ativa de carreira. “Permitam-se experimentar, se desafiar e evoluir continuamente. A jornada exige resiliência, confiança e coragem para ocupar espaços com autenticidade. O caminho pode trazer desafios, mas também oferece oportunidades reais de crescimento e transformação”, finaliza.

Nicholas Godoy

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