Ultima atualização 08 de abril

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Com menos seguro, agro enfrenta crédito mais caro e maior exposição

Da esqu. para dir.: Eliton Oliveira, Diretor Administrativo da CNM; Tadeu Silva, Presidente da Acrefi; Ingo Ploger, presidente da ABAG; e Dyogo Oliveira, presidente da CNseg - Foto Divulgação: CNseg
Da esqu. para dir.: Eliton Oliveira, Diretor Administrativo da CNM; Tadeu Silva, Presidente da Acrefi; Ingo Ploger, presidente da ABAG; e Dyogo Oliveira, presidente da CNseg - Foto Divulgação: CNseg

EXCLUSIVO – O avanço do agronegócio brasileiro e a crescente complexidade do seu financiamento colocaram o seguro rural no centro da agenda setorial. Essa foi a principal conclusão do “Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio”, realizado nesta terça-feira (8), em Brasília na sede da Confederação Nacional de Municípios (CNM), reunindo lideranças da Confederação Nacional das Seguradoras, Associação Brasileira do Agronegócio e Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, além de parlamentares e representantes do mercado.

Em meio a mudanças estruturais no crédito rural, avanço do mercado de capitais e intensificação dos riscos climáticos, o consenso entre os participantes foi direto: o modelo atual não é mais suficiente, e o seguro precisa deixar de ser coadjuvante para se tornar pilar da política agrícola.

Na abertura, o presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira, fez um diagnóstico contundente sobre o estágio do seguro rural no país. Segundo ele, o Brasil ainda carrega uma distorção histórica ao priorizar o crédito em detrimento da proteção. “O país foi muito eficiente em desenvolver o crédito rural, mas não fez o mesmo com o seguro”, afirmou.

Os dados ilustram esse descompasso. A área segurada, que chegou a 13,7 milhões de hectares em 2021, caiu para cerca de 3,2 milhões em 2025, em um movimento que, segundo o executivo, reflete diretamente a redução dos recursos destinados à subvenção ao prêmio.

Para Dyogo, essa retração gera um efeito sistêmico negativo. “Para economizar algumas centenas de milhões, gasta-se dezenas de bilhões na renegociação de dívidas”, disse, ao criticar a lógica fiscal adotada nos últimos anos. Além disso, o cenário climático agrava o problema. Eventos extremos, antes considerados pontuais, tornaram-se mais frequentes e passaram a atingir regiões historicamente estáveis, alterando o perfil de risco da atividade agropecuária.

Se por um lado o crédito rural segue relevante, por outro, sua dinâmica mudou de forma significativa. O presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Tadeu Silva, destacou que o financiamento do agro deixou de ser predominantemente público e passou a contar cada vez mais com capital privado e instrumentos de mercado.

Nesse contexto, dados do ciclo 2025/2026 indicam perda de tração nas linhas tradicionais. O investimento rural recuou 20% até fevereiro, enquanto o Moderfrota registrou queda de 49%, passando de R$ 6,85 bilhões para R$ 3,48 bilhões. Em contrapartida, instrumentos mais modernos avançam rapidamente. A Cédula de Produto Rural (CPR) atingiu R$ 163,4 bilhões em contratações, com crescimento de 39%, além da expansão de estruturas como Fiagros e operações privadas ao longo da cadeia.

Para Tadeu Silva, o desafio deixou de ser apenas volume de crédito. “Não basta ampliar recursos. É preciso construir um ecossistema mais inteligente, com dados, previsibilidade e mitigação de risco”, frisou. Nesse ponto, o seguro aparece como elemento estruturante: “Se o risco de produção continuar descoberto, o sistema permanece vulnerável”.

Especificidades do agro brasileiro exigem novo desenho

O presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Ingo Ploger, trouxe uma leitura mais estrutural ao debate. Segundo ele, o Brasil opera sob uma lógica produtiva distinta, marcada por ciclos contínuos e ausência de estoques reguladores relevantes. “Aqui, uma safra empurra a outra”, disse Ingo, ao destacar a dinâmica intensiva da agricultura tropical.

Essa característica aumenta a dependência de eficiência logística e reduz a margem para absorção de choques, especialmente em um cenário global de instabilidade. Para Ploger, o país precisa avançar em instrumentos financeiros mais sofisticados, incluindo soluções de resseguro e fundos de catástrofe.

Ele também sugeriu discutir alternativas de funding mais robustas, como o uso de reservas internacionais como lastro para ampliar a capacidade de cobertura, proposta que ainda depende de amadurecimento técnico e institucional.

No campo político, a avaliação é de que o modelo atual está esgotado. A senadora da república, Tereza Cristina (PP-MS) foi direta ao afirmar que o seguro rural precisa ganhar escala e se consolidar como política de Estado. “O seguro precisa entrar na cultura do brasileiro”, disse.

A parlamentar criticou a dependência do Plano Safra como eixo central do financiamento agrícola e defendeu maior uso de instrumentos de mercado de capitais. Ao mesmo tempo, reforçou que o seguro deve ser tratado como base desse novo modelo. Segundo ela, o orçamento destinado à subvenção está muito aquém do necessário. “Colocaram pouco mais de R$ 500 milhões. O ideal seria algo próximo de R$ 4 bilhões”, comentou a senadora.

Senadora da República, Tereza Cristina – Foto Divulgação: CNseg

Congresso avança em novo marco legal

Relator do Projeto de Lei nº 2951/2024 na Câmara dos Deputados, de autoria da senadora Tereza Cristina (PP-MS) e já aprovada no Senado, busca reformular e modernizar os marcos legais do seguro rural no Brasil, com foco em aumentar a proteção ao produtor. que reformula o seguro rural, o deputado federal, Pedro Lupion (Republicanos-PR), destacou que o Congresso trabalha para modernizar a legislação diante de um cenário cada vez mais adverso ao produtor.

Deputado federal, Pedro Lupion (Republicanos-PR) – Foto Divulgação: CNseg

Entre os fatores de pressão, ele citou juros elevados próximos de 20% ao ano em termos reais, aumento de custos, insegurança jurídica e impactos geopolíticos sobre insumos como fertilizantes. “O custo do crédito hoje é um dos principais entraves ao investimento”, alertou o deputado.

O projeto em discussão prevê a criação de um fundo de estabilização e a proibição do contingenciamento de recursos do seguro rural. A proposta também busca ampliar o compartilhamento de risco e integrar melhor crédito, seguro e mercado de capitais.

Apesar das discussões em andamento, o curto prazo é desafiador. Durante coletiva, Dyogo Oliveira apresentou projeções revisadas para o segmento: após retração de 8,8% em 2025, a expectativa é de nova queda de 3,9% em 2026. Entre os principais fatores estão a redução da subvenção, o aumento do risco médio das apólices e atrasos nos repasses públicos, que já somam cerca de R$ 500 milhões devidos às seguradoras.

Esse cenário gera um efeito de retroalimentação negativa. Com menos produtores segurados, o mutualismo se enfraquece, elevando o custo do seguro e reduzindo ainda mais sua adesão. “É um sistema em que, quanto menor a base, maior o custo médio”, explicou Dyogo.

Seguro deixa de ser acessório e vira condição para o crédito

Ao final do encontro, ficou evidente que o seguro rural deixou de ser um instrumento complementar e passou a ser condição essencial para o funcionamento do novo modelo de financiamento do agronegócio. Com o avanço do capital privado, a lógica de concessão de crédito mudou e a tolerância ao risco diminuiu. “O investidor privado executa garantias. Ele não tem a mesma flexibilidade do crédito público”, pontuou Oliveira.

Nesse contexto, a ausência de cobertura amplia o risco sistêmico, pressiona o custo do financiamento e compromete a sustentabilidade da cadeia. A leitura predominante entre os participantes é de que o Brasil já possui escala, tecnologia e relevância global no agronegócio, mas ainda carece de um sistema financeiro compatível com essa realidade.

Sem um seguro rural robusto, acessível e previsível, esse descompasso tende a se aprofundar. “Sem seguro, não há confiança. E sem confiança, o crédito não chega na escala que o setor precisa”, concluiu o presidente da CNseg.

Nicholas Godoy, de Brasília

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